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Ian McEwan responde: o projeto central do escritor

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Ian McEwan (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)
Ian McEwan (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)

"O realismo tem uma dívida com a verdade."

A busca pelo realismo na literatura ou a busca pela verdade através do realismo – o escritor britânico Ian McEwan abraçou as duas ideias em sua passagem pelo Fronteiras do Pensamento. Na conferência intitulada Em busca do real, foi categórico ao dizer que a verdade é a grande busca humana e que o realismo é um dos caminhos que levam a ela.

O escritor lembrou também do poder do realismo mágico em transmitir estas verdades humanas: da barata de Kafka ao feto de sua mais recente obra, Enclausurado, McEwan esclareceu uma das perguntas mais enviadas por nossos seguidores através do e-mail digital@fronteiras.com: qual o papel do escritor? "O escritor não deve dizer às pessoas como viver, e sim descrever como elas vivem."

Agradecemos, pelo envio das questões, aos nossos seguidores nas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem. Desta vez, a pergunta selecionada veio de Samir. Confira abaixo:

O que o senhor pensa sobre a questão atual da apropriação cultural da identidade do autor em relação à obra? O caso da escritora Elena Ferrante [pseudônimo de uma famosa escritora italiana, que mantém sua identidade em segredo há mais de 20 anos] exemplifica bem isso. Até que ponto a identidade do autor é essencial e deve determinar toda a sua obra? É essencial conhecermos quem escreve os livros que lemos?

Ian McEwan: Não é necessário conhecer a pessoa que escreve os livros que lemos. Eu passo muito tempo lendo livros escritos por meus amigos e é claro que, se você conhece o autor, é como se você estivesse ouvindo sua voz. Você ouve a voz da pessoa. Isso muda a sua reação ao livro. Isso é o prazer dos festivais literários, é ter este contato com os escritores.

Você também falou em apropriação literária. Isso é um tópico muito quente hoje em dia. Lionel Shriver deu uma palestra na Austrália recentemente, atacando esta noção da apropriação cultural. Se fôssemos seguir sua conclusão, os escritores só poderiam escrever sobre si mesmos. Até tenho simpatia por essa visão. Ela citou o caso de alunos em algum campus norte-americano que foram a uma festa usando sombreros. Mas, eles não eram mexicanos e isso foi visto de forma muito negativa. Então, acho que, em termos gerais, isso vai se encaminhando de uma forma muito maluca.

Mas, no caso dos escritores, se você está escrevendo sobre uma minoria oprimida, você precisa entrar neste universo com muita sensibilidade. Isso é uma questão ética. Não precisamos falar sobre a apropriação cultural, porque o projeto central do escritor é conhecer outras mentes, outras pessoas. Os mais velhos têm que escrever sobre jovens, ingleses precisam escrever sobre mulheres francesas. Se não fosse assim, acho que o mundo morreria.

Ian McEwan também respondeu as perguntas feitas pelo público presente na conferência. Confira abaixo algumas de suas principais ideias apresentadas neste momento do evento.

Prós e contras da tecnologia para o escritor

"Acredito nas novas máquinas. Elas são tão mais próximas da imaginação do que as máquinas de escrever. A memória do ser humano é cheia de erros. Com o computador, está tudo lá. O computador não esquece. O problema para o escritores de hoje é que os computadores se tornaram portais. Há um mundo inteiro. Todos os fascínios, as notícias, as mensagens, a pornografia, as crises - tudo está lá. Tenho muito pouca rotina, eu vou tirando leite da vaca, que é minha cabeça, enquanto consigo escrever. Quando chega um momento em que, de repente, seca, eu não me preocupo. Alguns escritores usam o termo "bloqueio", e eu sempre digo para eles abandonarem este termo e usarem a palavra "hesitação", porque hesitação é crucial ao processo criativo. Se não está saindo mais nada, faça uma caminhada, leia, tire a louça da máquina de lavar. A minha máquina de lavar é a mais vazia do planeta. Quando estou na fase de hesitar, eu arrumo toda a louça. Gosto muito de cozinhar também."

