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Janna Levin: "Temos que apreciar mentes e pessoas diferentes que contribuíram para as nossas grandes ideias"

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Janna Levin no Fronteiras POA (Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)
Janna Levin no Fronteiras POA (Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)

Ph.D em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professora da Universidade de Columbia (Nova York, Estados Unidos), Janna Levin foi a conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre na noite desta segunda-feira (02).

A cientista norte-americana é a convidada do projeto na capital paulista nesta quarta (04).  

— Pense no quão extraordinário é refletir onde estamos localizados no esquema do universo. É difícil pensar que não há vida lá fora. Provavelmente, há mais planetas do que estrelas — afirmou no Salão de Atos da UFRGS, na capital gaúcha. — Pense na nossa pequeneza e, ao mesmo tempo, na vastidão do nosso conhecimento. Há beleza nesse contraste, porque nos lembra de que há significado em aceitar nossa insignificância.  

Ao longo de duas horas, a astrofísica falou sobre buracos negros e instigou questionamentos sobre nossa posição no universo: quase tudo o que temos conhecimento vem da luz, mas 95% do universo está invisível para nossos olhos. Será que, de fato, entendemos a natureza?  

De forma didática, Janna explicou à plateia o bê-a-bá de buracos negros: são estrelas de massa muito densa que, ao morrerem, perdem o combustível nuclear e colapsam. Invisíveis, são mais um “lugar” do que um “objeto”. Tragam tudo o que está ao redor, mas não são tão ameaçadores como as pessoas pensam.  

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Estima-se que existam em mais de 1 bilhão na galáxia – e um deles está bem no meio da Via Láctea. O que aconteceria se caíssemos em um?  

— Não há nada dentro. Quando a estrela colapsa, vira uma espécie de fóssil. O corpo da estrela se foi, fica caindo em direção ao centro - e o que acontece com o corpo, não sabemos. Não há nada lá, é espaço vazio. Você navegaria no horizonte de eventos (borda do buraco negro, cujo limite, uma vez cruzado, impede a volta) e depois não veria nada, não sentiria nada. Em um infeliz microssegundo depois, você seria amassado até a morte, até virar uma “singularidade”. Mas, antes disso, você estaria bem. Após cruzar o horizonte de eventos, você veria toda a luz da galáxia concentrada, caindo atrás de você. Seria quase como a luz no fim do túnel de uma experiência de quase-morte. Só que seria uma morte completa — explicou.


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Após sua conferência, Janna Levin respondeu as perguntas do público e da astrofísica Thaisa Storchi Bergmann, chefe do departamento de astronomia da UFRGS e mediadora do debate. Ainda, a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem.

Confira esta e outras respostas de Janna Levin no palco do Fronteiras Porto Alegre 

Lembre-se: Levin é a conferencista do Fronteiras São Paulo desta quarta. Últimos instantes para garantir sua presença neste e nos próximos eventos (Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry). Clique aqui para adquirir seu pacote para o Fronteiras São Paulo.

Pergunta Braskem: Alguns dos mais geniais cientistas de todos os tempos já foram chamados de loucos, Alan Turing é um exemplo disso. Trabalhar com ciência é abraçar a loucura do desconhecido ou a obsessão por uma nova descoberta? 

Janna Levin: Eu me interesso pela loucura e pela genialidade, mas não acho que os gênios são todos loucos ou que são pessoas com problemas mentais. Mas, ao mesmo tempo, é verdade. O Alan Turing teve dificuldades e acabou se suicidando. Kurt Gödel também era bem excêntrico.

Para as pessoas que não sabem, o Alan Turing foi a grande mente que conseguiu romper o código da máquina de enigma, que era usada para enviar mensagens pelos alemães na guerra. Ele basicamente foi quem inventou, na teoria, o computador. Ele não montou um, mas inventou a ideia do computador.

Ele também era obcecado pelo desenho da Branca de Neve. Ele sempre cantava aquela musiquinha da Branca de Neve. Sua morte foi uma referência àquela maçã envenenada da Branca de Neve. Ele comeu uma maçã envenenada com cianeto e é um mito urbano que a maçã com aquela mordida no computador Apple é uma referência ao Alan Turing.

O Turing também foi condenado por ser homossexual. Realmente foi um destino muito cruel. Eu não acho que o Turing fosse louco, de forma alguma. Eu acho que ele simplesmente era muito excêntrico, ele mostrava zero sinal de insanidade, embora ele tenha cometido suicídio. E ele cometeu suicídio porque deram a ele hormônios e fizeram castração química.

Esse é um exemplo que deixa claro que temos que apreciar toda a gama de mentes diferentes, de pessoas diferentes que contribuíram para a nossa sociedade e para as nossas grandes ideias, e não simplesmente dizermos que são loucos. Kurt Gödel talvez fosse louco, mas ele também foi o maior matemático do século XX.

