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Graça Machel responde: por quanto tempo dura a solidariedade?

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“Precisamos reconhecer a dignidade de todo e qualquer ser humano. Esse é o principal sentido da vida e está ao alcance de todos nós.”

Uma das principais ativistas pelos direitos humanos no continente africano e ex-ministra da Educação em Moçambique, Graça Machel abriu o ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento São Paulo 2019, na quarta, (15), no Teatro Santander.

Ao longo da conferência, a convidada ressaltou diversas vezes a importância da igualdade. “Vamos nos concentrar naquilo em que somos iguais, e não nas diferenças que construímos. Ter a pele mais clara ou mais escura não é um critério de valor", defendeu.

Ao abordar o racismo, a ativista criticou a realidade brasileira. Para ela, precisamos nos “incomodar com a ausência de negros nos órgãos de poder”. Machel disse que, hoje, existe no mundo “uma guerra contra as mulheres em todos os estratos sociais. Por buscarem a igualdade, elas são alvo da violência dos homens”.

Mas é preciso resistir, continuou. “Não podemos aceitar que mulheres recebam salários mais baixos do que os de homens ocupando o mesmo cargo e tendo a mesma experiência.”

>> Na próxima semana, compartilharemos o vídeo exclusivo de Graça Machel no Fronteiras, Como a desigualdade nasce dentro de todos nós. Siga nosso canal no YouTube e clique no sininho para receber a notificação assim que publicarmos o conteúdo.


Após sua fala, Graça Machel participou de debate mediado pelo curador do Fronteiras, o cientista político Fernando Schuler. Foi quando ela respondeu as perguntas do público presente e a Pergunta Braskem, enviada por vocês, nossos leitores e seguidores nas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem.

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Confira as respostas concedidas por Graça Machel no palco do Teatro Santander.

Pergunta Braskem: Moçambique passou por uma tragédia natural. Como você sentiu a reação do mundo em relação ao que aconteceu? Isso mexeu com suas convicções sobre solidariedade, sobre diferenças, sobre a forma como o mundo enxerga a África ou não? Certo desalento na sua fala tem a ver um pouco com a reação do mundo em relação à tragédia em Moçambique ou nada disso te surpreendeu?

Resposta Graça Machel: Tenho que reconhecer e agradecer que, nos primeiros dias, quando a catástrofe se abateu sobre o centro de Moçambique, houve uma reação emocional positiva. Nós tivemos pessoas e instituições que vieram de muitas partes do mundo, naquela fase de busca e salvamento das pessoas.

Nós não temos razão de queixa, ao contrário. Aliás, eu devo agradecer também aos brasileiros, porque nós tivemos um grupo, acho que das forças armadas, que se juntou a Moçambique e contribuiu de forma significativa para que se reduzisse o número de perdas humanas.

Mas, depois que passou aquele período de busca e salvamento, a atenção do mundo se virou para outro lado. No entanto, é quando a solidariedade devia ser ainda mais intensa. Continuamos a chorar os mortos, mas é preciso continuar a contribuir para condições mais dignas.

Ainda hoje se vê o impacto desses dois ciclones. Ainda hoje as pessoas estão ao relento, mas já ninguém se preocupa se é importante. A atenção já se virou para o outro lado.

Quer dizer que a solidariedade tem de ir para muito mais além da emoção, tem de ser muito mais constante. Eu acho que nós temos que voltar a ganhar essa solidariedade de uma maneira muito mais constante.

Quanto à comparação com o que acontece em outras partes do mundo, quando as coisas acontecem no hemisfério sul, não têm a mesma atenção de quando acontecem no hemisfério norte, talvez também por isso o hemisfério sul tem de se unir muito mais.

A nossa vida não vale menos, pelo contrário, e nós próprios temos de afirmar isso. Ninguém vai nos oferecer se não for fruto de uma luta consciente, organizada, sistemática. Esse é o ponto que eu quero deixar como contribuição esta noite, que esses fenômenos são produtos de construções, então temos de desconstruir.


Confira outras respostas de Graça Machel, concedidas durante o debate:

Queremos entender um pouco a jovem Graça: você nasce em uma província no interior de Moçambique, pelo seu talento você vai a Portugal, estuda [Graça Machel estudou Letras Clássicas] e, em certo momento, você volta. Então, você entra como movimento guerrilheiro, vai para a selva e, obviamente, aquilo devia ser uma época dura. Hoje, a gente romantiza tudo que acontece, mas na época devia ser uma adesão muito dura, um choque muito radical. Como foi essa passagem? Qual era o sentido que você via naquele momento? Como isso refletia nas suas decisões? Como enfrentou essa transição?

