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Javier Cercas e Alejandro Zambra respondem: literatura para crianças, jovens e adultos

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Alejandro Zambra e Javier Cercas no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras)
Alejandro Zambra e Javier Cercas no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras)

Javier Cercas e Alejandro Zambra, dois importantes autores de língua espanhola da literatura contemporânea, foram os conferencistas do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta segunda-feira (22), no Salão de Atos da UFRGS.

Os escritores estarão no Fronteiras São Paulo desta quarta-feira (24). Garanta sua participação neste evento: (11) 3882.9180

Oriundos de diferentes gêneros literários, ambos destacaram a importância de dessacralizar a literatura: “a literatura não é para gente séria, para os professores, é para pessoas comuns”, defendeu o espanhol Javier Cercas.   

Complementando as ideias do colega de profissão, Alejandro Zambra disse que o professor tem papel de destaque no incentivo à leitura, aproximando a literatura das crianças e adolescentes.

Para o autor, o desafio em sala de aula consiste em construir uma relação mais horizontal entre professor e aluno: “É preciso fazer um esforço muito grande no lugar do professor para horizontalizar e realmente permitir que exista um diálogo verdadeiro com os alunos”, declarou o chileno.

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Após suas falas, os escritores responderam perguntas do público. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Confira esta e outras respostas:


Cercas, você questiona se estamos prontos para encararmos nossas próprias histórias. Deveríamos incentivar mais os alunos ao autoconhecimento ou à leitura? Os dois andam juntos ou há algum que deva ser trabalhado primordialmente?

Javier Cercas: Eu acho que isso acontece em todos os lugares. Quando perguntam aos escritores o que é preciso fazer para que as crianças leiam, eu nunca sei o que dizer.

Antes de mais nada, a literatura é um prazer, não é uma obrigação. A expressão “leitura obrigatória” é um oxímoro. É como um casamento feliz: ou é uma coisa ou é outra. São opostos.

Obrigar as crianças a ler é muito complicado. É preciso oferecer a possibilidade de fazê-lo, mas não se pode ir muito mais longe.

Podemos escolher as leituras? Sim. Eu nunca daria Dom Quixote para um adolescente de 15 anos, porque não acho que seja momento para ler. Daria Stevenson ou Júlio Verne. É o que eu li quando tinha essa idade, mas isso sempre é complicado.

É preciso encarar a coisa dessa forma: a literatura, antes de mais nada, é um prazer.

Eu não acho que a literatura seja incompatível com as diversões de hoje – com as redes sociais, as séries de televisão, o cinema - são coisas diferentes. O que um bom romance oferece, uma série de televisão, um filme ou um jogo de Playstation não oferecem.

Eu gostei muito da conferência do Alejandro, mas tem uma coisa em especial que ele disse que é verdade: Clarice Lispector não soa como literatura, soa como verdade. Isso é a verdadeira literatura.

Shakespeare não era literatura, era entretenimento. Era uma coisa para o povo se divertir. Não era o que é hoje para nós Cervantes, o Quixote... Quando as pessoas ouvem a palavra Quixote, falam: “Meu Deus, que livro importante, precisa ser muito inteligente para ler”. É mentira!

O Quixote é um livro popular, essencialmente popular, como ler Shakespeare, um livro para pessoas comuns. Cervantes não era um escritor sério, nunca teria ganhado o prêmio Cervantes, que é um dos prêmios mais importantes de literatura. Isso é engraçado, mas é verdade.

A literatura não é para gente séria, para os professores, é para pessoas comuns.

Alejandro Zambra: Eu concordo com o que Javier disse. Só acrescentaria que o professor pode fazer muita coisa, como, por exemplo, escolher livros que ainda não leu. 

O professor é aquele que sempre precisa saber tudo, de antemão. Neste caso, o aluno não tem nenhuma possibilidade de discutir, de combater, porque "chegou tarde".

Se há professores aqui na plateia, eu recomendo isso: o romance de Javier Cercas, que acaba de sair. Ninguém leu esse livro em português. Leiam esse romance em aula.

Leiam com os jovens um romance que ainda não conhecem, que possa apresentar desafios a todos, não só ao aluno. Não ter medo de compartilhar o desafio dá grandes resultados. Digo isso por experiência própria.

