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Pergunta Braskem: conheça Mia Couto, conferencista do Fronteiras São Paulo desta quarta-feira

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Mia Couto é o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo desta quarta-feira, 03 de setembro. No palco do Teatro do Complexo Ohtake Cultural, o escritor moçambicano propõe uma nova forma de ver e de viver o mundo, que incorpore a poesia e que torne permeáveis as paredes que separam nossas identidades. Conheça o autor e envie sua Pergunta Braskem para Mia Couto por meio do e-mail digital@fronteiras.com. Uma pergunta será selecionada e feita ao conferencista no evento. A resposta será divulgada na quinta-feira, nos canais digitais do Fronteiras do Pensamento, um oferecimento da Braskem.

Nascido na cidade de Beira (Moçambique) e filho de uma família de emigrantes portugueses, Mia Couto é considerado um dos principais autores do continente africano. Sua carreira começou aos 14 anos, quando publicou seus primeiros poemas em um jornal local. Em 1975, ingressou na atividade jornalística e, a partir da independência do país, tornou-se diretor da Agência de Informação de Moçambique e também comandou a revista semanal Tempo e o jornal Notícias de Maputo. Em 1985, formou-se em Biologia pela Universidade Eduardo Mondlane, em seu país natal. Desde então, concilia as atividades de biólogo, professor e escritor.

Sua estreia na literatura ocorreu em 1983, com o livro de poesia Raiz de orvalho. Sua obra é extensa e diversificada, incluindo poemas, contos, romances e crônicas, e seus livros já foram traduzidos em diversos idiomas. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos no século XX. Sua publicação mais recente é A confissão da leoa, lançado em 2012.

Em 2013, Couto foi agraciado com o Prêmio Camões pelo conjunto da obra. A premiação foi instituída em 1988 pelos governos do Brasil e Portugal e é considerada uma das mais importantes no âmbito da língua portuguesa. No mesmo ano, também recebeu o Prêmio Literário Internacional Neustadt, concedido pela Universidade de Oklahoma nos Estados Unidos e pela World Literature Today.

Na área da Biologia, Mia Couto dirige uma empresa que faz estudos de impacto ambiental em seu país, concentrando-se na gestão de zonas costeiras, além de desenvolver trabalhos de pesquisa sobre mitos, lendas e crenças que intervém na gestão tradicional dos recursos humanos.

Leia, abaixo, excerto do artigo exclusivo de Mia Couto, que integra a obra Pensar a cultura, compilação de entrevistas, conferências e outros textos organizados pelo jornalista Cassiano Elek Machado. Acesse o site da Arquipélago Editorial e conheça a série Pensar

MIA COUTO | Nós, brasileiros e moçambicanos, não fomos feitos para caber numa receita puritana encomendada para domesticar e padronizar o mundo. O discurso do politicamente correto é um crime contra as nossas nações, contra a originalidade e a diversidade dos nossos povos.

Se, em Moçambique, eu vivo uma realidade tão próxima da brasileira, a pergunta certa não seria porque gosto tanto de visitar o Brasil. A verdadeira pergunta seria outra: por que, vindo ao Brasil, me converto em Brasil? E a resposta é: porque aqui sou autor de travessias interiores, aqui sou viajante de histórias que, mais do que pessoas, mestiçaram deuses e crenças divinas. Os brasileiros têm essa tão feliz dificuldade de não pertencerem a uma identidade só.

Cada brasileiro é mais do que ele próprio, mais do que a sua raça, o seu gênero, a sua origem. Cada brasileiro é o Brasil inteiro. E assim é impossível definir o que é um brasileiro típico, um brasileiro representativo, um brasileiro puro.

Uma das nossas primeiras fronteiras interiores é aquela que nos separa dos animais. Fazemos essa demarcação ontológica através de fábulas que, ao longo dos séculos, povoaram a fantasia infantil. Os animais ocuparam as paredes das cavernas, ocuparam os contos, os vídeos, as canções e o cinema. E fizeram tudo isso para nos dar lições de humanidade. Os animais fizeram-nos mais humanos.