Graça Machel: Eu cresci nos tempos das grandes causas e das motivações. Ir estudar em Portugal era algo que me permitiria ter mais contato com aquilo que se estava a passar do outro lado do meu país, onde a luta já estava desencadeada. Era extremamente difícil termos acesso à informação e podermos contribuir da zona sul com os que estavam na zona norte. Mas, da Europa, aí era relativamente bem difícil.

Tive apoio para ir estudar em Portugal, e não foi por acaso que lá entrei na rede clandestina como militante. Mas, a pergunta é: como eu enfrentei a tradição? Havia uma motivação muito grande.

Vou contar um incidente: eu fiz o primeiro e o segundo anos daquilo que se chamavam liceus. Eu era indígena, portanto, eu era indígena de uma África portuguesa, mas, quando eu tenho que entrar para o terceiro ano do ensino, que eles consideravam o ensino secundário propriamente dito, sou forçada a criar a cidadania portuguesa, porque eu não posso fazer o terceiro ano sendo indígena. Forçada.

Lembro muito bem que eu tive uma discussão com meu irmão mais velho e ele virou para mim e disse: mas tu queres estudar ou não? Então aceita. Fica portuguesa. Mas, não é tão simples: eu sou cidadã portuguesa, mas sei que não sou cidadã portuguesa.

São essas violações que te obrigam a tomar uma atitude e, quando eu digo nos nossos tempos, as causas eram muito claras. Talvez isso também facilitasse a adesão, a luta pela independência, luta para eu ganhar e reganhar a minha identidade como tal. Por isso, eu saí de Portugal, me juntei aos meios de proteção, fui obrigada a fazer o treino militar e trabalhar com as comunidades. Isso era muito natural porque o objetivo era muito claro - era coletivamente claro.

Talvez, nós sejamos produtos do nosso tempo. Talvez, eu dissesse isso também em relação ao Mandela. As pessoas diriam: mas o Mandela era uma pessoa extraordinária. Era extraordinário sim, mas, se ele não tivesse crescido sob um sistema tão violento como o apartheid era, talvez ele não tivesse desenvolvido aquela força de dizer “isto tem de acabar”, de estar preparado para dar a vida, como estavam todos. 

Ele bem dizia naquele julgamento: este é o ideal pelo qual eu estou disposto a morrer, se preciso for. Havia uma motivação muito grande para estar disposto a sacrificar a vida.

Uma das grandes dificuldades atuais é que as causas de que eu falava, agora não são tão visíveis, tão palpáveis como no nosso tempo. Mas, isso não é causa para nós termos complacência e não nos organizarmos contra aquilo que eu considero grandes desafios e justiças sociais.

Aí você se transforma em Ministra da Educação de Moçambique e fica um tempo muito longo como Ministra. Qual o balanço que você faz dessa experiência de poder, da independência, daqueles 10 primeiros anos, da liderança do Samora Machel? Quem era ele, quais foram as suas frustrações com a revolução?

Graça Machel: Aqueles primeiros anos foram gratificantes, porque nós trabalhamos muito e cultivamos uma intervenção sempre na base dos coletivos.

Repare, eu não tenho qualquer experiência profissional em ter sido Ministra da Educação. No mundo dos cegos, quem tem um olho é rico e eu tinha certa educação. Sempre tive uma inclinação para certo ativismo social e foi-me dada a tarefa de ser Ministra.

Mas, os sucessos que nós conseguimos não devem nunca ser entendidos como da minha autoria. Talvez, o mérito que eu posso aceitar foi ter construído equipes muito fortes, pessoas que tinham muito mais conhecimento do que eu, pessoas com muito mais experiência do que eu. Eu tinha 29 anos, não tinha experiência alguma. Aceitei que eles tinham muito a dar pelas decisões para dirigir o sistema e transformar o sistema. Aquele período foi gratificante, porque me enriqueceu muito. Mas, nós cometemos muitos erros também naquele período.

