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Pergunta Braskem: psicólogo canadense Paul Bloom é o próximo convidado do Fronteiras Porto Alegre

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A partir da próxima semana, na conferência de Paul Bloom no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre (segunda-feira, 25/08), os seguidores do Fronteiras nas mídias sociais poderão participar do evento.

A iniciativa Pergunta Braskem abre um espaço preparatório para conhecer as pesquisas e ideias de cada convidado e disponibiliza um e-mail exclusivo para o envio de perguntas. Uma pergunta será selecionada por nossos curadores e feita ao conferencista no palco do Fronteiras, sendo divulgada, aqui no Fronteiras.com, um dia após o encontro.

Conheça o próximo convidado do Fronteiras do Pensamento, o psicólogo canadense Paul Bloom, e envie sua Pergunta Braskem para o e-mail digital@fronteiras.com, até segunda-feira, às 11h. A Braskem patrocina os conteúdos exclusivos dos canais digitais do Fronteiras do Pensamento. Acompanhe as novidades: Facebook | YouTube | Twitter | Flickr | Google Plus

O psicólogo canadense Paul Bloom é reconhecido por suas pesquisas científicas a respeito de como as crianças e os adultos entendem o mundo à sua volta e suas ligações com questões como linguagem e moralidade. Formado na Universidade McGill (Canadá), é premiado professor de Psicologia e Ciências Cognitivas na Universidade Yale, nos Estados Unidos, desde 1999. Em 2003, tornou-se coeditor da revista científica norte-americana Behavioral and Brain Sciences. Em 2006, em reconhecimento por suas "extraordinárias contribuições para a Psicologia", passou a integrar a Sociedade Americana de Psicologia. Dois anos antes, havia recebido o Lex Hixon Prize por sua excelência no ensino em Yale.

Seu mais recente livro, elogiado por jornais como o Washington Post e o The Boston Globe, é Just babies: the origins of good and evil, lançado como O que nos faz bons ou maus pela Best Seller (Grupo Record) aqui no Brasil. Na obra, o psicólogo demonstra que, mesmo antes de poderem falar ou andar, os bebês possuem a capacidade de julgar a bondade e a maldade das ações das outras pessoas, além de sentir empatia e compaixão e ter um senso rudimentar de justiça. Além disso, o livro defende que o altruísmo, por exemplo, é resultado da evolução da espécie, não algo a ser ensinado ou aprendido.

Pai de dois filhos, Bloom é casado com a psicóloga canadense Karen Wynn, reconhecida pesquisadora das capacidades cognitivas de crianças e adolescentes e diretora do Laboratório de Cognição Infantil, em Yale. As pesquisas desenvolvidas por Bloom na mesma universidade buscam interligar a psicologia do desenvolvimento, teologia, cognição, ciências sociais, linguística e teoria evolutiva para compreender a natureza do senso comum. O canadense defende, por exemplo, que seres humanos são essencialistas, ou seja, que nossas crenças sobre a história de um objeto mudam a nossa experiência com ele, não simplesmente como uma ilusão, mas como uma profunda sensação do que o prazer e a dor são.

O psicólogo costuma escrever artigos para as revistas Nature, Science e New Yorker, além de jornais como o The New York Times e o The Guardian. Foi para a The Atlantic que escreveu o polêmico e elogiado artigo The war on reason (A guerra contra a razão), em que rebate o determinismo da neurociência sobre um homem que seria uma marionete de seu próprio cérebro e tenta mostrar a importância de reunir mente e cultura para compreendermos a influência de ambos sobre quem somos. Leia um excerto em português abaixo ou acesse o site da The Atlantic:

PAUL BLOOM | A Guerra contra a razão

Em uma contemporânea e frequentemente não reconhecida reinicialização de Freud, muitos psicólogos concluíram a partir dessas descobertas que associações e atitudes inconscientes exercem poderosa influência sobre nossas vidas – e que a escolha consciente é largamente supérflua. "Não é claro", escreveu o neurocientista da Baylor College of Medicine David Eagleman, "o quanto o você consciente – em vez do você genético e neural – toma qualquer decisão."

O psicólogo da New York University Jonathan Haidt sugere que deveríamos rejeitar a noção de que estamos no controle de nossas decisões, mas sim pensar no self consciente como um advogado que, ao ser chamado para defender as ações de um cliente, fornece principalmente justificativas posteriores ao fato para decisões que já foram tomadas.

Tais declarações produziram uma poderosa reação adversa. Muita gente considera que elas representem esforços de uma tomada hostil da alma: um ataque a crenças religiosas, à moralidade tradicional e ao senso comum. Termos ridicularizadores como neurotrash [neurolixo], brain porn [pornô cerebral] e (para os britânicos) neurobollocks [neurobaboseiras] são frequentemente utilizados.

Alguns, como a escritora Marilynne Robinson e o escritor e crítico Leon Wieseltier, argumentam que a ciência se aventurou inadequadamente fora de sua área e ainda fracassou em captar a natureza rica e transcendente da experiência humana. O autor e neurocientista clínico Raymond Tallis se preocupa que tais teorias sugiram que não haja uma separação significativa entre homem e besta, uma posição que, ele argumenta em Aping Mankind (Humanidade primata), "não é apenas intelectualmente negligente, mas perigosa".

