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Jimmy Wales: acesso ao conhecimento é ferramenta fundamental para a democracia

Jimmy Wales no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Jimmy Wales no Fronteiras POA (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

A internet tem uma capacidade única de construção da democracia. Foi neste pilar que Jimmy Wales sustentou sua conferência no Fronteiras do Pensamento realizada na noite de segunda-feira (22), no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. Wales conseguiu mostrar – quase como um verbete de sua principal criação – a importância do senso de comunidade para a construção da maior enciclopédia já escrita.

Entre os princípios dessa turma, o ponto central é a neutralidade. Não seria uma enciclopédia sem ela. E é justamente deste quesito que sempre vieram os questionamentos. Seria a Wikipédia uma fonte confiável? Quem constrói o conteúdo já até envelheceu com esta pergunta, que Wales responde assim:

– Somos uma enciclopédia, um sumário do conhecimento humano em todos os tópicos e que é neutro. Essa ideia sempre nos ajuda quando precisamos tomar decisões. Queremos todos os lados de uma história – explica.

O senso de colaboração é a chave do poder transformador da Wikipédia, hoje o quinto site mais acessado no mundo. Ao mesmo tempo em que estar aberta à edição de qualquer um permite incorreções e vandalismos, também garante que haja um monitoramento e correções constantes de possíveis imprecisões.

– O fato de ser aberta para edição, que qualquer um pode participar e que cada mudança fica registrada, tem um impacto no resultado. Um dos bons impactos é que fica neutro. Se alguém escreve uma opinião própria ou começa brigas, é tudo transparente, os outros podem reverter – disse.

Ao final da conferência, o americano voltaria a esse assunto, lembrando que o modelo de financiamento por doações ajuda na independência do projeto, que não sofre pressões de anunciantes ou financiadores.

Para Wales, o objetivo distante de dar a qualquer pessoa a soma de todo o conhecimento humano só será possível quando mais pessoas, línguas e culturas começarem a contribuir com a Wikipédia. O objetivo é ter pelo menos 250 mil artigos em todas as línguas que tenham mais de um milhão de praticantes.

– Acredito no acesso ao conhecimento como algo importante na construção da democracia – disse.

Revolução a caminho

Recentemente, a Wikipédia foi bloqueada novamente na China, após um período funcionando, mesmo com páginas censuradas. Wales disse que não sabe exatamente o motivo, mas usou o exemplo do país asiático para mostrar como a internet pode mudar realidades. Quando Liu Xiaobo venceu o Nobel da Paz em 2010 e não pôde receber o prêmio, a foto de sua cadeira vazia rodou o mundo, mas chineses que a compartilhavam perdiam suas contas para a censura.

– Eles começaram a usar fotos de qualquer cadeira nos seus perfis. Os chineses sabem que não podem fazer muita coisa, mas ficam sabendo das coisas. E quando veem como bloqueios como esse contra a Wikipédia são bobos, as pessoas percebem como o governo é estúpido e esse é um começo de mudança – explicou, prevendo uma primavera chinesa.

O aumento do acesso a internet em países subdesenvolvidos, principalmente pela tecnologia móvel dos smartphones, deve causar uma revolução. E nesse ponto, Wales pretende contribuir com o projeto Wikipédia Zero. O conceito é que as operadoras não cobrem pelos dados de internet de quem acessa a enciclopédia online. O projeto já foi implantado na África do sul e outros países do continente.

Wales citou algumas notícias que rodaram o mundo mostrando como africanos utilizaram celulares para trocar mensagens sobre o preço de determinado produto agrícola a fim de evitar prejuízos com atravessadores ou como os smartphones ajudaram a combater a malária. Mas, para Wales, a revolução não é essa, esse é apenas o começo. A revolução será tão importante quanto a que ocorreu nos países desenvolvidos na década de 1990.

– Acho que a maior mudança humanitária que vamos ter será quando tanta gente estiver conectada. Mas será que vão ficar procurando preços de produtos agrícolas? Não. Vão entrar no Google, no Facebook, na Wikipédia, em sites de jornais locais – prevê.

Nesse caldeirão de desenvolvimento dos que ainda têm uma internet inteira pela frente, Wales acredita que muitas das transformações serão imperceptíveis a curto prazo para grande parte do mundo. Afinal, serão em línguas menos populares que o inglês, o espanhol, o francês ou o português.

Sobre o futuro da Wikipédia, nem tudo são flores. Se há oportunidade de crescimento em muitas línguas, há o desafio de pluralizar e democratizar o perfil dos editores do site. Hoje, 87% são homens e a maioria tem até 26 anos. Isso resulta em excelentes artigos sobre tecnologia, por exemplo, enquanto temas fora do universo desses colaboradores não têm a mesma qualidade.

(via Zero Hora)

Jimmy Wales estará no Fronteiras São Paulo nesta quarta-feira (24), no Teatro Cetip, às 20h30.
As vagas para o Fronteiras do Pensamento 2015 estão esgotadas.