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Isabela Figueiredo: “o futuro tem de pensar o não humano”

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Isabela Figueiredo, escritora e jornalista, e sua não-humana Nina
Isabela Figueiredo, escritora e jornalista, e sua não-humana Nina

Na noite dessa quarta-feira (9/12), o Fronteiras do Pensamento realizou sua última conferência da temporada 2020 com a escritora e jornalista portuguesa Isabela Figueiredo. O encontro contou com a mediação do jornalista Manuel da Costa Pinto, e teve uma pequena participação de uma das cachorras da escritora, a Nina.  

Uma dos maiores nomes da literatura lusófona contemporânea, Isabela é autora de “Caderno de memórias coloniais” e “A gorda”. Ela falou sobre sua concepção do que é arte, sobre racismo, colonialismo, e sobre as lições trazidas pela pandemia, como o respeito ao não humano e a necessidade de sermos menos egocêntricos: “a reinvenção do humano nas próximas décadas passa pela necessidade de equilíbrio entre o humano e o não humano. Temos de reinventar o humano incluindo o respeito ao não humano”.

Isabela Figueiredo é licenciada em Línguas e Literatura Lusófonas pela Universidade Nova de Lisboa, possui especialização em Estudos de Gênero pela Universidade Aberta de Lisboa e já atuou como jornalista e professora.

Confira alguns destaques da conferência de Isabela Figueiredo:

O jogo da literatura

Eu gostaria de começar por vos dizer que a arte na qual eu me filio, ela situa-se na fronteira entre o conhecimento que nos proporciona as ciências sociais e humanas, e eu diria a filosofia, a psicologia, a psicanálise, e também o sagrado, que é o território da arte para mim. Portanto, o que eu faço não é uma investigação como um biólogo, um economista, um químico, um psicólogo, não. Eu não posso exprimir dessa forma.

As minhas referências bibliográficas estão implícitas no meu discurso, na minha obra, no meu trabalho, mas eu não tenho uma tese formal para vos apresentar. Tudo que eu vos apresento é informal, resulta de um trabalho artístico, de um trabalho literário, e esse trabalho chega ao leitor, e é o leitor que joga o jogo. Eu coloco em pé a construção da área e sou bastante mazinha porque digo está aqui a obra, está aqui esta peça, e agora, observem e descubram o segredo, joguem este jogo, sigam este caminho. Mas não apresento uma solução.

Para mim, a arte não dá um trabalho feito. A arte trabalha com o seu receptor, tanto que eu, enquanto escritora, e vocês, enquanto leitores, trabalhamos juntos e construímos juntos, o trabalho é feito pelo coletivo, pelo momento da produção e pelo momento da recepção. Nós juntos chegamos a conclusões que não são as mesmas, mas que tem a ver com o despertar, o nosso despertar para a realidade, o conhecimento, para aquilo que importa, para a essência do humano, para esta essência que está constantemente em mudança.

 

“A gorda”

Ao contrário do "Caderno de memórias coloniais", que foi um livro que eu expeli de mim como se expele veneno, que jorrou depois de andar muitos anos, dando voltas, formando uma grande bola; “A gorda” é um livro muito trabalhado do ponto de vista intelectual e literário. A Suzana Ventura me ajudou a ver isso, ajudou a perceber que cada capítulo é uma espiral, e esta espiral é um ciclone o meio do campo que arrasta tudo e arrasta o leitor, obriga o leitor a viajar no tempo e no espaço da ação; e o capítulo seguinte volta a ser uma espiral e arrasta o leitor para o mesmo tempo para o mesmo tempo, para o mesmo espaço, mas revela um novo segredo.

Esta estrutura de “A gorda” é uma estrutura muito obsessiva, viciante, que leva o leitor a ficar muito agarrado. A Suzana Ventura ajudou a perceber isso, ela disse na aula preparatória que o livro começa na porta de entrada, que é porta de entrada desta casa onde eu estou agora a falarmos, e que termina no hall de entrada, ora, o hall de entrada é o lugar onde está a porta de entrada. Eu não tinha qualquer noção, até ontem, realmente o livro termina na porta de entrada, que também é porta de saída.

Porta essa por onde eu não posso sair porque estou aprisionada devido à pandemia provocada pelo vírus sars-cov-2. Então, eu fui obrigada a pensar sobre a importância simbólica dessa porta, a forma como a porta é importante na minha vida, como ela permite ou não a entrada de pessoas na minha casa, na minha vida e no meu corpo. E me obrigou a pensar a forma como eu protejo a minha privacidade, valorizo a minha privacidade. Isto é, minha casa é minha fortaleza, isto tem a ver com a minha essência, com a minha alma.

 

Pensar o não humano

O planeta Terra é constituído por milhões de espécies, e nós somos apenas uma espécie entre milhões. O planeta é não humano. Ele é constituído por rocha, por água, por gás. Todos esses elementos são não-humanos. E o futuro, o futuro tem de pensar o não humano, tem de ser não-egocêntrico. Nossa existência é não-humana. Como dizia o escritor Mia Couto, nós somos constituídos por bactérias, por fungos, vivemos com animais.

O planeta Terra é não humano, e o não humano tem de se tornar mais central e tem de existir ao nosso lado, paralelamente, tem de estar conosco. Eu não posso ignorar que as minhas cadelas existem, elas existem, elas estão aqui e são as minhas companheiras. Eu não posso ignorar, eu não quero fingir. Os meus antepassados fingiram, os meus pais fingiram, e eu não quero fingir mais. Isto acabou. Isto é a vida, esta sou eu, esta é a minha casa, é a minha vida, e os não humanos estão aqui conosco.

Por isso eu queria dizer que a minha palestra sobre a Reinvenção do humano (tema da temporada 2020) passa não apenas por raça, não apenas por colônias, não apenas por classe, mas tudo isso é transversal, tudo isto é interseccional, e nisto vai entrar o não humano.