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Ferreira Gullar responde a Pergunta Braskem: para fazer arte engajada

Ferreira Gullar no Fronteiras do Pensamento São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Ferreira Gullar no Fronteiras do Pensamento São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

Poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro, Ferreira Gullar foi o conferencista da noite de 30 de setembro, quarta-feira, no Fronteiras do Pensamento São Paulo. No palco do Teatro Cetip, Gullar falou sobre a importância e os limites da poesia, sobre a sociedade contemporânea e sobre o tema do Fronteiras do Pensamento 2015, Como viver juntos:

“Os homens, embora sejam iguais em direito, não o são em qualidades. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Nós a inventamos porque não aguentamos a desigualdade. Se a sociedade não pode ser completamente justa, pode ser menos desigual. A solução para vivermos juntos é sermos tolerante a opiniões diferentes das nossas."

Após sua conferência, Gullar respondeu a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias sociais. Desta vez, a pergunta veio da Natália da Silva Matte. Confira abaixo:

Natália da Silva Matte: A sua trajetória como poeta foi marcada por um início engajado, por uma poesia como expressão artística e politicamente engajada. Como analisa a importância disso para o poeta que você é hoje? O que a literatura pode fazer pela cidadania?
Ferreira Gullar:
É uma pergunta difícil de responder. Na verdade, a literatura não pode fazer muito para acabar com os conflitos. Eu já fui poeta engajado, eu fui do Partido Comunista, eu acreditava nas ideias marxistas, pelo seguinte: é indiscutível que buscar a sociedade justa não pode ser considerado um erro. Como buscá-la é a questão.

Todos os que se envolveram nisso eram generosas e procuravam o melhor para as pessoas, inclusive mais para os outros do que para elas. Mas, quando você faz literatura, você tem que, sobretudo, fazer literatura e não política. Se você der predominância à política, a poesia que você vai fazer pode ter certeza que não presta. Você tem que dar predominância à poesia. O assunto, o propósito, pode ser político, mas o valor predominante, o poeta tem que fazer boa poesia.

É como o Brecht fez no teatro. Ele faz um teatro político, mas ele faz, sobretudo, teatro. Teatro de qualidade. Falo isso, porque tive a experiência do CPC, eu fui presidente do CPC onde participei com o Vianinha, com o João das Neves, com todo aquele pessoal nosso, com a Thereza Aragão, da luta antes do golpe militar. E todos nós aprendemos que, às vezes você tem boas intenções, fazendo o teatro político que pregava a reforma agrária, que pregava a independência do país, mas, as pessoas iam embora porque era ruim.

Uma vez, a gente foi para a Favela do Pinto, na Praia do Pinto, lá no Rio. O Vianinha estava com um chapéu enorme do Tio Sam na cabeça e o João das Neves vestido de operário com uma chave inglesa na mão. Quando eles chegaram, no centro da pracinha da favela, as mulheres e os homens adultos foram todos embora, ficaram as crianças. Aí, eles continuaram fazendo: 'porque o imperialismo e tal e coisa...' para as crianças de seis anos. E eu olhando aquilo. Quando terminou aquilo eu pedi uma reunião lá no CPC e falei: 'mas vem cá. Vocês vão ficar pregando luta anti-imperialista pra criança de seis anos de idade?' Nós fomos para o Sindicato dos Bancários, saiu todo mundo e só ficou a direção do sindicato, comunista como nós. Nós fomos para o Sindicato dos Metalúrgicos, foi todo mundo embora e só ficou a direção do Sindicato, também comunista como nós. Nós estamos pregando comunismo para comunista.

Nós aprendemos. Quando nós fizemos o Grupo Opinião, depois do Golpe, nós aprendemos. Primeiro, fazer teatro de qualidade, com conteúdo político. Continuamos a ter conteúdo político, mas a qualidade artística, dramatúrgica, passou a ser a preocupação principal. Essa é a lição que eu aprendi.

Confira abaixo as principais ideias de Ferreira Gullar apresentadas em sua conferência:

Poema Sujo

Eu escrevi o poema sujo como quem faz a última coisa da vida. É um poema longo, como nunca havia escrito e como nunca mais escrevi. É uma espécie de testemunha da minha própria vida.

O acaso e a poesia
Poesia não se sabe direito o que é. Ao começar uma poesia numa página em branco, qualquer coisa pode ser escrita. Ao escrever a primeira palavra, eu reduzo o acaso, a probabilidade do que sairá dali fica reduzida. Numa determinada altura, o poema é quem manda, as palavras vão se tornando necessárias, é um jogo entre o necessário e o acaso. A cada palavra escrita, vai se estabelecendo o que vem a seguir: apenas algumas palavras vão passando a caber ali naquele espaço. Troca-se o acaso pela necessidade de se finalizar o texto da forma que tem de ser.

Violência e impunidade
Não é possível o convívio humano sem normas. Se o cara viola a normal social, ele tem que ser punido. Quando a sociedade não pune, há quem faça justiça com as próprias mãos, o que leva ao caos. Hoje, é proibido punir, porque tudo 'é culpa da sociedade'. 'A culpa da sociedade' foi o socialismo que criou. Eu não vou culpar o cara, 'porque ele é vítima', porque 'o problema é social'. Então, eu vou esperar dois séculos o cara assaltar, matar e eu vou ficar esperando, 'porque ele é injustiçado'. Nós temos que corrigir a injustiça, mas, se o cara assaltar e matar o outro, ele tem que pagar por isso.

Tolerância
Na sociedade de hoje, não existe mais opinião: é tudo preconceito. Não pode ser assim. O caminho certo é ser tolerante. Se não tiver tolerância, está errado. Todo mundo tem que ceder.

O futuro do poeta Gullar
Eu não vou escrever poesia ruim para dizer que eu continuo escrevendo poesia. É preciso de espanto para fazer poesia e há cinco anos, desde que escrevi a última poesia, nunca mais vivi esse espanto e parei. Poesia não é quantidade, poesia é qualidade.

O espanto e a Autobiografia Poética, sua obra mais recente
O que é o espanto? O mundo não tem explicação. Para quem acredita em Deus, e eu respeito, está explicado. Nostalgia do espanto foi a motivação para escrever essa biografia. Já que não vivo mais o espanto para escrever a poesia, fui buscar essa sensação no passado.


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