Voltar para Notícias

José Eduardo Agualusa no Fronteiras Salvador: "O poder da literatura é trazer a inquietação"

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Expoente da literatura lusófona, o escritor angolano José Eduardo Agualusa foi o conferencista do Fronteiras Braskem do Pensamento Salvador na noite desta quarta-feira (01). No palco do Teatro Castro Alves, o autor emocionou o público baiano com relatos de episódios da história e da memória de seu país, defendeu a potência criativa do otimismo e o poder transformador da literatura.

Na conferência de abertura da temporada 2018, ano em que o projeto completa 10 anos na capital baiana, Agualusa falou sobre sua admiração pela cultura brasileira e as tantas aproximações existentes na relação de irmandade entre Angola e Brasil, além da língua portuguesa: “Os dois países foram crescendo juntos, um alimentando o outro. O Brasil não existiria sem Angola, e a cultura brasileira não existiria sem essa matriz africana”.

De passagem diversas vezes pelo Brasil, o escritor relatou que se sentia em casa na capital baiana muito antes de conhecer Salvador pela primeira vez: “Eu visitei o Brasil pela primeira vez, por que queria conhecer uma Salvador que eu já conhecia da literatura, da música e do cinema. Eu sentia que aquela era uma outra forma de ser africano, eu já sentia esse parentesco, e a minha primeira visita não me desiludiu”, afirmou.

PRÓXIMOS CONFERENCISTAS DO FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO 2018

Conferência José Eduardo Agualusa 01 agosto (quarta-feira)
Debate Especial Gilles Lipovetsky e Leandro Karnal 17 setembro (segunda-feira)
Conferência Marcelo Gleiser 15 outubro (segunda-feira)
Adquira o pacote para os próximos dois eventos (R$ 70 ou R$ 35 meia-entrada)

Após sua fala, Agualusa respondeu as questões do público, com a mediação da jornalista Adriana Couto. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais.

Qual a grande missão da literatura hoje em dia? Levando-se em conta a realidade de países como Angola e como Brasil, a situação dos refugiados, injustiças sociais e fronteiras fechadas no mundo todo?
José Eduardo Agualusa:
 A grande literatura é aquela que não dá respostas, mas que coloca perguntas, que é capaz de inquietar. A gente termina o livro e não termina nunca o livro, por que esse livro continua conosco nessas inquietações. Eu poderia dizer objetivamente que o poder da literatura é trazer a inquietação.

Confira as outras respostas:

Você disse que muitos idiomas dentro de Angola estão morrendo por causa dessa expansão da língua portuguesa. Eu fico pensando nessa dualidade para um escritor: dessa língua que é seu lugar de refúgio e de resistência, mas que também pode representar a opressão e a morte de outras manifestações. Como essa reflexão se dá para você?
José Eduardo Agualusa:
 Antes da independência, a língua portuguesa era falada como língua materna por uma porcentagem muito reduzida da população. Não mais do que 10% dos angolanos que viviam nas cidades falavam português. Depois da independência, a língua portuguesa expandiu-se muito rapidamente e, segundo o último censo, é falada agora por mais ou menos 40% dos angolanos. Nas grandes cidades, como Luanda, é difícil encontrar jovens que falem o kimbundu (língua original de Luanda).

É triste pensar que no século XIX quase toda gente falava kimbundu. Um português que quisesse viver em Luanda tinha que aprender a falar o idioma, pois a maior parte das publicações e dos jornais eram inteiramente em kimbundu, e os jornais que não eram publicados em kimbundu tinham frequentemente artigos em kimbundu. A literatura angolana que foi se firmando ao longo do século XIX e a poesia, em especial, usava muito essa estratégia de rimar versos ou palavras em kimbundu com palavras em português harmonicamente. O português era usado pelo kimbundu com grande harmonia, lembrando um pouco o que acontece em Cabo Verde, onde as pessoas transitam do crioulo para o português e são realmente bilíngues.

Na Luanda século XIX, as pessoas eram bilíngues e isso está desaparecendo hoje. É muito difícil saber o que fazer numa situação dessas, por que, evidentemente, por trás de cada língua há uma cultura que se perde. Eu costumo dizer, ao contrário do mito de Babel, que para compreender o incompreensível, para conseguir chegar a Deus, é preciso falar muitas línguas. Quando você perde uma língua, você perde uma maneira de alcançar a Deus.

O que está acontecendo em Angola hoje é algo terrível, que já aconteceu também no Brasil, que perdeu muitas línguas. Felizmente, aqui ainda se falam muitas línguas além do português. Vejo que o Brasil ainda tem muitos desafios similares aos que a Angola tem, que é devolver a dignidade a essas línguas indígenas e conseguir que elas sejam consideradas línguas nacionais e que sejam ensinadas nas escolas.

