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Kwame Anthony Appiah: sobre honra, moral e ética

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Escolhemos três conceitos-chave na obra do filósofo anglo-ganês Kwame Anthony Appiah, que estará em Porto Alegre nesta segunda-feira (12/08) para a conferência Revoluções morais no século XXI, no Fronteiras do Pensamento. As explicações são do próprio Appiah:

- “Honra é o direito ao respeito, que é governado por algum código. Ter o sentido de honra é se importar com o direito ao respeito sob esse código."

- “Moral são as normas que regem como devemos tratar os outros."

- “Ética são as normas que nos dizem como viver que, obviamente, incluem as normas de como devemos tratar os outros, mas vai além. Devemos buscar nossos sonhos e respeitar nossa própria individualidade – e isso não se trata do outro."

Para mudar práticas imorais em culturas que as consideram honrosas (tradições como amarrar os pés na China – séc. 19, o uso da burca ou a mutilação de órgãos genitais femininos), Appiah defende o diálogo respeitoso, capaz de abrir as culturas a novos códigos de honra. Diz Appiah:

“A maioria dos debates morais no mundo contemporâneo parte de que diferentes sociedades possuem diferentes noções de respeito para homens e mulheres. Os códigos variam de acordo com os gêneros. Estes códigos são geralmente locais. A primeira discussão que precisamos ter, para mudarmos um comportamento que não aprovamos, é como persuadiremos as pessoas de que há algo errado em seu código vigente.

Aqui, entra algo importante sobre a honra. É importante salientar que a honra pode levar, ou não, pessoas a agiram de acordo com a moral. A moral proíbe que matemos uns aos outros caso sejamos acusados de estarmos mentindo, mas, na Inglaterra do século 18, o código de honra exigia que um cavalheiro ameaçasse ou tentasse matar o outro caso fosse acusado de estar mentindo. A moral é, obviamente, contra a escravidão. Mas, a América colonial do século 18 definia seus códigos de honra com base nas etnias, o que permitia que negros fossem escravizados – algo que ia contra a moral. Neste caso, a moral teve que ser trazida à luz para interromper este sistema.

Quando temos que persuadir pessoas de outras culturas de que seus códigos de honra estão equivocados, a primeira coisa que devemos fazer é dialogar e analisar se elas percebem que há algo errado. Os exemplos históricos confirmam que elas geralmente já sabem que é errado. Boswell perguntou ao Dr. Johnson o que ele pensava sobre os duelos e ele disse: 'não consigo explicar a racionabilidade de um duelo, mas creio que devemos fazê-lo.' Eles já percebiam o problema. Uma questão é ilegal, imoral, irracional e as pessoas o fazem de qualquer forma.

Então, quando você inicia o diálogo, já tem algo ao seu favor. É claro que a mutilação genital causa dor nas meninas. Ninguém nestas sociedades pensa que causar dor é bom. Muitas vezes, geram infecções. Novamente, ninguém pensa que infecções são boas. É por aí que devemos começar a conversação – de forma respeitosa, ou não seremos ouvidos, nada ensinaremos a eles e nada aprenderemos sobre eles. Em um diálogo respeitoso, você tem a possibilidade trazer à luz o que as pessoas já sabem, aquilo que é errado. A partir daí, precisamos pensar em como aliar honra e moral, pois a questão não é abandonar a honra, mas moldá-la."