Majoritariamente, estou do lado dos neurocientistas e psicólogos sociais – nenhuma surpresa, considerando que eu mesmo sou psicólogo. O trabalho em áreas como ciência cognitiva computacional, genética comportamental e neurociência social rendeu grandes insights sobre a natureza humana.

Eu me preocupo, porém, que muitos dos meus colegas exageraram radicalmente as implicações de suas descobertas. O você genético e o você neural não são alternativas ao você consciente. Eles são suas bases.

Saber que somos seres físicos não nos diz muita coisa.
A pergunta interessante é que tipo de seres físicos nós somos.

(...) E quanto à capacidade de julgamento moral? Em muito da psicologia social, a moralidade é vista como o caso paradigma da irracionalidade insidiosa. Qualquer que seja o papel que nosso intelecto possa desempenhar em outros domínios, ele parece amplamente irrelevante quando se trata da nossa percepção de certo e errado.

Muita gente vai lhe dizer que queimar bandeiras, comer um animal de estimação morto e sexo consensual entre irmãos adultos é errado, mas, ao serem pressionadas a explicar por que, essas pessoas sofrerão do que Jonathan Haidt descreveu como "perplexidade moral". Elas ficarão aflitas tentando encontrar motivos, o que sugere que não foram os motivos em si que guiaram seus julgamentos, mas suas intuições viscerais.

Mas, como eu argumento no meu livro Just babies, a existência da perplexidade moral é menos crítica do que pode parecer. Não é a regra. As pessoas não ficam perdidas quando lhes perguntam por que é errado dirigir embriagado ou por que uma empresa não deve pagar menos a uma mulher do que a um homem pelo mesmo trabalho ou por que é preciso segurar a porta aberta para alguém de muletas. Conseguimos justificar facilmente essas visões fazendo referência a preocupações fundamentais sobre danos, equidade e bondade.

Além disso, quando enfrentamos problemas difíceis, pensamos neles – remoemos, deliberamos, argumentamos. Estou pensando aqui não tanto sobre grandes questões como aborto, pena de morte, guerra justa e assim por diante, mas sobre os problemas da vida cotidiana. É certo furar uma greve? Eu devo dar dinheiro ao morador de rua na frente da livraria? Foi correto a nossa amiga começar a namorar tão pouco tempo depois da morte do marido? O que devo fazer em relação à colega que não parece ter a intenção de me devolver o dinheiro que emprestei a ela?

Esse tipo de ruminação importa. Se nossas atitudes morais são totalmente o resultado de fatores não racionais, como intuições e a absorção de normas culturais, elas deveriam ou ser estáveis ou oscilar aleatoriamente com o tempo, como o comprimento das saias e a largura das gravatas. Elas não deveriam demonstrar mudanças sistemáticas ao longo da história humana. Mas demonstram.

Como observou o filósofo de Princeton Peter Singer, o círculo moral se expandiu: nossas atitudes sobre os direitos de mulheres, homossexuais e minorias raciais todas se movimentaram na direção da inclusão.

Independentemente de isso ser ou não visto como progresso moral (alguns niilistas e relativistas culturais acreditam que isso não existe), é algo que sugere uma evolução cumulativa.

As pessoas chegam a conclusões morais, frequentemente através de debates e consultas a outros, e essas conclusões formam a base de mais progresso. Assim como a moderna teoria da evolução constrói em cima do trabalho de Darwin, nossa compreensão moral é construída sobre as descobertas morais dos outros, como a injustiça da escravidão e do sexismo.

Somos o pior de nós mesmos quando se trata de política. Isso ajuda a explicar por que os recentes ataques à racionalidade capturaram a imaginação da comunidade científica e do público em geral. A política nos obriga a confrontar aqueles que discordam de nós, e nós não temos uma tendência natural de ver quem está do outro lado de uma questão como seres racionais. Por que, por exemplo, tantos republicanos consideram que o plano de assistência de saúde de Obama viola a constituição?

Em artigo para a The New Yorker em junho de 2012, Ezra Klein usou a pesquisa de Haidt e outros para argumentar que os republicanos desprezam o plano com base política, não racional. Inicialmente, ele observou, as objeções eram em relação ao que os democratas tinham a oferecer por conta de um senso de lealdade tribal. Apenas depois de terem estabelecido essa posição eles partiram para a razão para tentar justificar seus pontos de vista. Mas, perceba que Klein não apela para um periódico de psicologia social quando articula por que ele e seus aliados democratas estão tão confiantes no fato de que o Obamacare éconstitucional. Ele não está inclinado a entender sua própria perspectiva como produto de lealdade reflexiva à ideologia de seu próprio grupo.