Pensando uma cultura de inclusão, a poesia tem um papel inestimável. Nesse contexto, que estratégias de leitura você pode sugerir em sala de aula para nos aproximarmos dos adolescentes?
José Eduardo Agualusa:
 A gente tem que repensar o ensino e, sobretudo, como cativar as crianças para a leitura e para a poesia. Gosto sempre de lembrar que a poesia começou por ser uma arte do domínio da magia, por que havia a ideia de que era possível convocar forças através do poder da palavra. Talvez, nós devêssemos recuperar essa força, esse poder da poesia como magia, logo no início, quando as crianças começam a aprender a falar e a escutar.

Eu sou um grande leitor de poesia. Só consigo escrever ficção, por que leio poesia. Mas, percebo que nem todos têm o mesmo encantamento com a poesia. Acho que as pessoas não têm esse encantamento, por que não foram educadas para tê-lo. A poesia está dentro de nós, então, qualquer pessoa que for educada pode sentir o mesmo fascínio e a mesma paixão que eu sinto. Eu realmente acredito que a poesia tem grandes poderes.

 De que forma a gente pode trazer a poesia como utopia às crianças?
José Eduardo Agualusa:
 Temos que começar desde cedo. Temos que pensar em métodos e estratégias de cativar as crianças. Eu escrevo para crianças e quando me convidaram para escrever, lembro que hesitei muito, por que eu sentia que era uma grande responsabilidade. Ao contrário do que por vezes se pensa, de que escrever para crianças é uma arte menor, eu penso que é exatamente o oposto: exige uma responsabilidade muito maior, por que você está seduzindo e atraindo novos leitores.

Quem escreve para crianças deveria ser especialmente responsabilizado por isso. Compreendo que esta é uma tarefa de grandes escritores. Também acredito que um grande livro para crianças é um livro para todos. Um livro que sirva para uma criança é um livro que qualquer adulto gostará de ler. Essa fronteira entre livros infantis e livros adultos nem deveria existir. No caso de livros para crianças, sim, deve haver um cuidado, mas, no caso de livros para crianças serem lidos por adultos, não deveria haver essa distinção. Um livro que só sirva para crianças, realmente não serve para crianças.

Se língua e cultura estão intimamente ligadas, como está a questão das culturas africanas que estão desaparecendo?
José Eduardo Agualusa:
 Em Angola há uma situação única no continente africano, onde uma língua europeia se enraizou de tal forma que se tornou uma língua local. O nosso presidente e o presidente anterior só falavam português e a maioria das pessoas que estão à nossa volta só falam português. Isso não existe em outros países africanos. Mesmo em Moçambique, onde passo uma boa parte do meu tempo, a maioria das pessoas fala outras línguas além do português, e a porcentagem das pessoas que falam português em Moçambique é muito inferior à porcentagem de pessoas que falam português em Angola. Mas, por outro lado, penso que é necessário nós termos uma língua como o português, que é uma língua nacional e transnacional.

Na África do Sul as pessoas de todos os estados foram convocadas a votar para escolher as duas línguas oficiais e por sorte, as pessoas escolheram também o inglês. Se não tivesse sido assim, teria sido complicado manter a unidade nacional. É interessante ver que em novelas e filmes sul africanos em inglês os atores vão falando em várias línguas. Lá é muito comum as pessoas falarem cinco ou seis línguas. Os africanos são poliglotas e eu sinto muito por isso estar se perdendo em Angola.

É importante dizer que o português, ao se “angolanizar”, foi buscar bastante termos dessas outras línguas nacionais. O português do Brasil é muito próximo do português de Angola também por isso, por que incorporou diversas palavras de línguas angolanas. Os dois países foram crescendo juntos, um alimentando o outro. O Brasil não existiria sem Angola, e a cultura brasileira não existiria sem essa matriz africana. O Brasil também influenciou muito em Angola, tanto que temos cidades que foram fundadas por brasileiros.

Gosto sempre de lembrar que quando Angola foi ocupada pelos holandeses, no mesmo momento em que eles tinham ocupado Pernambuco, quem foi libertar Angola foram navios vindos do Brasil. Na história se diz que foram os portugueses, mas quem combateu em Angola foram os brasileiros. Nesses navios que chegaram em Angola haviam índios brasileiros combatendo com estratégias e armamentos de suas etnias, e também negros brasileiros de Henrique Dias. É extraordinário pensar que tivemos índios e negros brasileiros combatendo em Angola em nome de um distante rei português. A história do Brasil e de Angola corre junto até o final do século XIX, nem passa por Portugal. Essa relação é muito mais profunda que do que as pessoas imaginam.

