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Pergunta Braskem: Richard Dawkins e a cooperação que dá origem à vida

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Em 2015, o Fronteiras do Pensamento propôs a temática Como viver juntos, como gerar uma sociedade que funcione de forma cooperativa apesar das diferenças, dos interesses pessoais e da competição. Esta temática não é nova para a espécie humana, ela surge antes mesmo da própria espécie, antes da consciência sobre a importância da cooperação ou de qualquer tipo de consciência.

É o que explica o biólogo britânico Richard Dawkins, conferencista inaugural do Fronteiras do Pensamento deste ano. A vida teve origem quando unidades replicadoras, flutuando em uma sopa primordial, “descobriram" uma forma de se reunir em grandes veículos, os organismos individuais. Milhões de anos se passaram, tais unidades se tornaram genes e os organismos individuais se transformaram na diversidade de seres vivos que hoje existe – porque cooperaram, porque trabalharam juntos: “todos os genes que possuem a mesma expectativa de futuro, a mesma expectativa de sair do corpo presente e passar para o próximo corpo cooperam. Trabalham juntos. Por isso corpos são inteiros tão coerentes. É por isso que todos os membros e órgãos dos sentidos trabalham conjuntamente. É simplesmente porque todos os genes que os construíram têm o mesmo caminho de saída para a próxima geração."

Richard Dawkins abre a temporada de conferências deste ano nesta próxima semana. Em Porto Alegre, o autor da obra O gene egoísta (cujo título poderia ter sido O gene cooperativo, segundo o próprio biólogo) sobe ao palco do Auditório Araújo Vianna na segunda-feira, dia 25 de maio. Em São Paulo, Dawkins apresenta suas ideias no Teatro Cetip – Complexo Ohtake Cultural, na quarta-feira, dia 27 de maio.

Se você não está em Porto Alegre ou São Paulo, o Fronteiras do Pensamento leva seus questionamentos até Richard Dawkins através da iniciativa Pergunta Braskem. Envie suas perguntas de qualquer parte do Brasil para o e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de quarta-feira (27). Uma pergunta será selecionada e feita ao biólogo no palco diretamente de São Paulo. A resposta será divulgada na quinta-feira (28), nos canais digitais do Fronteiras do Pensamento.

Leia abaixo o texto Esta é minha visão de vida, por Richard Dawkins:

Seleção natural se trata da variação de sobrevivência de informação codificada que tem o poder de influenciar a probabilidade de ser replicada, isso é basicamente o que significa gene. Informação codificada que tem o poder de criar cópias de si mesma – replicadoras. Sempre que isso vem à existência no universo, pode, potencialmente, ser a base para algum tipo de seleção darwinista. Quando isso acontece, você tem a chance deste fenômeno extraordinário que chamamos de “vida".

Minha suposição é a de que, se há vida em outros locais do universo, será uma vida darwinista. Penso que há apenas uma forma para que este fenômeno hipercomplexo, que chamamos de “vida", surja das leis da física. As leis da física – se você jogar uma pedra para cima, descreverá uma parábola e é isso. Mas, a biologia, sem nunca violar as leis da física, faz as coisas mais admiráveis; produz máquinas que podem correr, caminhar, voar, cavar e balançar através das árvores e, creio, produzir a tecnologia humana, a arte humana, a música. Tudo isso aparece porque, em algum ponto da história, há aproximadamente quatro bilhões de anos, uma entidade replicadora surgiu, não enquanto o gene que hoje conhecemos, mas como algo funcionalmente equivalente ao gene, que, por ter o poder de se replicar e de influenciar sua própria probabilidade de réplica, e por se replicar com poucos erros, deu luz ao todo da vida.

