Voltar para Notícias

Novos meios de comunicação e reinvenção da vida

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Impossível refletir sobre a conferência do sociólogo espanhol Manuel Castells – realizada no Teatro Geo, no último dia 11, pelo projeto Fronteiras do Pensamento – sem levar em conta os acontecimentos ocorridos na cidade de São Paulo nas últimas semanas. Como em outras partes do mundo, aqui também assistimos a um movimento que em parte foi articulado através dos novos meios de comunicação, sobretudo pelas redes sociais. O que parecia ser uma manifestação contra o aumento de 20 centavos em tarifas de transporte público logo abriu fendas para que um vento, uma corrente de ar, atravessasse o bolor de velhas instituições, categorias e conceitos. Dentre eles, o conceito de representação parece ser o que tem sido mais questionado: indignados de várias classes sociais, defensores das mais variadas causas, tomam as ruas, o espaço público, a fim de dizer, por si próprios, o seu não.

As redes sociais, por sua vez, colocaram as grandes mídias em estado de alerta mediante um novo meio de circulação da informação, apresentando, sob as perspectivas mais diversas, imagens e relatos que põem em suspensão o modo como até então a informação, sobretudo as imagens, eram veiculadas. Jovens, até ontem considerados meros fantoches da mídia e da indústria cultural, não só retornam às ruas como também articulam modos inéditos de pensar e agir, exigindo o direito à voz, e, como se observa em outras partes do globo, anunciam que “um outro mundo é possível". Que mundo é esse, poucos sabem. Por que ele ainda não existe? As manifestações de São Paulo, Turquia, Grécia e Espanha instauram na atualidade todo o frescor do acontecimento: a irrupção do imprevisível, daquilo que até então estava fora da ordem, fora do tempo, fora do eixo. Acontecimentos que nos colocam diante daquilo que, nas palavras de Castells, “ninguém esperava".

Sim, como diz a “Abertura" do novo livro de Castells – intitulado Redes de indignação e esperança –, aqui também “eram poucos, aos quais se juntaram centenas, depois formaram-se redes de milhares." Encontro de uma multidão. Sim, uma multidão confusa “ultrapassando ideologias", colocando em crise as velhas categorias e as velhas perguntas que talvez não funcionem frente ao acontecimento: “Quem são e o que querem?" Multidão, legião, anônimos, singularidades quaisquer. Insubmissas ao suposto poder da publicidade, insubmissos ao medo de supostos representantes: “políticos expostos como corruptos e mentirosos" – cínicos no sentido pejorativo da palavra. Políticos, perdidos frente ao acontecimento, procuram refugiar-se em estratégias de disciplina que já não podem domesticar uma multidão heterogênea e que, por conta disso, acabam por favorecer a adesão de outros tantos indignados: a ação tão criticada da PM abriu novas fendas para o debate. Outros indignados aparecem, agora, contra a truculência policial que reavivou em muitos os idos de 1968 – e é interessante notar a investida dos soldados contra os manifestantes na rua Maria Antônia, local simbólico daquela que foi conhecida como a batalha da Maria Antônia durante a ditadura militar.

As redes sociais da internet, bem como as redes móveis de comunicação, foram decisivas na articulação do movimento, driblando a manipulação dos cartéis midiáticos, possibilitando não só a veiculação de novas estratégias, bem como operando uma mudança na subjetividade e, por conseguinte, uma mudança no modo de pensar: após a veiculação, na internet, de inúmera imagens registradas em aparelhos celulares, assistimos a outra maneira de narrar o acontecimento, pontos de vistas diversos, cenas desdobradas sob vários ângulos. Nas redes sociais se encontram narrativas, relatos, olhares de jovens, mulheres, negros, gays, lésbicas, estudantes, trabalhadores, professores “compartilhando suas dores e esperanças no livre espaço público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se." escreveu Castells em Redes de indignação e esperança.

Algo acontece, alguma coisa que ainda não sabemos o que é e que opera na fabricação de novas formas de vidas propiciadas por uma mudança nas mentalidades. Nos protestos de São Paulo, grupos de punks e skinheads, inimigos históricos, toleravam a presença de um e outro em meio à multidão. Toda previsibilidade, se isso faz sentido mediante o acontecimento, só poderia prever o imprevisível que está por vir. Pânico generalizado dos cartéis midiáticos e poderes estabelecidos: as redes de comunicação favorecem a diluição do poder – possibilitando o processamento das mensagens “de muitos para muitos". Para Castells, este aspecto aponta ainda para a comunicação de massas. Por outro lado, segundo o sociólogo, observamos ao mesmo tempo a emergência daquilo que o sociólogo chama de “autocomunicação", cujas características principais se referem à produção autônoma da mensagem e à autosseleção. Essas características da comunicação em rede favorecem, como se pôde observar em São Paulo, uma reconfiguração constante da rede, possibilitando novas formas de pensamento e invenção. “Lágrimas, sonhos e esperanças" são a matéria-prima desses novos programas de vida a partir dos quais os indignados de todo o mundo inventam formas de resistência e mudança social. Um dos pontos centrais das hipóteses aventadas por Castells é a de um espaço público recriado na internet, espaço este que não se esgota na virtualidade, mas que se desdobra no mundo real, tomando praças, ruas, monumentos e os mais variados espaços públicos. Acontecimento estranho, inesperado: quem hoje ocupa as ruas são os jovens, filhos da revolução tecnológica a que assistimos nos últimos 30 anos. Estes, que constantemente são acusados de alienação, de trocarem o mundo real pelo virtual. Eles, que articulam redes de informação e inteligência coletiva na realidade virtual, agora fazem a cidade tremer ocupando o espaço público, tornando-se visíveis “nos lugares da vida social".

(O autor do texto, Fabiano Ramos Torres, mestre e doutorando em Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da USP e professor na rede pública do Estado de São Paulo. Leia a notícia no site original, CMais - 19/06/2013)