Você já viveu em cidades brasileiras, é muito lido aqui e frequentemente está no Brasil. Como é se confrontar com essa proximidade o tempo todo? E como essa conexão está feita para você aqui em Salvador?
José Eduardo Agualusa:
 Até na geografia eu vejo isso. Quando atravesso o Brasil e começo a ver os nomes das cidades, vejo que são nomes de localidades angolanas. É muito interessante isso, como se a geografia de Angola tivesse se deslocalizado e, de repente, está espalhada pelo Brasil.

Salvador é a capital africana do Brasil e para nós, africanos que chegamos ao Brasil, é território africano. Eu visitei o Brasil pela primeira vez, por que queria conhecer uma Salvador que eu já conhecia da literatura, da música e do cinema. Antes mesmo de estar em Salvador, eu sentia que aquela era uma outra forma de ser africano, eu já sentia esse parentesco, e a minha primeira visita não me desiludiu. 

Gostaria que você falasse da literatura com instrumento de transformação e o livro como instrumento para levá-la ao povo. O que fazer para que o livro seja mais acessível aos pobres?
José Eduardo Agualusa:
 Lembro que em Angola, logo após a independência, tivemos um regime marxista. Quando caiu o muro de Berlim, vários países que tinham regimes marxistas caíram também. Em Angola, as pessoas que fizeram o regime socialista fizeram também o regime capitalista. Eles são hoje grandes capitalistas que fazem algum esforço para esquecerem que um dia foram marxistas.

Havia coisas terríveis no período marxista, como a falta de liberdade. Uma coisa boa daquele período foi o preço dos livros. Os livros eram subsidiados pelo estado e um livro custava o preço de um cigarro. Lembro que no meu primeiro romance, “A Conjura”, eu não era uma pessoa conhecida e, mesmo assim, a primeira tiragem dele foi de 15 mil exemplares, que é uma edição gigantesca em qualquer país do mundo para um autor desconhecido. Essa primeira edição esgotou rapidamente, mas o Pepetela (escritor angolano) chegou a fazer edições de 100 mil exemplares que também esgotavam rapidamente. Naqueles tempos o livro era barato e as pessoas realmente compravam livros. As pessoas compravam os livros e liam.

Hoje, um livro em Angola pode custar um salário mínimo. A maior parte dos livros vendidos são importados, e mesmo os nacionais são muito caros, pois é preciso importar papel e tinta. Então, as pessoas não têm capacidade de comprar um livro. O mais importante é tornar o livro mais barato. Eu não sei se lá o estado poderia apoiar a produção de livros, mas, sei que o Brasil já fez isso e fez muito bem. O Brasil chegou a ter políticas de apoio ao livro muito boas que despareceram. Seria bom recuperar essas políticas. 

Como a literatura pode enfrentar o processo de padronização que existe no mundo? A diversidade está ameaçada? Como formar leitores em tempos de disputa com os grandes meios de comunicação e entretenimento enlatados?
José Eduardo Agualusa:
 Concordo que existe esse processo. Na Europa, quando viajamos de carro, é difícil perceber quando passamos a fronteiras de um país para outro. Lembro de um período em que tive que viajar muito pela Europa e era um horror, por que cada dia eu tinha que acordar numa cidade diferente. Um dia eu acordei, e não fazia ideia da cidade em que eu estava. Levantei meio atordoado e pensei: vou até a janela e abrindo a janela saberei onde estou. Quando abri a janela, havia um grande anúncio da Benetton.... Poderia ser em qualquer lugar. Fui obrigado a ligar para a recepção e perguntar em que país eu estava.

A globalização traz essa uniformização que é má, por que as culturas locais, muitas vezes, vão se diluindo e desaparecendo. Tem o lado bom, que é o fato de podermos nos entender em todo o mundo e de podermos compartilhar paixões, como a literatura. Não sei muito bem como lutar contra isso, mas, acho que literatura pode ter um papel nessa luta, pois os livros são janelas de possibilidades diferentes para mundos diferentes. Quando nós procuramos um autor argentino, sueco ou nigeriano, estamos à procura do que é diferente, à procura da surpresa. Viajar sempre foi ir ao encontro da surpresa. Se não há surpresa, não há viagem, há deslocamento: a gente vai de um lugar ao outro, mas, não viajamos verdadeiramente. E a viagem pode ser feita através de livros, o que mais uma vez implica a surpresa. Se nós não nos surpreendermos ao lermos um autor nigeriano, por que encontramos um mundo exatamente igual ao nosso, não viajamos. Esses dois movimentos coexistem: ao mesmo tempo em que há o movimento de uniformização, há o movimento de resistência e resgate do que é particular. Eu espero que um dia esses movimentos se equilibrem. 

