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Michel Houellebecq responde: poesia, filosofia e o papel da literatura

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Michel Houellebecq no Fronteiras Porto Alegre (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)
Michel Houellebecq no Fronteiras Porto Alegre (foto: Fronteiras do Pensamento | Luiz Munhoz)

O pensamento francês não morreu, e sim se libertou – argumentou o escritor francês Michel Houellebecq em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta segunda (07).

Segundo o convidado, as grandes mentes francesas contemporâneas não pertencem aos intelectuais, mas sim aos escritores, que libertaram o pensamento francês das amarras ideológicas que o controlaram por várias décadas.

Houellebecq se referia a nomes pouco conhecidos pelos leitores brasileiros, como Philippe Muray e Maurice Dantec, que faleceu este ano: “eles nunca estavam preocupados com as consequências, com a imprensa. Eles aceitavam este problema. Eles escreviam apenas para os leitores, sem levar em conta os medos e as limitações de pertencer a determinado meio. Eles eram homens livres."

O conferencista concluiu com uma previsão otimista sobre o futuro, um novo caminho para o pensamento escrito a partir da liberdade da arte: “A verdade é que nós, os escritores, libertamos os intelectuais franceses. Nenhum de nós foi o que poderia ser chamado de grande pensador, somos muito artistas para isso, mas libertamos o pensamento. Agora, os intelectuais devem tentar produzir novas ideias. A França é um velho país, setenta ou cem anos de declínio ou avacalhação intelectual não são nada. Verdadeiramente, acredito na recuperação do pensamento da França."

Após sua fala, Michel Houellebecq respondeu as perguntas do público e a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais. Agradecemos a todos pelo envio de questões sobre os mais diversos temas. Desta vez, a pergunta selecionada veio de Augusto Darde. Confira abaixo:

Na sua obra Rester Vivant, de 1997, o senhor diz que os poetas são os responsáveis pela construção de uma nova moral, atribuindo a eles o mesmo objeto da busca dos filósofos, mas através de caminhos diferentes. Hoje, você tem se mostrado desanimado com a poesia. Esse desânimo é pelo desprezo da sociedade em relação à poesia, ou sua posição em relação à importância da poesia também mudou?

Michel Houellebecq: Para dizer a verdade, é espantoso... A poesia está prestes a desaparecer. Ninguém lê poesia. Ela tem um impacto social nulo atualmente.

Houellebecq respondeu perguntas vindas da plateia. Leia abaixo algumas de suas principais ideias:

Nobel a Bob Dylan

Para ser honesto, preferia Lou Reed. É um pouco normal que o Nobel homenageie o rock, porque é a forma artística mais brilhante do século XX. Não é ruim, foi bom dar o prêmio a um letrista.

O fim do ódio

Na Europa, a hostilidade aumenta pouco a pouco, mas Submissão começa por uma situação tensa, com atentados diversos, e a coisa se acalma com o presidente muçulmano. Mas, essa parte da minha previsão ainda não se realizou por muitas razões. Primeiro, porque muçulmanos são incapazes de se entender entre eles mesmos. O que aconteceu no livro é o que ocorre na Turquia. Hoje, o Islã lá é mais rigoroso do que no meu livro, mas nem tão rigoroso, porque a Turquia é um país muito laico.

O fim do terror

Não sabemos bem por que o terror acabou em 1793. Não sabemos por que uma era trágica termina. Há momentos, na história humana, que nenhuma teoria pode dar conta. Acredito que o desejo de carnificina termina, mesmo que sem explicação. Encontramos pouquíssimos romancistas que acreditam que tudo se explica pelo comportamento humano. Se eles tivessem certeza disso, eles não escreveriam romances, então, há uma parte de mistério.