Esta falta de interesse na fonte da visão de alguém é típica. Como a maioria dos acadêmicos é politicamente de esquerda ou de centro, eles normalmente usam suas teorias de irracionalidade para explicar as crenças dos politicamente à direita do centro. Eles gostam de explorar como preconceitos psicológicos moldam as decisões que as pessoas tomam para apoiar os republicanos, rejeitar ações de políticas afirmativas e desaprovar a homossexualidade. Mas não dedicam muito tempo a investigar como esses preconceitos podem moldar suas próprias decisões de apoiar os democratas, aprovar ações afirmativas e concordar com o casamento gay.

Nada disso quer dizer que Klein está equivocado. Os processos irracionais realmente existem, e podem basear decisões políticas e morais. Às vezes, a explicação correta é a identidade de grupo, a dissonância cognitiva ou o preconceito. É pouco provável que a irracionalidade tenha uma proporção perfeita nos diferentes partidos políticos, e é possível, como o jornalista Chris Mooney e outros sugeriram, que a parte da população que votou em Obama na eleição presidencial mais recente seja mais razoável do que a parte quase igual que votou em Romney.

Mas, mesmo que fosse esse o caso, isso nos diria pouco sobre a condição humana. Como a maioria de nós não sabe nada sobre leis constitucionais, não é exatamente surpreendente que escolhamos lados no debate sobre o Obamacare da mesma forma como torcemos pelos Red Sox ou os Yankees.

Lealdade ao time é o que importa. Um conjunto de experiências realizado pelo psicólogo de Stanford Geoffrey Cohen ilustra esse princípio à perfeição. Os sujeitos foram informados sobre uma proposta de programa de bem­estar social, descrito como sendo apoiado ou pelos republicanos ou pelos democratas, e perguntados sobre se aprovavam ou não o programa. Alguns foram informados sobre um programa extremamente generoso e outros sobre um programa extremamente escasso, mas isso fez pouca diferença. O que importava era o partido: democratas apoiavam o programa democrata, e republicanos, o programa republicano. Instados a justificar suas decisões, porém, os participantes insistiam que as considerações partidárias eram irrelevantes. Eles consideravam estar reagindo aos méritos objetivos do programa. Esta parece ser a regra.

O psicólogo da Brown Steven Sloman e seus colegas descobriram que, quando se pede que as pessoas justifiquem suas posições políticas, mesmo aquelas em que elas mais acreditam, muitas não conseguem apontar questões específicas. Por exemplo, muitas pessoas que disseram acreditar firmemente em limitar e negociar ou em imposto único faziam pouca ideia do que essas políticas realmente queriam dizer.

Então, sim, caso queira ver as pessoas em sua pior forma, pressione-­as sobre os detalhes daquelas complexas questões políticas que correspondem à identidade política e que partem os Estados Unidos quase que perfeitamente ao meio.

Mas, se este tipo de dogmatismo irracional refletisse como nossas mentes funcionam normalmente, nós sequer conseguiríamos sair da cama todas as manhãs. Esses exemplos dispersos e selecionados de irracionalidade não devem ofuscar nossa visão das bases racionais da nossa vida cotidiana. Isso seria como dizer que a coisa mais interessante da medicina não é a descoberta dos antibióticos e da anestesia ou da construção de programas em grande escala para distribuição de assistência de saúde, mas o fato de que as pessoas às vezes se esquecem de tomar seus remédios.

A razão fundamenta muito do que importa no mundo, inclusive o projeto exclusivamente humano de transformar nosso ambiente para atingir objetivos maiores. Pensemos novamente nos estereótipos raciais e de gênero.

Muita gente acredita que existem circunstâncias nas quais é errado usar esses estereótipos para fazer julgamentos. Se nos preocupamos com isso, podemos agir. Podemos usar a razão para inventar procedimentos que eliminem nossos preconceitos explícitos e implícitos. Revisões às cegas e testes às cegas impedem que juízes usem estereótipos, mesmo que inconscientemente, isolando­os de informações sobre a raça, o sexo ou qualquer outra coisa a respeito do candidato que não sejam os méritos do que ele deveria estar julgando. O sistema de cotas e as exigências de diversidade fazem o caminho inverso, e têm a raiz em diferentes intuições sobre o que é moralmente certo de se fazer. Eles impõem a representação de grupos de minorias, dessa forma tirando a decisão das mãos de indivíduos com seus próprios preconceitos, preferências e pautas.

É assim que acontece o progresso moral. Nós não nos tornamos melhores simplesmente através de boas intenções e força de vontade, assim como normalmente não perdemos peso ou deixamos de fumar apenas querendo.

Nós usamos a nossa inteligência. Estabelecemos leis, criamos instituições sociais, escrevemos constituições e evoluímos os costumes. Gerenciamos informações e limitamos opções, permitindo que a melhor parte de nós supere aqueles sentimentos e apetites viscerais com os quais consideramos que estaríamos melhores.

Sim, nós somos seres físicos e, sim, somos continuamente modificados por fatores que escapam do nosso controle. Mas, como Aristóteles reconheceu muito tempo atrás, o que é muito interessante em nós é nossa capacidade de raciocinar, que reina sobre tudo. Se perdemos isso, perdemos quase tudo o que importa.