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Paul Bloom e as origens do senso humano de moral

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"Sempre precisaremos de forças externas a nós, como leis e regras, se não nunca seremos melhores do que chimpanzés". - Paul Bloom, Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

O que uma senhora que joga um gato na lixeira e uma empresária branca que escreve posts racistas no Facebook têm em comum? E o que há de universal na reação de pessoas que se manifestam violentamente nas redes sociais contra casos semelhantes? Para o psicólogo canadense Paul Bloom, é necessário investigar estes acontecimentos que respondem a uma força social milenar: a moralidade.

Bloom iniciou sua conferência no Salão de Atos da UFRGS contando que não costuma falar muito sobre si mesmo, devido a um problema genético do qual seu pai e seu filho também sofrem. Um problema que tem a ver com a moralidade, e que aumenta em oito vezes a probabilidade de cometer assassinatos e torna 44 vezes maior a inclinação para o estupro. "É um problema de cromossomo y, pois eu nasci homem", finalizou Bloom, fazendo graça de uma condição que guarda em si um fato, mas traz uma carga de generalidade e preconceito.

O que nos faz bons ou maus é como se resume o problema que perpassa toda a obra do pesquisador, interessado em compreender um dos pilares de nossa vida em sociedade, que passa pela construção da empatia. "A moralidade muda e pode variar por questões biológicas e ambientais, mas meu interesse está nos aspectos universais", afirmou Bloom. Diariamente nos solidarizamos com histórias de sofrimento, e nos sentimos inconformados com injustiças e guerras, mas parece comum a nossa ciência o conceito de que nascemos como tábulas rasas, propensos ao bem ou ao mal em decorrência do que aprendemos e percebemos, especialmente do ambiente no qual estabelecemos convivência com outras pessoas.

No entanto, para Paul Bloom, que realiza suas pesquisas no laboratório do Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale, já nascemos com algum senso de moral, de equidade e de justiça. Encarando o desafio de estudar a mente dos bebês, Bloom e sua equipe se mantêm atentos às reações e ao repertório de comportamentos que as crianças entre seis e dez meses apresentam - sobretudo as expressões de desconforto, prazer e alegria - ao serem expostos a animações e fantoches "bons", "maus" ou "neutros".

Mostrando diversos destes experimentos ao longo de sua conferência, Bloom mostrou que a reação dos bebês é quase sempre a mesma: entre os bonecos "do mal" e "do bem", ocorre sempre a preferência pelo segundo. E entre o malvado e o neutro, o segundo também é o preferido dos bebês - sendo que algumas vezes eles "fazem justiça com as próprias mãos", como comentou Bloom, socando o fantoche que fez algo considerado ruim, como não repartir a bolinha com seu colega.

Usando como variáveis de observação o estender dos braços e o tempo do olhar, Bloom conclui que os bebês demonstram percepções interessadas que revelam suas preferências, ou mesmo um desejo de vantagem relativa. A partir deste insight, seguido de uma análise científica rigorosa, Bloom estende a abrangência de sua teoria ao estudo de crianças em situações mais complexas que também revelam empatia, compaixão e imparcialidade.

"Mas isso significaria dizer que nascemos morais ou que simplesmente a moralidade é inata?", se pergunta Bloom, argumentando que a resposta não pode ser tão simples, especialmente acerca de um conceito do qual nem ao estudar a idade adulta conseguimos obter resultados precisos. Também não podemos ignorar as vivências individuais e coletivas, pois estas fazem ampliar nosso círculo moral e contribuem para a evolução da moralidade que, no adulto, é modulada de igual forma pelas emoções e pela razão.

Tendo como ponto de partida e de chegada os argumentos do pensador econômico Adam Smith, Bloom afirmou que o teórico escocês foi também um psicólogo. Em nenhum momento de seu pensamento liberal, Smith afirmou que as pessoas pensavam somente em si mesmas: "por mais egoísta que suponhamos a natureza do homem, geralmente sentimos tristeza na tristeza dos outros", citou Bloom a partir de Smith. "Ou seja, ele já falava de empatia, que é como chamamos hoje". Lembrando de uma estória que contava Adam Smith, Bloom questionou a plateia: "O que motiva mais a nossa preocupação, saber que milhares de pessoas vão morrer em um território distante, ou que perderei um de meus dedos amanhã?". Por mais egoísta que possa parecer a conclusão desta história, pois quase sempre nos preocupamos com aquilo que está mais próximo de nós, é também lógica esta reação humana, que revela muito de nossa natureza: "temos um senso de moralidade, mas ele é limitado, não extensivo a pessoas estranhas, e nascemos com parte dele. A outra parte vem da imaginação e de nossa incrível capacidade para a razão", comentou Paul Bloom.

Com tal perspectiva, radicalmente nova quando o assunto são as bases do comportamento humano, Bloom espera contribuir para um pensamento que vá muito além da crença nos neurônios espelho – aqueles que nos fazem replicar expressões e ações – e também do simples ato de contar histórias para cultivar o altruísmo e a solidariedade – como costumamos fazer com nossos filhos. "Tenho minhas dúvidas sobre a eficácia das histórias neste sentido. As histórias podem transformar anônimos em pessoas que interessam, e estaria aí sua relevância", finalizou Bloom.