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Ferreira Gullar e o prazer do poema

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Ferreira Gullar
Ferreira Gullar

“Este livro nasceu de uma descoberta, a descoberta de uma coisa que eu já sabia: que o poema pode deslumbrar. Não serão todos os poemas, certamente, nem mesmo todos os bons poemas. Porque há bons poemas que não deslumbram. Isso é matéria talvez para uma teoria da comunicação poética, que não cabe aqui. De qualquer modo, foi o encontro com esses poemas que deslumbram que determinou a composição desta antologia."

É assim que o grande poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta, Ferreira Gullar, justifica a razão para compilar, ao longo de 30 anos, uma antologia pessoal dos poemas que mais lhe deslumbraram ao longo de 84 anos de vida. A obra O prazer do poema – uma antologia pessoal (Edições de Janeiro, 376 pág.) só foi publicada no final de 2014, por causa da dificuldade em conseguir autorização para usar os versos de vários autores. “Entreguei o livro ainda para a José Olympio. Eles tentaram publicar o livro, mas não conseguiram por falta de permissão ou porque herdeiros cobravam uma fortuna para usar um só poema. Os herdeiros de Jorge Luis Borges, por exemplo, se negavam a autorizar", diz o escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, por telefone, ao JC.

O livro compila dezenas de “poemas que, por alguma razão misteriosa, permaneceram em minha memória e que, relidos hoje, voltam a provocar (ou não) aquele curto-circuito que me parece ser a causa do deslumbramento", explica na introdução do volume. A seleção conta com mais de 80 poetas, com destaque a Rimbaud, Drummond, João Cabral, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Camões, César Vallejo, Borges, Mário de Andrade, Rainer Maria Rilke e T. S. Elliot, entre outros.

Ferreira Gullar optou por traduzir muitos poemas em língua estrangeira em razão do caráter extremamente pessoal da escolha das poesias. Ele também contou com traduções consagradas e com a ajuda de amigos como Ivan Junqueira, Nicanor Parra, Jean Claude Elias, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Pierre Grimal, Ivo Barroso e Jorge Wanderley.

O poeta, vencedor de prêmios internacionais como o Camões e celebrado com um dos maiores nomes vivos da literatura, diz que não tem mais grandes ambições na carreira – na verdade, nunca as teve. “Nunca pensei que nada disso ia acontecer. Nunca imaginei uma carreira literária, ou que seria um autor famoso. O sentido da minha vida era fazer as coisas, me comunicar com os outros. Fui reconhecido por isso, mas não era o objetivo", explica.

Ferreira Gullar está confirmado no Fronteiras do Pensamento São Paulo 2015.
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Leia abaixo três dos poemas selecionados por Ferreira Gullar na obra O prazer do poema:

Soneto LII (Luís de Camões)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Foi um momento (Fernando Pessoa)
Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!…

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa Incompreendida…

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Vagabundagem (Arthur Rimbaud)
Lá ia eu com as mãos em meus bolsos furados;
O paletó também se tornara irreal;
E sob aquele céu, Musa! eu era teu vassalo;
E imaginava amores nunca imaginados!

Nas calças um buraco e eu só tinha aquelas.
– Pequeno Polegar das rimas, sonhador,
Instalei meu albergue na Ursa Maior.
– Lá no céu o frufru de seda das estrelas…

Eu as ouvia, sentado à beira das estradas,
nas noites boas de setembro, quando o orvalho
revigorava-me a fronte como um vinho;
E em meio às sombras fantásticas, então,
dedilhava, como se fossem lira, os elásticos
de meus sapatos, o pé junto do coração!