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Manuel Castells responde a Pergunta Braskem: tecnologias na educação

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Manuel Castells no Fronteiras Braskem do Pensamento (foto: Ulisses Dumas / Ag. BAPRESS)
Manuel Castells no Fronteiras Braskem do Pensamento (foto: Ulisses Dumas / Ag. BAPRESS)

A série especial do Fronteiras do Pensamento em Salvador abriu sua temporada 2015 com o sociólogo espanhol Manuel Castells, que ministrou a conferência Movimentos sociais em rede e processo político na era da internet nesta terça-feira (12).

No palco do Teatro Castro Alves, o sociólogo falou sobre os movimentos sociais na era da informação, reforçando características entre eles que estimulam a articulação de mentes e a criação de significados.

Após a fala, Castells respondeu as perguntas do público mediadas por André Lemos, doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal da Bahia. Uma das questões respondidas por Castells foi enviada do Paraná, pela professora Ariana Chagas Gerzson Knoll, por meio do email digital@fronteiras.com, na iniciativa Pergunta Braskem, que leva ao palco do Fronteiras os questionamentos dos seguidores do projeto nas mídias digitais. Confira abaixo a resposta de Castells para a professora:

Ariana Chagas Gerzson Knoll: Por que, tão permeados pela cultura de uma tecnologia digital, as instituições formadoras de professores ainda resistem ao ponto de apartarem os gestores escolares de processos de formação para inserção e uso das tecnologias digitais na escola? Quais são as bases dessa exclusão dos gestores escolares das propostas de formação? O que o senhor tem visto quanto ao tema em outros países?

Manuel Castells: A questão é a relação entre tecnologia e educação. A educação depende fundamentalmente de um elemento: os professores. Bons sistemas educacionais são aqueles que têm bons professores. Introduzir a internet nas escolas é muito positivo, mas apenas se os alunos têm um guia não em utilizar a internet, porque os alunos já sabem, não é preciso professores para isso. Eles podem até ensinar os professores, como ensinam seus pais. A questão é como os professores podem ter a capacidade intelectual, a iniciativa e as formas pedagógicas para guiar os alunos no que devem buscar na internet e fazer com o que encontram para sua formação e sua educação.

No fundo, seria um sistema simbiótico interessante, que é o que ocorre na Finlândia, por exemplo. O melhor sistema educacional do mundo. Professores de alto nível com bons salários, com boa formação e que trabalham com a internet com seus alunos. Os alunos não necessitam de formação técnica para utilizar a internet, o que acontece é que os alunos ensinam a internet, como uma tecnologia, aos professores. Aos professores cabe ensinar que tipo de informação e como se utiliza e combina essa informação, gerando conhecimento ligado às suas tarefas.

O Brasil tem um problema muito sério na qualidade do ensino em função da pouca formação e das más condições de trabalho dos professores. Os professores estão sempre em greve. E não estão greve porque não se importam com sua profissão, já que lecionar é um trabalho fundamentalmente vocacional, é feito porque gostam de estar com as crianças, mas entram em greve porque não têm acesso aos meios que criam a capacidade.

Eu estava no Brasil quando a administração do Fernando Henrique Cardoso fez um grande esforço para escolarizar 95% das séries primárias. O Brasil, hoje em dia, das duas últimas administrações para cá, está escolarizado. É bom que as crianças estejam nas escolas, mas o problema é que uma escolaridade quantitativa é, como chamo, um armazenamento de crianças, não é educação.

Educação é o que ocorre dentro da escola uma vez que as crianças chegam. O problema que as duas últimas administrações encontraram é que não há professores suficientes e também que há regiões no Brasil, estados, em que os professores não terminaram sua educação primária. Aqui é onde a internet pode ter um papel importante. Para educar os professores, não os alunos. Oferecer educação à distância de qualidade mediante o sistema da internet, algo que se faz no mundo inteiro e que realmente funciona muito bem. Antes, vídeos eram usados. Agora, podemos usar a internet.

Então, a formação dos professores é prioritária junto com a possibilidade de que se introduza as tecnologias nas escolas. Mas, a introdução da tecnologia depende da capacidade, de recursos humanos para utilizá-la.