Eu acho que é preciso fazer um esforço muito grande no lugar do professor para horizontalizar e realmente permitir que exista um diálogo verdadeiro com os alunos.

Deveriam escolher livros, como estamos falando, da Clarice Lispector, do Cervantes. Talvez, a solenidade do Quixote possa espantar muita gente, possa assustar, mas é preciso escolher livros que a pessoa não tenha totalmente resolvido.

Kafka é genial. Dá para entender de primeira. É um artista da fome, qualquer um entende.

Você pode comparar com a sociedade do espetáculo atual, com reality shows. Qualquer um entende o conto, mas é muito difícil esgotá-lo. É muito difícil que algum professor, em alguma classe, saiba tudo sobre ele e possa esgotá-lo. Eu acho que esse é o tipo de texto que teria que escolher.


Pergunta que vale para o Cercas, mas também para você, Alexandro. “O impostor” é uma história verídica de um homem que enganou o mundo. É uma história incrível de como você vai perseguindo a possibilidade da verdade. Você acha que o escritor também realiza uma impostura? Você acha que o escritor é um impostor, que realiza uma impostura? A ficção é uma impostura?

Javier Cercas: A ficção não é exatamente uma mentira, mas é algo parecido com uma mentira. De fato, é curioso que em latim a palavra mentire significa mentir e inventar. A ficção não é exatamente uma mentira, mas é algo similar.

De fato, Platão expulsa os poetas da república ideal porque eles mentem, porque inventam coisas que não são verdade. O que acontece é que nós escritores temos direito à mentira, podemos fazer isso porque estabelecemos um pacto com o leitor e dizemos: “veja, agora vou te contar uma história que não é verdadeira”, e o leitor aceita isso. E por que estamos autorizados a “mentir”?

Estamos autorizados porque, através dessa mentira, chega-se a uma verdade. Dom Quixote nunca existiu, Madame Bovary também não existiu, mas graças a esse não existir, a essas ficções de Cervantes, de Flaubert, conhecemos verdades essenciais sobre o ser humano, verdades fundamentais que só podem ser contadas por meio dessa “mentira”, dessa ficção. Então, nós escritores estamos autorizados a fazer essa operação. As pessoas não estão autorizadas a fazer essa operação.

Cervantes, esse senhor que incrivelmente era espanhol, nos deu um instrumento que se chama romance, cuja primeira regra consiste em que não há regras, ou seja, nos dão um instrumento que é a liberdade total. Isso é o que diz Cervantes: façam o que vocês quiserem, o que vocês tiverem vontade.

Eu acho que os escritores atuais, os romancistas, ainda foram fieis à liberdade total que nos deu esse homem. Então, como eu achei que esse livro precisava prescindir da ficção, nesse romance simplesmente não há ficção, como em outros também.

Há uma passagem, um momento desse livro, a única espécie de ficção que aparece nele é um diálogo entre protagonista, esse impostor, esse senhor que é inventor, inventou sua vida toda, disse que tinha sido deportado de um campo nazista, que foi herói da guerra civil espanhola, que foi herói do antifranquismo etc. Ele inventou uma vida completamente melodramática, épica, sentimental, fantástica, para ocultar uma vida medíocre, cinza como quase a de todo mundo.

Tem um momento em que, quase no fim do livro, há uma espécie de diálogo fictício entre ele e eu no qual ele me diz: “veja, você também é um mentiroso; você inventou o Soldado de Salamina, uma série de coisas você inventou, e você, por mentir, foi premiado, ficou milionário, como você disse, mas é falso, e no fim você se transformou em um escritor, seus livros são traduzidos, você foi premiado por mentir. Pra mim, que fiz a mesma coisa, fui castigado. Eu, fui humilhado, fui perseguido, fui vexado etc.”

Mas o que ele não diz é que os escritores podem inventar histórias. Estabelecemos esse pacto com o leitor, enquanto que as pessoas não podem fazer isso. Ou seja, somos impostores, mas somos autorizados a sermos impostores. É um privilégio que nós temos. Os políticos não têm esse privilégio, por exemplo.


