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Jonathan Haidt: geração Z, superproteção na infância e questões morais

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Jonathan Haidt
Jonathan Haidt

O psicólogo social Jonathan Haidt falou ao público do Fronteiras do Pensamento na noite da última quarta-feira (30). Fugindo ao tradicional modelo do evento, a transmissão foi realizada no formato de entrevista, que contou com a medição do escritor e filósofo Luiz Felipe Pondé.

Dentre os temas abordados, o pensador norte-americano falou sobre seus livros, as diferenças entre gerações, a educação dos filhos, a questão da polarização, e o senso moral. Confira a seguir alguns tópicos tratados por Jonathan Haidt:

As 3 grandes inverdades que dificultam a boa educação

Em meu livro publicado em 2018, The Coddling of the American Mind: How Good Intentions and Bad Ideas Are Setting Up a Generation for Failure (sem tradução para o português), apresentamos três grandes pilares que são inverdades. 

A primeira delas é: o que não te mata te torna mais fraco. A segunda grande inverdade é: sempre confie nos seus sentidos. Mas a grandeza da educação é questionar os seus sentimentos, aprender técnicas que vão lhe ajudar a encontrar a verdade. E a terceira grande inverdade é que a vida é uma batalha entre pessoas boas e pessoas más.

Nós, eu e Greg Lukianoff (coautor da obra), acreditamos que essas três ideias muitas vezes são comuns e inibem uma boa educação. É difícil você ter uma boa formação se você aceita essas ideias, então o livro basicamente trata sobre isso.

 

O aumento da depressão e da ansiedade na geração Z

Cada geração critica a geração seguinte. Isso não é novidade, nós sempre dizemos que as crianças de hoje deveriam ser mais como nós. A questão chave que realmente nos preocupou foi quando olhamos as taxas de depressão, ansiedade e vários distúrbios mentais. Em 2015, quando eu e Greg Lukianoff inicialmente escrevemos o nosso artigo, não conseguimos provar que isso estava aumentando, mas em 2018 as taxas de depressão e ansiedade estavam aumentando na Geração Z.

Esta é a geração que chegou ao campus universitários em 2013 e esses índices continuaram aumentando até o livro ser lançado em 2018. As dificuldades da geração Z seguem, no entanto, a Covid-19 pode estar mudando tudo.

O que eu posso dizer é que a cultura de se ofender facilmente e falar abertamente para as outras pessoas certamente mudou nas universidades. As tendências que observamos seguem aumentando, mas agora que as universidades estão online muita coisa está mudando. Vamos ver o que vai acontecer.


A superproteção na infância

Se as crianças foram superprotegidas e não lhes foi permitido tempo suficiente para brincar, isso pode desacelerar seu desenvolvimento. As brincadeiras livres são a melhor forma de as crianças aprenderem como o mundo funciona. É um preparo excelente para a democracia.

Eu não usaria a palavra “estragada” para denominar a geração Z, porque é uma geração que trabalha arduamente, eles focam muito no social. Não estou aqui para criticá-los, mas sim para fazer algumas observações sobre como eles enxergam de forma diferente as coisas quando começam a estudar na universidade.

 

Liberdade de expressão e redes sociais

Muitas vezes queremos evitar as pessoas das quais discordamos, mas o fato é que aprendemos com elas. Quando temos esforços organizados para manipular a opinião pública, acaba sendo um jogo muito diferente e se tivermos grupos organizados da indústria tentando desacreditar o aquecimento global, ou grupos falando de teorias da conspiração como vem ocorrendo nos Estados Unidos, isso vai causar muitos danos. Então, acontece que as discussões sobre a liberdade de expressão acabam ficando confusas.

Agora, se focarmos em uma determinada instituição, se torna mais claro. Se considerarmos um campus universitário, por exemplo. Quando falamos sobre Facebook, sabemos que todos os tipos de grupos estão tentando comprar influência para manipular as eleições. Isso pode ser legítimo. Queremos que as pessoas coloquem suas ideias a seus sentimentos, mas eu acho que agora é necessário ter responsabilidade de policiar a verdade.

Não sou extremista de liberdade de expressão. Plataformas como o Facebook e outras empresas estão entre um jornal, onde há controle editorial, e a opinião pública sem nenhum tipo de filtro. Estamos tentando encontrar formas de adaptar ao grande volume de manipulações que ocorrem.


Cultura

Acredito que os seres humanos são o produto da evolução como os outros animais, mas a nossa grande inovação é a cultura.

Crianças que crescem em uma cultura serão moldadas por essa cultura e aí elas podem crescer numa cultura totalmente diferente e adquirir aquela cultura. Mas elas não são totalmente diferentes. Se você quiser criar pessoas que estão de acordo com suas habilidades e crenças, isso é muito fácil em nível de família, mas seria mais difícil fazer isso em nível nacional.

É isso que eu quero dizer: A natureza humana tem tanto a oferecer, há tanto potencial.

 

Reflexões sobre a pandemia

Foi impressionante ver a experiência compartilhada em tantos países diferentes. Ficamos tocados com os italianos nas suas sacadas e com os chineses desejando tudo de bom para os italianos. Então, parecia que estávamos mesmo passando por algumas experiências grandiosas juntos pela primeira vez nas nossas vidas. Eu estava muito esperançoso, mas depois me dei conta de que as pandemias tradicionalmente não têm esse efeito.

As pessoas ficam com medo umas das outras. Elas têm medo de se aproximar, então as pandemias não unem as pessoas. A Covid-19 tem efeitos diferentes em locais diferentes, mas tanto no seu país quanto no meu ela se tornou um jogo político.    

Os nossos líderes têm utilizado a pandemia para fins políticos que nada tem a ver com o que os cientistas estão dizendo. Pelo menos nos Estados Unidos isso acabou dividido muito as pessoas, até sobre o uso de máscaras.

Seguir as evidências científicas é a coisa mais importante que podemos fazer, então, infelizmente, não estou mais tão otimista com relação a isso. Por outro lado, as crianças crescendo hoje a geração Z e os mais jovens vão compartilhar esse sentimento global de como atravessar tudo isso juntos.

 

Moralidade e religião

Acredito que todos os fundamentos morais estão baseados no mundo laico ou secular. Sou ateu. Não acredito em um Deus que nos criou. O nosso sentido moral é um progresso da evolução. Pelo menos os fundamentos morais são produto da evolução, mas podemos viver de formas diferentes.

Por muito tempo a religião teve um papel muito importante em como interpretar as nossas obrigações para com os outros, para com deuses e para com os nossos governantes. Hoje, como a religião é uma força menor, a gente tem a secularização de muitas coisas. Mas a questão é que certamente nós podemos ter ordens morais e a religião não é necessária para se ter uma ordem moral forte. As sociedades da Europa Ocidental criaram sociedades muito boas e muito humanas que são laicas.