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Luc Ferry: "Como envelhecer sem ser tornar um imbecil?"

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Filósofo francês, Luc Ferry encerrou a temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento na noite desta quarta-feira, no Teatro Santander, em São Paulo. Ao longo do ano, o projeto recebeu intelectuais de diversas partes do mundo para refletir sobre a mais antiga das questões, quais são os Sentidos da Vida.

Ferry trouxe uma grande conclusão à pergunta, explicando os quatro sentidos que moveram a humanidade ao longo da história. A eles, acrescentou um quinto, o propósito do mundo contemporâneo. O filósofo observou que, a todos, há um elemento comum: a busca pela harmonia.

As quatro respostas ao sentido da vida

01 - No sentido dos gregos, exemplificado pela trajetória de Ulisses na Odisseia, de Homero, o ser humano deve se colocar em harmonia com o mundo. "O fio condutor da história é que ele vai da vida ruim para a vida boa. Vida boa para Ulisses é a colocação de si mesmo em harmonia com o mundo”, destacou.

02 - Para as religiões, a vida boa seria estar em harmonia com Deus. “A harmonia não mais com o cosmos, mas com os mandamentos divinos. Em troca, há a salvação.”

03 - A resposta humanista, surgida com o Iluminismo, recomenda colocar-se em harmonia com as outras pessoas e fazer uma contribuição para o progresso da humanidade. A resposta para uma vida boa foi humanizada, e não é mais a harmonia com o cosmos ou com Deus. “Ela está numa pequena frase conhecida mundialmente: a minha liberdade termina onde começa a do outro”, salientou. O sentido da vida nesta terceira fase é a harmonia com os outros. O francês complementa: “e, se possível, tenho que fazer algo a mais para acrescentar à humanidade”.

04 - Nietzsche, Freud e a atual psicologia positiva fornecem a quarta resposta, estabelecendo que o que nos resta é o individualismo, preocupar-se em estar em harmonia consigo mesmo. "Esta é a resposta que domina o mundo de hoje, e não gosto dela. Se tudo morreu, resta trabalhar para o seu próprio bem-estar."

"Nietzsche diz que faz filosofia com um martelo. Ele é um desconstrutor, que rompeu com as transcendências passadas. Quebra as três respostas anteriores com esse martelo, pois pensa que elas são alienações que nos privam da nossa liberdade”, explicou.

Então, disse o convidado, só resta o umbigo de cada um, o individualismo, o narcisismo, a preocupação consigo mesmo. “E o que está atrás de si mesmo? A felicidade. O mundo inteiro está inundado de livros sobre lições de como ser feliz. E isso é o resultado destas desconstruções. Hoje, ouvimos que temos que aprender a amar a nós mesmos como amamos nossos filhos. Para mim, isso é a definição de loucura”, expôs.

A quinta resposta: o sentido de vida atual

Ferry desenvolveu, então, a sua resposta favorita. Para ele, a vida boa está relacionada a duas revoluções: a do amor e a da longevidade que, através da revolução transumanista, nos daria mais tempo para desenvolvermos a necessária maturidade. O que os dois movimentos trouxeram está muito relacionado à ideia de pensamento alargado, de Kant.


Ao final do encontro, Ferry esclareceu que tinha escolhido falar de amor, mas poderia ter discorrido sobre o ódio. Para ele, são dois sentimentos exclusivamente humanos – os animais não amam, são afetivos, assim como não matam por maldade, mas por instinto. 

"O ódio é talvez maior do que o amor no ser humano. Não sou ingênuo. O século 20 foi genocídio atrás de genocídio – afirmou. – Acredito que a longevidade permitiria que a gente se acalmasse um pouco, que fôssemos menos idiotas."

Após sua fala, Ferry respondeu as questões do público e do curador do Fronteiras, o cientista político Fernando Schuler. Confira abaixo as principais respostas de Luc Ferry.

Perguntas e respostas | Luc Ferry no Fronteiras do Pensamento


Fernando Schuler: Sobre este ser que viverá muito, um ser do mundo da abundância, nós estamos falando de algo ligado ao último homem de Nietzsche - ligado ao bem-estar, à saúde, ao prazer, à leveza, ou ao super-homem nietzschiano - a transcendência, a superação de si, a grandeza? Qual é a tendência do homem contemporâneo?