Alejandro Zambra: Para complementar um pouco, nós damos muitas voltas explicando como funciona a literatura e funciona igual a como funcionam as piadas. As pessoas sabem contar piada.

É terrível o momento em que as crianças tentam contar piadas, não se saem bem. Aí, depois sai bem, mas percebem que não conseguem repetir isso, então contam muitas vezes a mesma piada para a mesma pessoa. O princípio infantil é a reiteração e justo a piada é uma coisa que não pode ser repetida todas as vezes que você quiser.

Há uma aprendizagem aí, e claro, um conto, um romance, funcionam de maneira parecida que com uma piada, mas não são puras piadas: o propósito muda totalmente. Os sonhos funcionam da mesma forma. Qualquer ser humano já experimentou a dificuldade de contar um sonho.

Estamos explicando com muita teoria como se instala a ficção no mundo e esquecemos que, em todos os dias da nossa vida, a gente talvez experimente o desejo de contar algo que não é verificável.

Existe alguma obra lida na infância e que pudesse ecoar nas escritas atuais de vocês ou talvez como leitores? A relação de vocês com a literatura infantil foi importante na formação de vocês?

Alejandro Zambra: Para mim não, porque meus pais não me liam contos. Minha avó me contava a história de um terremoto que aconteceu em 1939, em que ela e um de seus irmãos sobreviveram e seus pais faleceram. Ela tinha 20 anos na época.

Curiosamente, para fazer a gente dormir ela contava histórias de pessoas que haviam morrido nesse terremoto e, depois disso, claro, a gente não conseguia dormir. Eram histórias muito cômicas, muito engraçadas de pessoas que haviam desaparecido.

Então, isso foi um dos contos infantis para mim. Agora, tenho um filho de 10 meses e estou muito interessado na literatura infantil em geral, descobrindo isso agora. Me sinto um novato ainda, tenho até vergonha, não conheço a tradição da literatura infantil, não sei como se constrói essa tradição.

Mas, ocasionalmente, eu tive contato com o “Deserto dos tártaros”, do Dino Buzzati, e indiquei esse livro aos meus leitores. Conversando aqui, Javier ficou sabendo disso e disse que também escolheria esse romance.

Tem um outro romance infantil deste mesmo escritor, não sei se foi traduzido para o português, que se chama “A famosa invasão da Sicília”. É uma história maravilhosa e eu recomendo plenamente. É um livro com desenhos do próprio Dino Buzzati. Não é uma literatura simplificada, nem nada por aí, porque funciona para o adulto de forma também muito estimulante.


Javier Cercas: 
Não sei muito bem o que é literatura infantil, não consigo entender. Às vezes, vou às livrarias, na Espanha, e vejo escrito, por exemplo, livros para crianças de 10 a 12 anos.... É muito estranho isso.

Eu lia o que tinha quando era criança, o que encontrava na biblioteca da escola e o que encontrava na minha casa, romances de aventura e livros de história, também, mas principalmente romance de aventura.

Notei que alguns livros tradicionalmente conhecidos como livros infantis são, na verdade, livros terríveis como a história da sua avó, Zambra. Isso explica o humor negro dos seus textos.

Há grandes exemplos de livros habitualmente apresentados como livros infantis: “As viagens de Gulliver” é um dos livros mais sombrios que já foram escritos, terrível. “Alice no País das Maravilhas” era um livro infantil, é genial, uma história fantástica está contida nesse livro, e é verdade.

Eu lia e tenho ainda a Odisseia, a Ilíada, na minha casa em poesia e em prosa, e eu não sabia o que era isso, lia como aventura ou como qualquer outro livro. E acho que esses livros tiveram grande influência em mim. O que escrevo são basicamente romances de aventura, essa é impressão que tenho.

Existia um grande sábio francês, um tradutor da Ilíada, de Homero, e ele dizia: “A partir do século XIX, eu não consigo ler os romances atuais, porque me parecem muito lentos.” E é verdade.

Homero, em dois versos, coloca uma quantidade de coisas fabulosas, uma velocidade selvagem. Eu tenho a impressão de que essas leituras foram muito importantes, mas não tenho certeza de que isso seja literatura infantil. Não sei o que é isso.