Influências do passado

"Você não pode se libertar do passado. A língua vai evoluindo organicamente. Termos, ritmos, ênfases e expressões que utilizamos atualmente vêm de Shakespeare. Não é uma sombra que Shakespeare jogou sobre nós, é uma luz. Muitos escritores estão em diálogo com ele sem saber. Em Enclausurado, eu estava em um diálogo consciente com esta pedra fundamental da modernidade."

Brexit

"É um momento monstruoso de autoaflição. A União Europeia, com todos os seus erros e suas burocracias enormes, representa um dos tratados políticos mais importantes da história. Devemos lembrar do passado negativo que levou a este mercado comum que levou à UE. Preferia ter permanecido e tentado melhorar, mas há argumentos econômicos diversos. Acho que vamos sofrer e entrar em recessão, mas há algo ainda mais importante e profundo: estamos enfrentando o perigo de sermos uma nação pequena, fechada, que vira as costas ao mundo. Criando uma xenofobia quando deveríamos ter orgulho desta composição extraordinária que temos."

O futuro do romance

"O romance permanece porque consegue fazer algo que nenhuma outra forma de arte consegue fazer: é aquela impressão da consciência, esta interioridade da ficção é muito superior ao que pode produzir o teatro ou o cinema. É por isso que mantemos o interesse pelos livros. Pessoas da minha idade dizem que os jovens têm tempo de concentração muito curto, mas a internet trouxe com ela uma sede de debates e festivais literários com milhares presentes, querendo ouvir a pessoa verdadeira. Quando pensamos na cultura literária e na quantidade de livros sendo traduzidos hoje na Inglaterra... Tenho muitos motivos para ser otimista sobre o futuro."

Escritores e festivais literários

"Acho que o mundo hoje pressiona muito e isso é um problema para os escritores. Pressiona muito mais do que quando comecei a escrever. A solidão era fácil em 1972. Hoje, a solidão é um luxo. Estamos todos em um espectro de culpa. Estou em uma constante luta. Hoje, qualquer vilarejo, aldeia, tem um festival literário. É divertido, porque é uma maneira dos escritores se conhecerem. A amizade floresce. É como se, cinco vezes por semana alguém te convidasse para férias pagas. Sou fraco, não resisto. Em 1972, ninguém me convidou para festivais literários. Eu apenas escrevia. A solidão era fácil."

Panorama global

"Há duas verdades paralelas: primeiro, um mundo que está indo ao inferno com muitas evidências. É deprimente ver Donald Trump ter 40% dos votos, quando deveria estar 90% atrás de Hillary. Há os nacionalismos na Europa, racismo, xenofobia, a possibilidade de uma guerra nuclear que pode acontecer entre China e os EUA. Os russos, tão cínicos, o caos no Oriente Médio. Se você coloca tudo isso em paralelo com a pobreza extrema que diminuiu em 400% nos últimos 25 anos. A alfabetização aumentou, a mortalidade infantil diminuiu. A morte nos partos. O problema do sarampo, a biologia celular evoluindo. Estamos envoltos por máquinas incríveis. A questão é que tudo isso é verdade ao mesmo tempo. São realidades simultaneamente verdadeiras.

Vivemos em uma era de maravilhas e este projeto nos gera ansiedade e temerosos de perder certas coisas. Temos apenas uma ilusão de que o problema da guerra nuclear desapareceu. Mas, todas as potências estão preparando novas armas. A Rússia, a China estão lá. Índia e Paquistão também. Não entendo o Irã. Não confio na Arábia Saudita. Temos problemas reais que podem nos apagar, justamente quando o número de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia está diminuindo incrivelmente. Temos que nos agarrar ao otimismo para solucionar os problemas, pois os pessimistas ficam inertes. É como eu vejo as coisas."