Luc Ferry: Todas as possibilidades estão abertas. A questão principal é que todo mundo envelhece em um momento ou outro, a não ser que se morra antes.

A única questão que se coloca hoje, independente de todas as banalidades, é que nós somos muito consumidores. Eu vejo os jovens ecologistas são a geração mais consumista da história. Eles são ecologistas e todos têm um smartphone e fazem manifestações na internet graças ao capitalismo americano. Eu acho muito cômico tudo isso.

A grande questão para o humano contemporâneo – homem ou mulher – é uma questão que já foi colocada por Rousseau e Sartre: como envelhecer sem se tornar um imbecil? É muito profundo, não é uma piada.

Na sociedade, existe todo o tipo de papéis que são já formatados. Você pode ser uma mãe judia, você pode ser uma garota modelo, uma mulher criança, um velho militar aposentado, um velho revolucionário que abandonou seus ideais. Todos esses papeis existem e já estão prontos na sociedade. 

São como velhos chinelos confortáveis: você pode colocar seus pés dentro e aí você perde sua liberdade. Você se torna idiota, você se torna um exemplar de um software.

A grande dificuldade para o humano contemporâneo é permanecer livre.

Por que é importante ser livre? Porque, quando você entra em papeis sociais que já existem, você perde a sua liberdade, mas também perde o seu charme em relação aos outros, perde a capacidade de amar e ser amado. Se torna um velho idiota.

A grande dificuldade é como viver livre das categorias que a sociedade quer nos aprisionar. Ser livre é a coisa mais difícil que existe, independente das questões do consumo.

Fernando Schuler: Na entrada da conferência, eu conversava com um amigo na faixa dos 45 anos que está pensando em iniciar sua terceira carreira. Ele vive nesse mundo da abundância de informação, mas também tem uma contrapartida. Há muitas oportunidades, mas muita angústia. Nós temos muito mais potência como indivíduos, muito mais poder, mas ganhamos também muito mais responsabilidade e essa responsabilidade pode nos esmagar e nos oprimir. Como a filosofia pode nos ajudar nisso?

Luc Ferry: Nós vivemos no mundo da inovação e a inovação tem um lado que é a sombra. O automóvel destruiu a diligência, a lâmpada destruiu a vela. Estamos em um mundo de destruição e de inovação permanentes.

Na história do século XX, na História da Arte, nós destruímos a figuração na pintura com Picasso, destruímos a tonalidade na música com Schönberg, destruímos as regras tradicionais da dança com Pina Bausch, destruímos as regras tradicionais do romance com o Nouveau Roman, e as regras do teatro com Beckett.

Quando eu era jovem, tínhamos 6 milhões de camponeses na França. Hoje, sobraram 300 mil. Destruímos um mundo inteiro nisso.

Voltando à questão do seu amigo, nossas crianças terão 3 ou 4 profissões. É preciso mudar o tempo todo e isso é inquietante. Eles terão 3 mulheres ou 3 maridos, porque nós não amamos mais da mesma forma por vinte ou quarenta anos e, como temos o direito de nos divorciarmos, nos divorciamos. Nas grandes cidades ocidentais, como Paris, 60% dos casamentos terminam 7 anos depois com o divórcio.

O mundo da inovação é destruidor, mas, ao mesmo tempo, é formidável e inquietante. É inquietante para as pessoas que não estão na globalização.

Você tem gente que está enraizada em suas terras e eles são infelizes. É por isso que o capitalismo traz progressos extraordinários, como o aumento da expectativa de vida, mas, ao mesmo tempo, suscita a hostilidade e movimentos de extrema direita e extrema esquerda.

É normal isso, porque há gente que, diante dessas inovações permanentes, torna-se extremamente ligado ao passado e fica muito infeliz com essa situação toda. É como no surf. Se você é um bom surfista, você está na onda e está tudo bem. Se a onda passa por cima de você, você pode se machucar.

O que você deve dizer ao seu amigo é que o fato de mudar de marido ou de mulher é uma boa nova. Na Idade Média, a mortalidade era muito grande. A grosso modo, quando se casava, a pessoa ficava no máximo 6 anos casada, porque um dos dois acabava morrendo.

Hoje, é muito difícil manter um casamento por quarenta ou cinquenta anos. São poucas pessoas que resistem a isso e muitas vezes eles resistem por causa dos filhos ou porque tem uma amante ou um amante.

A liberdade é sempre mais difícil do que a tradição.  