Quando nos tornamos adultos, torna-se ridículo acreditar nesse outro tempo em que os animais falavam. Convertemo-nos nos reis da existência, exclusivos habitantes da fala e da razão. E decretamos que a Natureza existe apenas fora de nós. É assim que nos inventamos: puramente humanos, centro do universo e topo de gama da evolução.

Mas eu vivo num país em que se desenharam outras fronteiras, menos definitivas, entre bichos e gente. E são permitidos trânsitos entre a animalidade e da humanidade. E eu vivi recentemente um caso curioso quando trabalhava como biólogo numa pequena aldeia bem no Norte de Moçambique. Em apenas quatro meses 26 pessoas foram mortas e devoradas por um grupo de leões. Durante as primeiras duas semanas eu permaneci no local para tentar criar respostas contra essa que era para mim uma inimaginável ameaça.

Os leões rondando a tenda traziam mais do que o medo. Mostravam que havia um território que não era governado pelo Homem. De repente, se abria em mim um tempo em que os homens é que não sabiam falar. Assim, eu aprendia a lição da minha própria fragilidade.

Mais tarde, quando me juntei à aldeia para enfrentar aquela ameaça, entendi que, para aqueles camponeses, a linha divisória entre o humano e não humano era uma outra: fluida, osmótica e plástica. Um homem pode ser leão e um leão pode ser homem. As identidades podem-se trocar, como a onça e o tio no célebre conto de Guimarães Rosa.

Este episódio arrisca consolidar uma percepção exótica dos africanos. Parece confirmar a ideia de que os outros continentes têm sabedorias e a África apenas tem crenças. Mas nós, que nos fundamos no conhecimento científico, não imaginamos o quanto a ciência ainda desconhece sobre quem somos. A biologia descobriu recentemente o seguinte: nós, humanos, somos feitos principalmente de material não humano. Nove em cada dez das nossas células não são humanas: são bactérias e microrganismos que vivem dentro de nós.

O nosso lado humano é absolutamente minoritário. Se no universo das nossas células houvesse eleição seríamos certamente dirigidos por uma bactéria.

O que se deve concluir daqui é que, mesmo neste outro universo mais moderno, a fronteira entre animal e humano tem que ser redesenhada. Porque essa fronteira passa bem por dentro de nós. É por isso que precisamos de novas fábulas para nos reconciliarmos com quem vive conosco dentro em nós.

De qualquer modo, a filosofia integradora dos africanos não decorre de uma qualquer ingenuidade. Ela existe porque aceita a existência de deuses plurais e a existência de animais que têm alma e que partilham conosco o sagrado e o profano.

O pensamento nasceu para nos tornar livres, para nos dar asa e voarmos para além dos nossos limites. Foi o pensamento que nos deu barco e destino na épica viagem em que nos fizemos humanos e sobre-humanos. Tudo o que aqui falei não pretende reduzir o brilho dessa jornada épica com que fintamos o nosso próprio destino.

Falo apenas do modo como, entretanto, nos deixamos cercar por uma razão que se considera já feita, definitiva, cristalizada em certezas. Aquilo que nasceu para ser fecundo tornou-se estéril, o que nasceu para ser semente tornou-se pedra.

Acontece ao pensamento o mesmo que acontece à linguagem. Na infância, estávamos disponíveis para aprender idiomas diversos. Depois, qualquer coisa se fecha, se sedimenta e nós ficamos prisioneiros do que já sabemos. É verdade que usufruímos de um tempo com acesso instantâneo à informação. Mas não podemos confundir ideias novas com informação recente. Muitas vezes são as ideias que temos que nos impedem de termos ideias novas. São esposas ciumentas que fecham as cortinas e trancam a porta. E rondamos dentro nós, num saturado monólogo interior. Cansadas, as ideias nada fazem senão dormir na cama da memória. E nós tornamo-nos naquilo que já fomos.

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