Voltar para Notícias

Mia Couto: "Em defesa da impureza"

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
O escritor Mia Couto e Adriana Couto, mediadora da conferência .
O escritor Mia Couto e Adriana Couto, mediadora da conferência .

Nesta quarta-feira (16), o escritor moçambicano Mia Couto foi o conferencista da estreia do Fronteiras do Pensamento 2020. Em conferência realizada pela primeira vez pelo meio digital, o autor apresentou ao público do projeto um verdadeiro manifesto intitulado “Em defesa da impureza”.

Uma das principais vozes do continente africano, Mia iniciou sua conferência prestando solidariedade aos brasileiros pelo sofrimento causado pela covid-19 e pela forma como a pandemia tem sido tratada no país. A partir de referências de filosofias da cultura moçambicana, questionou a dicotomia entre humano e não-humano, entre natureza e sociedade. Estas fronteiras, antes tão claramente delimitadas, foram derrubadas por descobertas recentes da ciência que comprovam que as bactérias, vírus, e fungos estão no nosso corpo porque são parte dele. Com esta construção, Mia nos diz que é sobretudo o não-humano que nos ajuda a sermos humanos.

Segundo o escritor, é essencial para o futuro da humanidade absorver o entendimento de que somos construídos por inúmeros seres microscópicos - a maior prova de que não existe uma “pureza humana”. Esta compreensão deve ir além dos livros de Biologia. Somos fruto da pluralidade, e essa consciência deve ser passada às próximas gerações: “Uma criança que aprenda que é feita da diversidade entre o humano e o não humano dificilmente será manipulada por movimentos que se inspiram na ideia de pureza racial, religiosa ou étnica”, afirmou.

Biólogo de formação, o autor abordou a questão das queimadas que ameaçam a biodiversidade da Amazônia e do Pantanal. Para ele, mais preocupante do que a destruição da floresta e a situação dos animais que perdem sua casa são as políticas que viabilizam e ignoram a realidade desta tragédia: "O que está acontecendo na Amazônia não é apenas um crime ecológico, é um crime contra a humanidade. Pensando nas razões invocadas para deitar fogo e para permitir que a Amazônia seja objeto de um assalto, é um crime político, econômico, ecológico. É um crime total", pontuou Mia Couto.

Após sua exposição, o escritor respondeu às perguntas do público enviadas pelos canais digitais
do projeto e pelo Whatsapp, realizadas pela mediadora da noite, a jornalista e apresentadora Adriana Couto. A seguir, confira algumas respostas do autor
 aos mais variados temas:

O PODER DA ESCUTA

Adriana Couto: Mia, você já falou para a gente em outras oportunidades sobre a força da narrativa que cada um carrega, a história que a gente carrega e as conexões que a gente faz entre essas histórias. A gente tem uma pergunta aqui falando um pouco sobre isso: você acredita que em nosso tempo a reinvenção do humano passa pelo exercício empenhado da escuta, da acolhida, da transição para as lógicas dos outros?

Mia Couto: Eu acho que o ensinamento mais importante que eu levo da minha infância foi dado sem nenhuma intenção de me ensinar qualquer coisa. O meu pai e minha mãe demoravam uma hora para atravessarem a quadra, e demoravam porque dedicavam seu tempo aos outros.

Quando cruzavam com alguém, e fosse esse alguém quem quer que fosse - de outra raça, de outro bairro, de outra origem ou outra condição social-, eles estavam ali inteiros conversando com essas pessoas.

Aprendi desde cedo a importância desse reconhecimento do outro e dessa escuta, e percebi que os meus pais eram casados nisso, porque eles realmente se alimentavam desse cotidiano, da escuta.


O FUTURO PÓS-PANDEMIA

Adriana Couto: Essa pandemia vai trazer alguma modificação para as nossas vidas? O senhor acredita que haverá um novo normal ou que com o passar do tempo nós esqueceremos desses momentos e tudo voltará a ser como era antes?

Mia Couto: Não sou nunca pessimista, mas não sou muito otimista. No final desta pandemia, no sentido do que é um final em que a pandemia vai continuar, mas não com a gravidade que tem, eu acho que vamos regressar ao velho normal.

Aquilo que chamamos de “novo normal” é simplesmente o que Guimarães Rosa chamava de uma miséria melhorada. O sistema econômico e político em que vivemos vai se reajustar e do ponto de vista social e econômico vai continuar a repercutir, a fazer com que esta crise pese sobre quem é mais pobre, como sempre aconteceu em todas as crises. Tenho pouca esperança de que a gente desperte, ou que desperte com uma consciência nova.

