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Oncologistas de ponta estudarão efeitos da dieta nos tratamentos contra o câncer

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Um dos maiores oncologistas do mundo está prestes a desenvolver um experimento clínico revolucionário para estudar se nossa dieta pode melhorar a eficácia de medicamentos contra o câncer. A pesquisa, realizada em Nova York e liderada por Siddhartha Mukherjee, investigará se uma dieta rica em gorduras, moderada em proteínas e pobre em carboidratos poderia aumentar a eficiência dos tratamentos para pacientes com linfoma ou câncer endometrial.

Os testes, que contarão inicialmente com 40 pacientes, serão os primeiros de uma série de ações semelhantes que vêm sendo planejadas em outros centros dos EUA e da Europa por membros de um novo grupo de trabalho internacional dedicado a “repensar as dietas humanas e seu efeito no tratamento do câncer”, diz Mukherjee, mais conhecido como autor do livro O Imperador de Todos os Males, vencedor do prêmio Pulitzer.

Siddhartha Mukherjee é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento 2018 em São Paulo e Porto Alegre.

“Em termos fisiológicos, estamos descobrindo que nem todas as calorias são iguais”, ele afirma. “Podemos ter duas dietas distintas iguais em termos energéticos, mas com efeitos muito diferentes sobre o câncer”.

O primeiro grupo, formado por pacientes que sofrem de linfoma e que não apresentaram resposta ao tratamento, começará o tratamento em outubro. Eles serão acompanhados por pacientes com câncer endometrial. O grupo de médicos espera pela autorização para tratar também mulheres com câncer de mama resistentes aos medicamentos.

Os pacientes serão tratados com uma droga licenciada, Aliqopa, que até agora revelou ter efeitos limitados em pacientes desse tipo. No entanto, estudos recentes em animais, incluindo um artigo produzido pelo laboratório de Mukherjee e publicado na revista Nature, sugerem que sua eficácia poderia ser significantemente incrementada caso a droga fosse combinada com alterações na dieta que reduzissem os níveis de insulina.

Para tanto, os pacientes serão submetidos à chamada dieta cetogênica (rica em gorduras, pobre em carboidratos e com índices normais de proteína). “Quando combinadas com uma dieta que [mantenha a insulina baixa], essas drogas se tornam repentinamente eficazes”, diz Mukherjee, referindo-se ao estudo da Nature. “A dieta realmente funciona como um medicamento”.

O grupo levantou essa hipótese após trabalhar com testes de medicamentos que, como o Aliqopa da Bayer, foram desenvolvidos para atacar uma das mutações cancerígenas mais comuns, chamada PI3K e presente em até 40% dos casos de câncer de mama.

Apesar dos grandes investimentos da indústria farmacêutica na década passada, nenhum dos medicamentos voltados para o PI3K apresentou grande impacto nos índices de sobrevivência. “Fez-se muito barulho em torno desses medicamentos, e os investimentos foram na casa dos bilhões de dólares”, relata Mukherjee.

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Mukherjee e seus colegas perceberam que uma grande parcela dos pacientes de um dos primeiros testes havia se tornado diabética. Após descartarem que esse fenômeno fosse efeito colateral da droga, eles começaram a pesquisar sua origem. Assim, descobriram que a droga estava interferindo em um dos principais circuitos metabólicos do corpo. Isso causava um pico de produção de insulina, reativando a mutação genética que ajuda as células cancerígenas a se proliferarem e espalharem.

“Talvez, esse seja o principal motivo para a baixa eficiência”, diz Mukherjee.

O experimento será um dos primeiros a investigar se a dieta pode ser usada para incrementar a eficácia de medicamentos, mas se espera que outros sejam realizados nos próximos anos.

“Durante muitos, muitos anos, houve muitas recomendações sobre a dieta certa para os pacientes de câncer, ou sobre o que eles deveriam ou não comer para auxiliar no tratamento”, afirma a professora Karen Vousden, cientista-chefe da Cancer Research UK, que atua no Francis Crick Institute de Londres e integra esse grupo de trabalho internacional. “Há muitas crenças e receitas mágicas, mas nada baseado em qualquer evidência concreta”.

Em alguns casos, acrescenta Vousden, o que poderia ser visto intuitivamente como adequado – dar aos pacientes submetidos à quimioterapia uma bebida com bastante açúcar, por exemplo – pode não ser a melhor maneira para aumentar a ingestão de calorias. “Queremos promover a ideia de que as recomendações de dieta devem se basear em indícios confiáveis”, diz.

O trabalho de Vousden revelou que as células cancerígenas são desproporcionalmente dependentes da ingestão de um aminoácido chamado serina. As células saudáveis são capazes de produzir sua própria serina, enquanto as células cancerígenas não apresentam a mesma aptidão. Estudos em animais constataram que o corte na ingestão dessa substância pode tornar o câncer mais vulnerável aos medicamentos.

A serina está presente na maior parte das proteínas que ingerimos. Portanto, se as evidências clínicas puderem embasar esse tipo de intervenção, é possível que os pacientes passem a ser submetidos a uma dieta extremamente baixa em proteínas e suplementada com um shake de proteínas livre de serina.

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Vousden e Mukherjee dizem que, à luz das descobertas mais recentes, não recomendariam nenhuma dieta aos seus pacientes. Não há qualquer evidência de que a dieta cetogênica, por exemplo, tenha algum efeito por si só. Na verdade, no caso da leucemia, ela parece acelerar o avanço da doença.

“Não estamos sugerindo que as pessoas comecem a se automedicar com essas dietas”, aponta Vousden. “Estamos estudando elas mais ou menos da mesma forma que estudaríamos qualquer outro medicamento.”

O professor Greg Hannon, diretor do Cancer Research UK Cambridge Institute, descobriu recentemente que um composto encontrado nos aspargos, a asparagina, parece estimular a propagação do câncer. O estudo, realizado em ratos de laboratório, revelou que animais com câncer de mama apresentaram índices muito reduzidos de tumores secundários nos casos em que a asparagina foi bloqueada através da utilização de um medicamento ou de sua exclusão da dieta.

“O santo graal seria encontrarmos algo de que apenas as células cancerígenas dependem”, diz Hannon. “Privando-as desse recurso, elas se tornariam mais vulneráveis àquilo que já empregamos no tratamento dos pacientes”.

Não há nenhum indício de que algum tipo de câncer seja causado por alguma dieta. “Estamos tentando atacar peculiaridades da células cancerígenas, mas a existência dessas peculiaridades não pode ser explicada por uma dieta não balanceada”, afirma Hannon.

(Via The Guardian)

mukherjee câncer

Siddhartha Mukherjee é médico e escritor, reconhecido por seus livros de divulgação científica da área da medicina. É autor do best-seller “O imperador de todos os males: uma biografia do câncer”, obra vencedora do Prêmio Pulitzer em 2011. O livro entrou na lista do All-Time 100 Livros de Não Ficção da revista Time e resultou numa série de televisão produzida pela PBS e indicada ao Prêmio Emmy em 2015. Siddhartha Mukherjee vem ao Fronteiras do Pensamento 2018 abordar um dos maiores desafios contemporâneos: a segunda maior causa de mortes no mundo, o câncer. Acesse o libreto da conferência e saiba mais sobre o trabalho do médico