Fernando Schuler: Você falou do Uber, do Airbnb, da internet. Os mecanismos de compartilhamento são muito bons, melhoram a eficiência das coisas, mas nos mantêm em vigilância permanente. Nós vivemos em uma sociedade de absoluta transparência, onde está tudo registrado e onde um pequeno erro que você comete pesa para sempre na sua biografia e na sua relação com o mercado. Esse mundo não tem um lado infernal, onde nada se esquece e onde estamos permanentemente sendo vigiados e em vigília dos outros?

Luc Ferry: É preciso evitar dizer bobagens em público. É difícil, mas é sábio. É preciso evitar de ir a uma noitada mundana disfarçado de oficial nazista, porque isso pode te perseguir por vinte anos depois.

Eu saí do Twitter e do Facebook, porque eu não aguentava mais. Isso é muito triste, porque essas redes poderiam ser muito interessantes e formidáveis, como um novo Iluminismo, uma conectividade que estabelece relações entre as pessoas, mas se tornou um festival de bobagens, de ódio e de fake news.

É triste dizer isso, mas eu acreditei no Facebook, acreditei que ele poderia ser um espaço de discussão pública formidável, mas eu vejo que ele se tornou, talvez, a pior coisa que está acontecendo.

O lado ruim de tudo isso é capacidade não só de criar fake news, mas fake vídeos. Você pode criar falsos vídeos do presidente dos Estados Unidos ou do Bolsonaro em que os movimentos da boca e a voz deles são perfeitos. Normalmente, quem grava esses vídeos diz bobagens, então você pode dizer bobagens e até mesmo criar uma guerra com isso.

Como você disse, é muito difícil de corrigir o erro uma vez que o fake vídeo ou a fake news foi passada para milhões de pessoas. É muito difícil voltar atrás.

O conselho que eu dou é: saia do Facebook e saia do Twitter. Não compre os assistentes domésticos, que são simplesmente bombas de dados. Nunca compre pela internet. Evite fazer e dizer bobagens. Eu fiz algumas besteiras dessas e eu sei como é. Poderia ser um projeto grandioso, mas é triste.

No seu livro, Aprender a Viver, você diz que a filosofia é uma religião sem Deus. A religião servia para nos dar um sentido. A filosofia teria o papel de nos ensinar a viver em um mundo sem sentido? Nesse mundo em que viveremos 150 anos a religião cumprirá algum papel ou finalmente Deus terá morrido?

Luc Ferry: Ele já morreu. Todo mundo tem o direito de crer. Eu tenho grande admiração pela teologia cristã, acho o evangelho de São João muito bonito, provavelmente o livro mais belo que já se escreveu na história da humanidade, mas eu não sou crente e não acredito na ressurreição.

Nós temos o direito de ter uma crença e isso não é problema para mim, mas as religiões têm uma função política que foi criar comunidades que se exterminam entre elas. Um exemplo disso é a Iugoslávia. Lá, você tinha diferentes grupos religiosos que se exterminaram entre eles.

No plano político, a religião é uma catástrofe. Viva a laicidade. A religião é uma catástrofe política mundial. Não existe uma única guerra política que não seja religiosa, forjada por comunidades.

A filosofia é uma religião sem Deus. O budismo e o estoicismo dão sentido à vida, mas sem passar por Deus, sem passar pela fé. São espiritualidades laicas.

Se você não é crente, a filosofia é realmente genial. É o que tem de melhor, porque é uma grande teoria do sentido da vida.

Mais uma vez: eu não tenho nada contra as religiões, mas é preciso que elas permaneçam na vida privada. Quando elas saem para a vida pública, é um horror.

Você escreveu um livro sobre o amor. Qual é o sentido do amor em um mundo em que as pessoas parecem se odiar cada vez mais? Num mundo de baixíssima empatia, onde encontrar espaço para o amor?

Luc Ferry: Nós só fazemos isso o tempo todo. Nós passamos a nossa vida amando e tentando ser amados. É a única coisa que nos motiva. Agora, o amor e o ódio são inseparáveis. Os humanos são seres de ódio tanto quanto de amor e essa é a grande característica da humanidade.

Os animais não são capazes de odiar. Eu tenho um gato que é adorável. Ele se chama Proteína, ele come proteínas e é um gato totalmente parisiense. Ele fica no distrito 7 de Paris e quando ele vê um camundongo, ele faz como o presidente Hollande e corre atrás.