Nesse sentido, se pensarmos em seus livros, eles constroem uma contra narrativa?
José Eduardo Agualusa:
 Sem dúvidas. Nos países africanos existe um interesse pelo romance histórico, que é nada menos do que o interesse dos africanos em contarem a sua própria história, que até então era feita pelos europeus e pelas potências coloniais. Muitos escritores, aqui no Brasil e na África também, pensam que se escreverem como um europeu poderão ter mais sucesso. O que é uma ilusão, por que isso não acontece. Um sueco não está à procura de um escritor brasileiro que se pareça com José Saramago, está à procura de um Brasil diferente, de ser surpreendido por outras realidades. Se formos féis a nós próprios, acabamos sempre conseguindo ser originais e, às vezes, é necessário ter coragem para isso.

No seu romance “A rainha Ginga” há mais ficção ou mais realidade?
José Eduardo Agualusa:
 Eu sempre quis escrever este livro. Acho que me tornei escritor, por que queria escrever este livro. Demorei para conseguir, por que era uma realidade muito distante do ponto de vista temporal e da realidade cultural. À medida que ia escrevendo outros livros, ia recolhendo informações sobre aquele personagem histórico que, para quem cresce em Angola, está presente em nosso cotidiano desde sempre. As histórias da rainha Ginga estão na oralidade. As pessoas contam o tempo todo histórias sobre ela e é impossível crescer em Angola sem ouvir falar na rainha Ginga.

Demorei muito tempo para conseguir escrever o livro, e quando o narrador surgiu - e o narrador, mais do que um tradutor de línguas, é um tradutor de mundos - ele era um brasileiro, um pernambucano com sangue indígena, negro e português. Quando esse narrador surgiu, o livro começou a se escrever praticamente sozinho. E isso aconteceu por que eu tinha um conhecimento muito grande das fontes históricas e o meu desafio era contar a história a partir da corte da rainha Ginga. Há muita documentação sobre aquele período e o mais importante deles é um livro extraordinário de um português que vai para Angola com quinze anos e acaba por se tornar angolano. Ele escreveu um livro no século XVII em um português que já não é era o mesmo de Portugal, era um português inteiramente angolano. Mas mais do que buscar termos angolanos, este autor vai buscar uma mitologia e acredita nela. Ele já não é mais português, ele é angolano quando escreve este livro. Ele conta a história a partir do ponto de vista português, mas não consegue esconder a sua admiração pela rainha. Esse livro, que se chama “A história geral das guerras angolanas”, foi muito importante para mim. Acho uma ironia e uma tragédia que no século XVII alguém conseguisse escrever um livro em três volumes, com mil página cada volume, chamado “História geral das guerras angolanas”. A verdade é que nos séculos que se seguiram, nunca deixou de ter guerras. Acho que é a primeira vez que estamos em paz há tempo. Estamos em paz desde 2002.  

A rainha Ginga é uma personagem tão forte, que ela seduziu e cativou todos os europeus. Muita gente falava dela criando mitos e histórias horríveis, muito pelo fato de ela ser uma figura poderosíssima e com uma personalidade original. Ela impôs o seu modo de vida e a sua visão não só ao seu povo, mas aos portugueses e holandeses.

Sobre o fato do otimismo ter uma potência criativa, a melancolia, numa visão aristotélica, também é uma potência de ação. O indivíduo melancólico também pode escrever e ter a literatura como a purgação da dor ou um pouco de saúde na loucura, ou seja, a melancolia não poderia extrapolar o espaço do pessimismo e da preguiça?
José Eduardo Agualusa:
 Vou ter que pensar melhor nisso, mas, sim, a minha questão é mais com o pessimismo. Eu costumo dizer que a África salvou o Brasil do pessimismo português. Portugal é hoje um dos países que está em melhor situação, que tem um presidente que lê e um primeiro ministro que lê (posso dizer isso por que eles comentam meus livros e o primeiro ministro costuma ir aos meus lançamentos). Portugal é um oásis e está numa situação extraordinária nesse mundo complicado e difícil que nós vivemos. Mas, se você for a Portugal e falar com um português, eles vão se queixar. Agora queixam-se sobre o turismo, por exemplo, dizem que há demais turistas. É esse pessimismo que eu combato, entende? 