 

REFLEXÕES SOBRE A AMAZÔNIA E O PANTANAL

Adriana Couto: Muitas pessoas estão querendo saber das suas reflexões sobre e também sobre o Pantanal. Tenho uma pergunta para o Mia Couto como biólogo: qual sua opinião sobre a morte de tantos animais nas queimadas da Amazônia?

Mia Couto: Eu tenho de dizer que como biólogo não apenas me preocupo com as espécies que perdem sua casa, mas eu acho que se espera hoje dos biólogos e dos cientistas uma atitude mais aberta mais abrangente.

O que está acontecendo na Amazônia não é apenas um crime ecológico, é um crime contra outras espécies. E esse crime só por si já seria um crime gigantesco, mas é um crime contra a humanidade inteira.

Pensando nas razões invocadas para deitar fogo e para permitir que a Amazônia seja objeto de um assalto, é um crime político, econômico, ecológico. É um crime total.


RACISMO

Adriana Couto: Você falou sobre o enfrentamento do racismo dos preconceitos e a gente vê até dentro desse contexto da pandemia. Muitas manifestações racistas pelo mundo motivadas, claro, pela violência sofrida pelo povo negro em muitos países. Você entende essas manifestações e essa pauta um pouco mais presente como uma evolução nessa discussão antirracista no mundo?

Mia Couto: Sem dúvida. É fundamental que essas vozes exprimam a intolerância absoluta com a perpetuação do racismo. Eu posso revelar aqui uma coisa que é uma vivência minha, não por mérito nenhum meu. Eu vivi o racismo, porque até eu ter 17 anos eu vivia numa colônia. E uma minoria branca dominava a maioria americana negra e eu juntei-me o movimento de libertação, pela revolução e pela independência realmente.

A razão que me levou a participar deste movimento foi pensar que não poderia ser feliz com um país que tinha esta prática racista tão clara, tão agressiva e tão cotidiana. E eu acho que sem eu nunca perceber, eu passei a pertencer a uma minoria em um país onde 99% dos moçambicanos são negros. Todos os meus dirigentes são negros. Meus amigos, meus colegas de trabalho a maioria são negros.

Eu sou uma pequena gota e não dou conta disso, eu não dou conta porque não tenho raça. Isso acontece porque quem lidera o país representa isso. Eu vejo que quando visito a Europa as pessoas me olham como se fosse que eu tivesse alguma coisa que eu pudesse dizer em solidariedade uma perda qualquer que tive. Não, eu só ganhei. Só tenho a celebrar a vida em que eu lutei e onde chegamos em Moçambique.

 

POESIA PARA ATRAVESSAR TEMPOS TÃO SOMBRIOS

Adriana Couto: A poesia ajudará os humanos a ultrapassar estes tempos sombrios?

Mia Couto: Eu acho que sim, porque nós chamamos de poesia algo que eventualmente foi a nossa primeira maneira de rezar. Foi a primeira forma de nos relacionarmos com o mundo, com o invisível.

A poesia tem por trás dela aquilo que é um pensamento, uma maneira de pensar e de sentir o mundo que foi muito desvalorizada por ser uma coisa que era intuitiva, que não estava no lugar do pensamento.

O pensamento é masculino, e por isso é valorizado dessa maneira. A intuição é feminina e pede uma outra linguagem, uma linguagem metafórica. Ao correr do tempo a poesia foi relegada a uma coisa que quem tinha o território autorizado eram os loucos e os poetas.

Na verdade, ela sempre existiu em todos nós e mesmo o mesmo o mais cruel dos ditadores deve sonhar, e em suas noites de agonia eu espero que seja castigado pela poesia.  

 

Adriana Couto: Mia, de onde vem a sua poesia? Ou melhor, de onde você entende que a poesia surge da sua prosa?

Mia Couto: Eu não sei bem o que fazer para me salvar dessa pergunta (risos). Não conheço a fronteira onde começa uma coisa e termina outra, quando começa a prosa e onde acaba a poesia. Eu não vejo essa fronteira e se vejo, não a respeito. Faço de conta que não vi, porque eu não saberia fazer nunca de outra forma.

Quando eu escrevo prosa, quando escrevo um romance, eu escrevo por via da poesia sempre. A poesia não é para mim um gênero literário, é uma maneira de estar no mundo, de olhar a vida.