Ele não pode ser impedido de correr atrás. Seu instinto natural o leva a isso. Quando ele vê uma mosca ou uma borboleta, ele corre atrás e se torna uma pantera, mas ele nunca conheceu outra coisa além de um apartamento parisiense. Não é por ódio, é o instinto que o leva a caçar.

Enquanto eu lia sobre a guerra da Iugoslávia, soube que o Primeiro Ministro polonês Morawiecki fez um relatório descrevendo as atrocidades cometidas pelos sérvios. Uma delas me chocou muito: as milícias de soldados sérvios obrigaram um avô a comer o fígado do seu neto que ainda estava vivo. Incrível isso. Nenhum animal faz isso.

Nós somos capazes do maior amor que pode existir, da maior generosidade, da maior abertura para o outro. Podemos ser a Madre Teresa de Calcutá, mas também podemos ser os maiores hipócritas de todos.

O amor dá sentido às nossas vidas e isso é uma evidência para mim, mas eu não sou ingênuo, eu percebo que os homens são capazes disso. A história do século XX é basicamente a história do ódio, então nós somos capazes disso.

Freud tem uma metáfora emprestada de Schopenhauer que gosto muito. Ela diz o seguinte: nós somos como um pequeno porco-espinho. Quando eles têm frio, se aproximam uns dos outros, mas, às vezes, se machucam com seus próprios espinhos. Ao se aproximar, você nunca sabe qual é a distância adequada ou segura.

Essa é a explicação das relações humanas e o problema da democracia. Esse é o pequeno porco-espinho, mas a boa distância não é fácil de encontrar, porque estamos constantemente muito no amor ou muito no ódio.

Na questão das grandes respostas para a vida boa, eu penso que existem 5 respostas: a primeira grande resposta é a dos gregos: a harmonia entre você e o mundo.

A segunda resposta é a das religiões: a harmonia de si com o divino, com Deus. Não com o cosmos. Deus nos promete a imortalidade em troca.

A terceira resposta é se colocar em harmonia com a humanidade. A liberdade tem que terminar quando começa a dos outros.

A quarta resposta é a colocação da harmonia de si consigo mesmo, de Freud e depois da psicologia positiva: amar a si mesmo, se reconciliar consigo mesmo.

As 4 respostas são como uma escada. O cosmos é muito exterior ao humano, Deus já é mais humano, a humanidade é muito humano e você mesmo é muito, muito humano. A quinta resposta é a minha: a harmonia de si com aquele que amamos ou que poderíamos amar. Nós podemos encontrar pessoas em qualquer lugar do mundo que nós poderíamos vir a amar.      

Pergunta enviada pelo público seguidor do Fronteiras nas mídias sociais, patrocinadas pela Braskem.

Pergunta Braskem: O senhor afirma que o medo precisa ser enfrentado. Como fazer quando o medo é usado para manobrar a grande massa da população? Como lidar com o medo manipulador?

Luc Ferry: O medo é um instrumento de manipulação muito eficaz. Na filosofia grega, encontramos essa ideia, particularmente na Odisseia de Homero, de que o sábio é aquele que venceu os medos. Por quê? Quando somos tomados por uma fobia - esses medos absurdos de um inseto, de um rato ou do escuro - a gente se torna bobo, malvado e egoísta.

Se você tem medo de um camundongo, por exemplo, sabemos que ele mata muito pouco a cada ano. O camundongo não é um animal feroz, então ter medo de um camundongo é uma bobagem. Ao mesmo tempo, você se torna um egoísta, porque só consegue pensar em si mesmo.

O sábio é aquele que venceu os medos e é capaz de amar, de sorrir e de olhar para os outros. Isso é a sabedoria.

Todos os ditadores compreenderam que o melhor meio de dominar o povo é pelo medo e é extremamente difícil, hoje, lutar contra isso. É preciso retirar os medos que estão ancorados em nós, porque isso acaba com a vida da gente, mas é extremamente difícil lutar contra o medo suscitado pelas verdadeiras ditaduras.

A única maneira é aceitar ou se revoltar até mesmo arriscando a própria vida, mas reconheço que é necessário ter uma coragem muito grande para isso.

Em todo caso, a primeira coisa a fazer é: torne-se um sábio grego. Vença os seus próprios medos (claro que com a ajuda de um psicanalista é mais fácil).