Voltar para Notícias

Pascal Bruckner e o mercado do próximo século

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

"No breve intervalo da nossa existência, a felicidade só existe como memória ou como
esperança." - Pascal Bruckner, Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

Fazendo um passeio pela história da humanidade em suas eternas questões sobre o sentido da vida, o filósofo francês Pascal Bruckner falou sobre a felicidade na penúltima conferência do Fronteiras do Pensamento.

Bruckner iniciou sua fala com uma anedota datada do Renascimento – a fogueira das vaidades, do frade Savonarola, que em um surto de moralidade passou a conclamar os cidadãos de Florença a levarem, para queima em praça pública, os objetos associados com o pecado e o prazer: artigos de luxo, enfeites, maquiagens e até mesmo livros e obras de arte.

Partindo da história do inquisidor – que acabou também sendo queimado em praça pública –, Pascal iniciou seu raciocínio afirmando que a felicidade vem do cristianismo. Citando Santo Agostinho, o ato de ser feliz pertenceria "ao passado e ao futuro, mas nunca ao presente. Não pode haver felicidade sobre esta Terra porque nós estamos nela devido ao pecado original, e nosso dever de fiéis é espiá-lo e trabalharmos pela redenção", sentenciou.

Além disso, para o autor de A euforia perpétua, toda nossa vida pende para a mesma instância: a morte, "uma porta que se abre ou para a danação, ou para o paraíso", afirmou Bruckner. A explicação para o exemplo veio a partir do teólogo Jacques Bossuet, para quem a única precaução contra os remorsos da morte seria a inocência da vida. "Por isso ele acreditava que o ser humano, que toma como objetivo o prazer e o gozo, não segue o objetivo da existência, que seria se preparar para deixar a vida", comentou Bruckner. E, lembrando novamente Santo Agostinho, o ensaísta mencionou que a antiga visão que se tinha do homem é que ele seria uma criatura miserável que não conseguiria sair de sua condição – só Deus seria capaz disso, na visão dos católicos.

"Mas este dispositivo cristão nos parece abominável hoje", comentou o colaborador da Le Nouvel Observateur, para depois questionar e responder. "Como saímos desta história? Durante o fim da Idade Média uma nova potência de vida tomou conta da população, causada por fenômenos como a melhoria das técnicas industriais e médicas, e também as do cenário agrícola". Por isso, a partir de Francis Bacon, se passou a entender que "o objetivo do ser humano nesta Terra não é sofrer, mas melhorar o seu estado, e o progresso e a ciência estão aí para corrigir a queda do pecado original e para reparar a natureza impura do homem", comentou o integrante dos Novos Filósofos do pós-maio de 68. Para Bruckner, é em função deste movimento que o escritor Albert Camus, inspirado em outro filósofo, Voltaire, declarou: "Meu reino é deste mundo"; ou seja, a felicidade não ocorreu ontem, não ocorrerá amanhã, ela é hoje e agora. Assim, "a esperança de viver melhor não é uma sensação aberrante, passa a ser um sonho realizável", comentou o autor de Lua de fel.

Rousseau, Diderot, Adam Smith e outros pensadores auxiliaram na perpetuação e no refinamento desta leitura, afirmando que é preciso desfrutar ao máximo os anos concedidos pela providência – ou seja, a felicidade como ideal se tornou uma febre nas partes mais esclarecidas do globo, como nos Estados Unidos, que a colocou como um dos direitos fundamentais da nova nação norte-americana. "Mas com isso ocorre uma deslegitimação da infelicidade, ocorre uma inversão: o gozo é a regra, e a infelicidade é indesejada", analisa o autor de O paradoxo amoroso e Fracassou o casamento por amor?

Por isso, para Bruckner, o que vemos hoje são as consequências da frase inspirada em Voltaire. Vivemos em uma sociedade hedonista na qual não sabemos o papel do luto, da doença, da perda e dos problemas. O direito à felicidade seria uma plataforma política dos partidos de esquerda desde os anos 30. Mas, logo depois da II Guerra Mundial o paradoxo mudou: da produção para o consumo, com um capitalismo que se reinventou no mecanismo do crédito, tais processos transformaram nossa relação com o tempo. Ao contrário de nós, nossos avós fizeram o exercício da poupança, que hoje não precisamos realizar – e, de certa forma, nossa falta de frustrações se torna cada vez mais perigosa. "O crédito é um empréstimo feito ao futuro, com seu corolário, a publicidade, que tem como principal função organizar a insatisfação em cada um de nós, além do desejo sobre o que não temos", ensinou Bruckner.

Com o capitalismo estando a serviço de nossa felicidade, instaura-se uma sociedade individualista – aquela com direitos inalienáveis e privados, que entende que a coletividade não tem condição de ditar nada para a sociedade privada. Neste estado, no qual nem classes ou governos podem ditar minha conduta entre eu e minha felicidade, "se eu não sou feliz, é porque sou o único responsável por isso", ensaia Bruckner. Daí vem a culpa e, consequentemente, as terapias, as medicinas, a ioga, a psicanálise, o pensamento positivo, a cirurgia plástica, as religiões – todos movimentos que nos auxiliam a encontrar a nossa felicidade.

Ao final de sua conferência, Pascal Bruckner afirmou que a felicidade é o mercado deste e do próximo século, apontando que os milagres da medicina nos permitem melhorar a nossa vida e saúde em termos impensáveis para nossos ancestrais. "Mas, o que é a saúde?", questionou Bruckner. "Essa é a inquietude que nos abala hoje. Parece também um ideal impossível, estamos sempre em estado de alerta", citando como exemplo os programas médicos preventivos nas mídias de massa que nos dizem que temos que nos preocupar com nosso cérebro, com os batimentos cardíacos, com o estômago etc.: todos "alarmes que nos tornam cidadãos hipocondríacos", analisou o escritor.

O dever de felicidade, então, é fundado sobre uma ilusão: "nós anexamos a felicidade, pensando que ela pode ser objeto de uma filosofia, de uma terapia, ou que nós podemos encomendá-la como a um prato que pedimos em um restaurante. Esta é uma visão não só consumista da felicidade, mas também construtivista e ingênua. Como uma casa que nós devemos edificar ao longo da nossa existência", criticou Bruckner, utilizando a frase do roteirista Jacques Prévert para tornar mais claro seu pensamento: "Eu reconheci a felicidade pelo barulho que ela fez ao sair".

Ainda que reconhecido por seus ensaios polêmicos e ácidos, o crítico da sociedade francesa, do entendimento ocidental acerca do amor, do multiculturalismo e do marxismo, terminou sua fala no Fronteiras com uma leve e poética significação acerca da felicidade: "É uma coisa que nos acontece. Não é algo que a gente provoca pela força do desejo, pois, se fosse assim, todos seríamos felizes permanentemente. A felicidade tem mais a ver com uma noção religiosa que precisa ser adaptada ao tempos atuais: a graça. É um espírito feliz que nos inunda por algum tempo e que, quando vai embora, nos deixa em um estado de nostalgia e esperança por sua volta", finalizou Pascal Bruckner, arrematando seu discurso com um breve poema de um escritor alemão do século XV, que ainda permanece anônimo: "Nasci não sei quando; estou aqui, não sei porque; eu vou, não sei para onde; e no entanto, inexplicavelmente, eu sou feliz".