Como lidar com o estranhamento para com o outro?
José Eduardo Agualusa:
 Um dos meus livros que tem feito mais sucesso agora é “Teoria geral do esquecimento”, que é um livro sobre uma mulher, uma portuguesa que vai para a Angola carregada de preconceitos pouco antes da independência e começa então a guerra. Ela, assustadíssima com a guerra e com o outro, constrói um muro separando seu apartamento do resto do prédio e vai viver ali isolada durante trinta anos, até que é salva por uma criança que lhe devolve a visão e então entende que não existe um outro, ou outro é ela própria. O outro somos sempre nós. E é por isso que as crianças são tão importantes: as crianças sempre nos devolvem a visão e nos mostram o evidente. A gente esquece que não há um outro. Há um desconhecimento e uma ignorância. O racismo é sempre ignorância. O racismo é o medo do outro, e resulta sempre da ignorância. Quando você vence essa ignorância e derruba esse muro, você reconhece a si próprio no outro.

Em relação ao estranhamento diante do outro, o que está acontecendo agora no Brasil me lembra o fato terrível que se passou em Angola. Quando você quer fazer uma guerra civil, a primeira coisa a fazer é convencer um grupo de pessoas daquele país que um outro grupo de pessoas não são “bem” nacionais. A primeira coisa é retirar a nacionalidade, e a segunda é retirar a humanidade: dizer que aquelas pessoas não são “bem” pessoas. Essa situação que está acontecendo agora no Brasil me lembra isso, essa incapacidade das pessoas de dialogarem. É assim que começam as guerras civis e vocês precisam evitar que isso aconteça. Essa é uma responsabilidade de cada um e vocês.

Quando estou no Facebook eu vejo isso. Tenho muitos amigos brasileiros e agora vou excluí-los, por que defendem isso ou aquilo. Eu procuro ter nesses amigos virtuais gente que não pensa como eu. É importante sempre termos à nossa volta pessoas que não pensam como nós, pois as democracias não se fazem por unanimidade. A ideia básica da democracia é que juntando duas pessoas diferentes se possa melhorar uma ideia, iluminando o outro. O importante é manter sempre o debate vivo.

CONHEÇA OS PRÓXIMOS CONFERENCISTAS DO FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO 2018

Conferência José Eduardo Agualusa 01 agosto (quarta-feira)
Debate Especial Gilles Lipovetsky e Leandro Karnal 17 setembro (segunda-feira)
Conferência Marcelo Gleiser 15 outubro (segunda-feira)

Siga o Fronteiras Salvador no Facebook

DEBATE ESPECIAL: GILLES LIPOVETSKY E LEANDRO KARNAL 17 setembro

lipovetsky

Filósofo francês, Gilles Lipovetsky tem a habilidade de tornar visíveis as relações entre diversos fenômenos da atualidade, abrindo ramificações que investigam temas fundamentais, como a decadência das tradições que antes guiavam nossas vidas, o desencantamento por ideologias políticas e o culto ao prazer e à felicidade imediatos. Tudo isso é abordado em suas reflexões, sem deixar de lado os aspectos emocionais que surgem da hipermodernidade: a solidão, o sentimento de vazio, a ansiedade e a depressão são problemas que o pensador atribui ao nosso tempo.

karnal

Um dos mais populares intelectuais do Brasil, o historiador Leandro Karnal é presença frequente na televisão, nas rádios, revistas e jornais. Nas mídias sociais, vídeos de palestras do pesquisador e professor da Unicamp são viralizados e suas análises são compartilhadas por milhares de pessoas. Karnal combina sagacidade e bom humor para estimular brasileiros a refletirem sobre temas cruciais para a compreensão da realidade do país e para o conhecimento do ser humano.

Leandro Karnal se une a Gilles Lipovetsky neste grande debate sobre quem somos atualmente e para onde estamos caminhando enquanto sociedade brasileira e enquanto humanidade. Adquira o pacote para os próximos dois eventos (R$ 70 ou R$ 35 meia-entrada)

MARCELO GLEISER 15 outubro

marcelo gleiser

Marcelo Gleiser mostra como as mais complexas teorias sobre o universo estão interligadas ao nosso cotidiano. Sua postura congregadora reúne diversas áreas do conhecimento e faz desse brasileiro um dos principais intelectuais públicos do país, responsável por muitos dos vídeos mais assistidos do Fronteiras.

Marcelo Gleiser encerra o Fronteiras Salvador mostrando como, apesar das aparentes diferenças, somos todos movidos pelas mesmas forças e questionamentos. Adquira o pacote para os próximos dois eventos (R$ 70 ou R$ 35 meia-entrada)