Um dos maiores erros que cometemos foi que nós desenvolvemos uma atitude de supervalorização dos direitos coletivos em detrimento dos direitos individuais. Nesse processo, nós pisamos em algumas pessoas. Pisamos nos seus direitos básicos individuais e isso é uma autocrítica que nós fizemos e que aceitamos. Só depois, muito mais tarde, quando eu saí do Governo, é que eu aprendi a fazer o equilíbrio entre os direitos coletivos e os direitos individuais.

Samora Machel era uma figura muito imponente, com uma grande energia intelectual. Talvez, eu possa dizer que este é o destino da minha vida: eu sempre estive associada a pessoas de personalidade muito, muito forte.

Vindo de uma formação militar, Samora tinha um coração de manteiga. Ele emocionava-se e tinha uma empatia com as pessoas, em particular com crianças, e isso o ajudou a que, de certa maneira, refreasse alguns dos sucessos que poderiam ter acontecido sob a sua liderança. Aconteceram alguns, mas poderiam ter acontecido muito mais durante a sua liderança.

Porém, ficou uma coisa como lugar do Samora em Moçambique: ele ajudou a estabelecer as bases para que as pessoas ganhassem confiança em si próprias e ganhassem a confiança de que eram capazes de ultrapassar obstáculos muito grandes, desde que trabalhassem no coletivo. E isso surgiu primeiro em nós como um meio de proteção. Não tínhamos meios técnicos para derrubar o coronelismo português, mas provamos que, independentemente da força material, a justiça das causas é mais forte que o poder material.

Se nós abraçarmos as nossas causas na base da justiça social, o destino de todos nós é justiça. É por isso que nós precisamos desse tipo de clareza. 

Nós esquecemos o conceito do perdão? Essa lição se perdeu? Ou às vezes o perdão pode ser confundido com tolerância? Qual é o limite?

Graça Machel: Você fez um ponto importante: perdoar sim, mas não esquecer. Por que é importante não esquecer? Temos de manter as lições do passado para que os grandes males de ontem não voltem a se repetir - para que não sejam aceitos ou se imponham.

Por isso, a gente tem que se lembrar, perdoar, mas não esquecer. Muitas vezes, nós não fazemos a transmissão das lições do passado de uma maneira correta, sistemática. Então, aquilo que pensávamos que já tinha passado, que pertencia ao passado, volta a acontecer nos nossos dias e, de certa maneira, nos sentimos impotentes.

O exemplo dos skinheads, na Alemanha: voltaram e fazem apologia ao nazismo à luz do dia, com um despudor que assusta toda gente. Ficam assustados, mas não têm a capacidade de organização que já houve no passado contra o nazismo. Já não têm a mesma capacidade contras essas cabeças que agora começam a surgir e que ganham espaço.

Eu posso usar aqui o exemplo da América Latina: alguns dos governos que nós temos por aí são governos de extrema direita, que fazem recordar muito bem os tempos da ditadura. Não se definem claramente como uma ditadura, mas são uma ditadura contra os valores que todos nós adotamos e parece que nós ainda não encontramos as formas organizativas que se baseiem nas experiências do passado.

Em todo o mundo, no Brasil, na Argentina, em todos os países vizinhos, a ditadura foi demolida pela força popular. Agora, estão deixando que as forças de extrema direita cresçam, se imponham, e façam até alianças. Alianças que vão custar muito para a conquista e a imposição dos valores democráticos, e isso não é só na América Latina, nós vemos isso na Europa também. Até nos países escandinavos, que são países conhecidos como social democracia, amplas liberdades individuais, instituições extremamente fortes, a extrema direita está levantando a cabeça. Se não nos organizarmos, não devemos ficar admirados daqui a cinco ou dez anos se as ditaduras voltarem.

É por isso que eu falo nos movimentos sociais. Quem deve ficar intimidado não somos nós, eles é que devem começar a ficar intimidados, porque vamos dizer que não vamos permitir, e é preciso que essa voz seja cada vez mais forte. Aqui, na África, na Europa, nós não vamos permitir que se instalem ditaduras nas nossas sociedades. Já sabemos o que é o passado, não vamos permitir agora e muito menos no futuro. E esse é o grande desafio das forças democráticas no mundo hoje. 

Qual é o grande legado que você quer deixar?

Graça Machel: Eu penso que, quando eu já não estiver aqui, quem quiser olhar para trás e tentar identificar o meu legado, que tenha esse trabalho. Eu não estou preocupada com isso agora.