Nós temos que ter cuidado quando a gente pensa sobre manipulação genética, engenharia genética, e pensar em eliminar algumas tendências ou doenças, porque temos que entender o que estamos eliminando também ao fazer isso.  

Os filmes e a literatura sempre especularam sobre o futuro. Algumas vezes, anteciparam coisas que depois foram inventadas pelos cientistas. Como a senhora avalia esta troca entre arte e ciência?

Janna Levin: Os livros são bem interessantes nesse sentido, porque muitos escritores pensavam ou escreviam ideias malucas, que pareciam relatividade ou viagem no tempo antes de serem ideias científicas.

Não é a mesma coisa que ter uma ideia científica, porque as pessoas escrevem sobre outras coisas que não existem na natureza. Mas eu acho que há um momento em que as ideias se tornam executáveis.

Mesmo a ciência mais bruta é impulsionada pelas capacidades humanas, pela curiosidade, pela perseverança, pelo desejo de saber, e isso são coisas básicas do ser humano. Se, ocasionalmente, alguém consegue expressar isso de forma literária, seria uma contribuição para essa conexão que você levantou também. É uma forma também de fazer essa conexão.

Quinhentas pessoas podem ler o meu artigo científico e se essas pessoas lerem vai ser um sucesso, mas se fosse um livro seria muito desapontador. Então, o alcance é maior quando você torna algo mais literário e quando você consegue trazer isso às pessoas de uma forma que pareça mais natural, para que possa interpretar de forma mais natural.  



Tem uma curiosidade: como é a rotina de uma pesquisadora como a senhora, quantas horas a senhora dedica por dia de estudo, pesquisa? Como a senhora dedica o seu tempo e se a senhora tem alguma excentricidade.

Janna Levin: Meu tempo mudou muito e continua mudando. Houve certas épocas onde eu só fazia pesquisa. Eu acordava no meio da noite e começava a trabalhar. Bom, agora mudou. Eu escrevo livros, dou muitas palestras, tenho dois filhos, sou diretora desse centro cultural, então agora é mais difícil fazer isso.

Eu não posso negar que sinto falta. Na verdade, fazer pesquisa é algo que acalma. É um trabalho é muito diferente, você provavelmente vai para telescópios e coleta dados. Eu ia. Agora, infelizmente, é mais remoto. Mas eu gostava muito de ir até os telescópios, então para mim era só matemática no papel, algo meio tipo meditação, que acalma. Eu sinto falta de fazer essa pesquisa. Bom, eu ainda faço pesquisa, mas hoje eu tenho estudantes que fazem pesquisa.

Eu tenho uma pergunta dessa atividade que você tem nesse centro cultural, talvez algo que a gente possa aprender a fazer, porque talvez isso ajude a conectar mais com as pessoas, com a população de forma geral, ajudar a receber apoio para a ciência.

Janna Levin: Quando eu vejo algo como isso aqui - uma plateia cheia - realmente é algo tocante. Quando a comunidade vem aqui, participa, isso é tudo. Não daria nem para começar sem uma comunidade que quer participar de um diálogo compartilhando uma conversa

Esse lugar no Brooklyn, o Pioneer Works, foi idealizado por um artista. Era um sonho desses caras jovens, um sonho maluco.  Não tinha diretoria, não tinha dinheiro, não tinha infraestrutura, e eu entrei nessa porque eu vi nisso a oportunidade de criar um mundo no qual eu queria viver. Um mundo que ainda não existia: tem arte aqui, tem música, tem ciência, e a gente não faz tudo misturado.

Eu acredito que ciência faz parte da cultura. Nós fazemos eventos e falamos de ciência, não falamos de arte, não falamos de música, a gente fala de ciência, só que fazemos isso nesse lindo centro cultural.

É como a ideia de uma universidade, mas reimaginada. Tem sido um experimento tremendo, tem sido muito empolgante, e às vezes mil pessoas vão lá. Não sabemos por que, mas adoramos que tanta gente participe.

Ultimamente temos visto um aumento de interesse entre físicos, teóricos e cosmólogos, num possível conceito de consciência em nível universal. A senhora poderia falar um pouco sobre isso para clarificar como isso se diferencia de outras ideias mais pseudocientíficas?

Janna Levin: É uma questão interessante. Uma célula do cérebro não está ciente que faz parte de uma mente, que faz parte de uma consciência. Será que é possível que, como colônias de formigas, todos nós participemos de uma organização maior e não entendemos bem?

Há questões importantes aí, mas acho improvável que haja uma consciência composta por todas as nossas pequenas mentes, mas quando pensamos em inteligência artificial, por exemplo, seria ingênuo pensar que ficaria confinado a um único local. É mais provável que a inteligência artificial acabaria sendo mais global, com uma consciência tipo a internet. Eu acho que essas são algumas das coisas sobre as quais teríamos que refletir à medida que isso vai saindo do nosso controle. 

(Com informações de Gaúcha ZH