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Pascal Bruckner responde a Pergunta Braskem

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Conhecido por suas críticas ao multiculturalismo, o filósofo francês Pascal Bruckner, autor de Lua de fel e A euforia perpétua, esteve na noite desta segunda-feira (20), no palco do Fronteiras do Pensamento São Paulo, no Teatro Cetip.

Bruckner, que proferiu a conferência intitulada O paradoxo do amor, respondeu a Pergunta Braskem, selecionada a partir das questões enviadas para o e-mail digital@fronteiras.com de todas as partes do Brasil. Confira sua resposta:

Pergunta enviada por Cledi de Fátima Manica Moscon:
O senhor diz que mais importante do que a felicidade é a liberdade. Entendo felicidade como sensação de bem estar, mesmo sem euforia, então, pergunto, porque o ser humano quer a liberdade? Não haverá na intenção de sentir a liberdade, o objetivo de sentir-se bem, portanto ser feliz?

Resposta Pascal Bruckner:
Passamos do amor à felicidade, são coisas próximas. Os homens querem a liberdade? Não tenho certeza.

A liberdade é um fardo a se carregar, pois ela traz a responsabilidade dos nossos atos e, no fundo, gostaríamos de gozar da liberdade sem sofrer as implicações que ela traz. Dostoiévski explicou isto muito bem: o grande inquisidor encontra Jesus Cristo que volta à terra, o condena à morte e explica que os homens não querem a liberdade, mas, sim, a felicidade, o conforto e a tranquilidade. Jesus voltando à Terra, traria a desordem, o caos, a anarquia e, como consequência, ele teria que morrer uma segunda vez.

Mas o que digo sobre a liberdade e a felicidade é que somos livres inclusive na doença e na infelicidade, enquanto a felicidade é um estado frágil, furtivo e passageiro. Efetivamente, a liberdade me parece um valor muito mais importante. Nos momentos difíceis de uma vida ou de uma sociedade nós somos obrigados a escolher a liberdade em vez da felicidade, ou o oposto. Na França, entre 1940 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, uma pequena massa de homens escolheu a liberdade contra o conforto, o amor e a vida tranquila. Esta é uma escolha que deve continuar a nos orientar, a menos que a nossa guerra já tenha acabado, e felizmente ela não existe mais na Europa, pelo menos não na Europa Ocidental.

Se fizermos uma hierarquia de valores, a liberdade deve primar sobre a felicidade. Mesmo a alegria é mais importante que a felicidade, porque a felicidade é um sentimento um tanto abstrato, não tem definição precisa. Na época de Santo Agostinho, existiam 240 definições de felicidade que eram herdadas da antiguidade. Eu privilegio a alegria em relação à felicidade no sentido de gratidão à existência que nos foi dada.