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Filósofo britânico John Gray ataca 'problemas insolúveis' da era moderna

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John Gray em Oxford, no Reino Unido (foto: David Levenson/Getty Images)
John Gray em Oxford, no Reino Unido (foto: David Levenson/Getty Images)

"A existência é uma batalha contínua, não o acúmulo de vitórias da 'razão' sobre as 'trevas'. Ou do 'bem' sobre 'o mal'." É o que diz Luiz Felipe Pondé, em coluna para a Folha, sobre o filósofo John Gray, conferencista desta semana no Fronteiras do Pensamento.

Envie sua pergunta para Gray pelo e-mail digital@fronteiras.com até a manhã desta quarta-feira (08). A questão selecionada será proposta ao filósofo diretamente do palco do Fronteiras. A resposta será divulgada na quinta-feira, nos canais digitais do projeto. Leia mais sobre o pensamento do convidado segundo Luiz Felipe Pondé:

O homem moderno não é mais sábio do que o antigo. O contrário é mais provável. Marco Aurélio não era pessimista, apenas não padecia da praga do "mito do progresso". Nesse sentido, todo moderno iluminista é um idiota.

Enquanto não notarmos que nossa capacidade de produzir conhecimento não vem com a habilidade de aprender com isso, não haverá esperança.

Essas são ideias do filósofo John Gray, que participa, nesta segunda (6), do Fronteiras do Pensamento, evento do qual a Folha é parceira.

"Poucos estão dispostos a admitir que a maioria dos problemas modernos são insolúveis", diz o britânico, acrescentando que só aqueles conscientes de que a modernidade não tem cura podem contemplar alguma redenção.

Em sua opinião, é provável que o céu e a Terra nos joguem fora como "cachorros de palha", sacrificados em nome de nossa estupidez. "Em geral, partilho da visão de Michel de Montaigne que vê a busca da sabedoria como uma atividade pouco sábia."

Questionado se ele se considera um pessimista, diz: "Era Homero um pessimista?" Segundo ele, só os que acreditam no progresso podem vê-lo como pessimista.

Como afirma em seu "The Silence of Animals", para Gray a obsessão humana por sua superioridade entre os seres vivos mostra nossa incapacidade de ver que o silêncio dos animais pode ser uma forma elegante de observação. Eles nos contemplam com sabedoria. Se falassem, diriam: "Esses humanos inquietos passarão!".

Gray é um filósofo que pensa a partir de "profundidades", sejam elas cósmicas (nos lançando, por exemplo, ao "reino animal" como contraponto ao racionalismo "besta" dos modernos), sejam elas morais, pressentindo um perfume trágico na experiência do animal humano.

Em sua obra sobre o filósofo britânico Isaiah Berlin, Gray identifica nele a ideia de "escolha radical". Para Gray, este conceito de Berlin é superior à clássica noção de "escolha racional" dos utilitaristas (um fetiche ético moderno).

Se, para esses, escolhemos as coisas boas em detrimento das ruins (sendo assim, racionais), para Berlin, somos, na realidade, obrigados, nos momentos mais críticos, a escolher entre coisas boas, que são tragicamente excludentes.

A existência é uma batalha contínua, não o acúmulo de vitórias da "razão" sobre as "trevas". Ou do "bem" sobre "o mal". Talvez, por isso, Gray pense que os filósofos religiosos sempre são mais originais do que os iluministas.

Aqueles sabem que somos animais do mito, enquanto estes creem cegamente que somos seres da razão. O abismo convoca o humano ao seu abismo se ele desistir de mentir sobre si mesmo.

(Via Folha de S.Paulo)