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Geoffrey West e a ciência das cidades

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"A interação entre as pessoas é a força propulsora subjacente a todas as cidades". - Geoffrey West, Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

Durante muito tempo a cidade foi sinônimo de progresso e civilidade. No começo se tratava de um lugar onde reinava a esperança, e onde nasceram o livro, a democracia, a arte e outros tantos valores que acabamos repassando às gerações. Mas, atualmente, o quadro é outro: violência, fome, pobreza e poluição. O sentido de civitas, civilidade, dá lugar a insustentabilidade.

As cidades dão sinais de cansaço e as crises induzidas pelos problemas de mobilidade e aquecimento global. Hoje elas revelam dramas humanos, mas como explicar seu funcionamento e complexidade? É este o cenário e a questão crucial que motiva o pesquisador britânico Geoffrey West. O físico, interessado pela matemática da biologia, tem como objeto de pesquisa o mundo do século XXI, com 7 bilhões de habitantes dos quais 3,6 bilhões reside nos centros urbanos - e em cidades que beiram o colapso da sustentabilidade.

Apresentado no Salão de Atos da UFRGS como "mestre do metabolismo urbano", o pesquisador premiado já foi reconhecido como uma das "100 Pessoas Mais Influentes do Mundo" pela revista Time. Seu trabalho foi selecionado como ideia revolucionária pela Harvard Business Review, e embora trate de temas complexos, repousa sobre raciocínios e leis bastante recorrentes para o funcionamento da vida: a escala, a segunda lei termodinâmica e o paradigma do tempo.

West parte de um uma constatação bastante óbvia: "posso prever que todos nós estaremos mortos daqui há 100 anos. Não posso prever quantos anos vou viver, mas em um raciocínio granular, posso afirmar que daqui há 100 anos, há essa probabilidade". A partir daí, West traz dados do mundo fisiológico: "Os animais também revelam escalas. Se colocarmos um rato, um elefante e uma baleia em um mesmo gráfico, vemos relações logarítmicas no metabolismo da vida. Por isso, ao plotarmos a taxa metabólica destes animais, vemos uma regularidade. E ao dobrar o tamanho do organismo, percebemos que ele só precisa de 75% da mesma energia - ou seja, há uma economia sublinear de escala. Cada vez que se dobra o tamanho, economiza-se 25% - dado que tem um papel crucial na biologia inteira", explicou.

Em função disso, os cálculos de West - e sua pesquisa com as mais diversas variáveis, como o número de postos de gasolina, as redes de abastecimento de água, de energia e de serviços de saúde, entre outros - revelam sempre 15% de economia de escala nas cidades. Tal métrica socioeconômica é presente no mundo inteiro, como comprovam seus estudos na China, no Chile e em Nova York. No entanto, quanto maior a cidade, mais gastos com salários, mais pessoas criativas, mais patentes per capita: "ao invés de -1, como na biologia, temos 1, mais impostos, mais mortes, mais policiamento, mais casos de gripe. Por isso há o bom, o mau e o feio: economizamos 15% em infraestrutura, mas aumentamos todo o resto também em 15%. Sempre há um preço a pagar".

Como disse o físico, "as pessoas querem acesso a serviços e conhecimentos que vêm da energia e de diversos outros recursos. Mas teremos energia para suportar todo esse crescimento? Quem entende de física sabe que existe uma lei chamada de segunda lei da termodinâmica. Por exemplo, se você fizer a refeição cedo, terá de ir ao banheiro; há o preço de metabolizar a energia, o que chamamos de entropia. Pagamos então o preço da entropia socioeconômica quando vivemos em uma grande cidade: crimes, protestos, doenças, favelas e desigualdade", continuou West.

Para ele, estamos participando de um momento extraordinário de expansão do mundo. Mas nos próximos 25 anos, como informou o físico, a China estará construindo cerca de 200 a 300 cidades novas com mais de um milhão de pessoas. "Ou seja, e não temos como escapar disso. O destino do planeta está entrelaçado com o destino das nossas cidades, por isso a urgência de compreendê-la", explicou o pesquisador do Santa Fé Institute, do Novo México.

Mas como é possível que organismos totalmente diferentes - plantas, mamíferos, pássaros, centros urbanos - se comportem de maneira semelhante? "Porque são todos sistemas de redes" diz West, "de networks, de células, de circuitos internos. A matemática dessas redes é universal, independente do design, e nos dá o controle de como funciona a vida".

E mesmo que voltemos nossa atenção aos aspectos estruturais e caóticos, não podemos esquecer que as cidades são feitas de pessoas, como já dizia o escritor Shakespeare - muito citado por West ao longo de sua fala. "Esse é seu ponto focal: uma reunião de pessoas para criar o bem estar em nossa vida", afirmou. "As cidades são, então, a origem de todos os nossos problemas, mas revelam também o antídoto ao caos: a contínua inovação, pois funcionam como ímãs que atraem soluções. Além disso, são organismos muito resilientes. Você pode jogar uma bomba atômica na cidade, que daqui há 30 anos ela estará renovada", afirmou o físico.

Em função deste pensamento, West aponta a importância das redes sociais e sua capacidade modular. Será que as cidades também poderiam ser compreendidas por meio desta variável? "A universalidade das redes sociais é o reflexo de como os seres humanos interagem uns com os outros. Por isso as redes brasileiras são as mesmas, em sua estrutura, das de Osaka. Podemos ver isso com dados como registros de telefones celulares, por exemplo. Olhando para o futuro podemos entender que esta interação será a maneira como a cidade irá evoluir e ampliar sua infraestrutura".

Finalizando sua fala, West chamou atenção para o crescimento superlinear: ele é determinado pelo paradigma do tempo e "é preciso identificar quando o sistema irá entrar em colapso. Neste ponto é preciso inovar para reajustar o relógio de maneira eficaz. Se quisermos ter um crescimento sem limites, é preciso que haja inovação contínua. E os ciclos de inovação precisam ser feitos com mais velocidade, e de uma maneira mensurável e previsível. É como se estivéssemos caminhando numa esteira: precisamos apertar o passo o tempo inteiro".

Tal alerta pode ser resumido em um último exemplo dado pelo físico: "o ritmo metabólico do corpo humano é de 90 watts. Mas cada um de nós, em nossa vida atual, precisa de 11 mil watts para sustentar nosso ritmo social, o equivalente a uma dúzia de elefantes. Estamos fora de compasso com o mundo biológico. Aceleramos a velocidade da vida, mas como iremos fazer a transição desta era?". E deixou perguntas ao público que saiu do Salão de Atos da UFRGS por volta das 21h40: "Até que ponto as metáforas que usamos para compreender a vida podem nos levar a um estudo mais sério? Como as casas dos formigueiros podem estar interligadas as nossas estruturas das cidades? Quanto conectados devemos estar para sermos sustentáveis?"