Se você me perguntar quais seriam minhas ambições, seriam as de que todos pudessem compreender o quão magnífico é o fato deles existirem em um mundo que, de outra forma, seria apenas física. A chave para este processo é a autorreplicação. A chave deste processo é – vamos chamá-los de “genes", porque, hoje em dia, eles são basicamente todos genes - os genes têm diferentes probabilidades de sobrevivência. Aqueles que sobrevivem, por terem replicação de alta fidelidade, são aqueles que vemos no mundo, são aqueles que dominam o fundo genético do mundo.

Então, para mim, o replicador, o gene, DNA, é absolutamente a chave para todo o processo de seleção natural darwinista. Quando você me pergunta sobre seleção de grupos, sobre altos níveis de seleção, sobre diferentes níveis de seleção, tudo se trata de seleção de genes. A seleção de genes é fundamentalmente o que ocorre.

Originalmente, estas entidades replicadoras estavam flutuando livremente e se replicando na sopa primordial, seja isso o que for. Mas, elas “descobriram" uma técnica de se agrupar conjuntamente em gigantescos veículos robóticos, que chamamos de organismos individuais. Um organismo individual é uma unidade de seleção em um sentido diferente do replicador por ser uma unidade de seleção. O replicador é a unidade de seleção que existe em maior ou menor quantidade no mundo. Hoje em dia, dizemos mais numeroso ou menos numeroso no fundo genético e isso é a linguagem moderna pós-Darwin.

Mas, como o organismo individual é uma unidade tão saliente, em que estes replicadores, estes genes se juntaram, nós, enquanto biólogos, tendemos a ver o organismo individual como a unidade de ação. O organismo individual é a coisa que tem pernas ou asas, ele tem olhos, dentes, instintos. Ele é a coisa que de fato age de alguma forma. Por isso, é natural para os biólogos expressarem seus questionamentos sobre propósito, sobre pseudo-propósito, a partir de organismos. Eles veem o organismo enquanto um batalhador por algo, trabalhando por alguma coisa, lutando para conquistar alguma coisa.

O que eles querem alcançar? Bem, para Darwin, era a luta para atingir a sobrevivência e a reprodução. Atualmente, diríamos que é uma luta para atingir a replicação dos genes dentro dos organismos. E tudo isso surge porque, uma forma de dizer, e frequentemente digo assim, podemos para olhar para trás, em direção aos ancestrais de todos os animais de hoje, quaisquer animais, em qualquer tempo, e ver que o indivíduo é descendente de uma linha inseparável de ancestrais bem-sucedidos, uma linhagem inseparável que foi vitoriosa em repassar os genes que a construíram.

Então, somos os condutores para os genes que passam através de nós. Somos máquinas de sobrevivência temporárias. Tudo sobre biologia pode ser compreendido desta forma. Tudo sobre biologia pode ser compreendido se você disser que o que de fato está ocorrendo é variação de replicação por sobrevivência – sobrevivência de genes no fundo genético – e a maneira que eles o fazem é controlando os fenótipos. Estes fenótipos, na prática, são quase todos ligados a estes corpos discretos, a estes organismos individuais.

Se houver alguma ligação de replicadores, uma ligação de genes, que repassa estes genes para a próxima geração através de um único propágulo (é o que fazemos, nós passamos nossos genes por meio do esperma ou dos óvulos), isso significa que todos os genes de um corpo, de um corpo mamífero, de um corpo vertebrado, corpo animal, de um animal normal que se reproduz sexuadamente. Porque todos os genes naquele corpo têm a mesma idêntica expectativa de entrar nas futuras gerações, deixando o corpo presente no esperma ou no óvulo e isso quer dizer que todos os genes em um corpo estão torcendo pelo mesmo fim. Todos têm o mesmo objetivo.

Se eles não tivessem – e alguns podem não ter: os vírus, por exemplo, têm objetivos diferentes, como serem espirrados, cuspidos, etc, e eles, claro, são muito diferentes e não cooperam com o resto dos genes no corpo. Mas, todos os genes que possuem a mesma expectativa de futuro, a mesma expectativa de sair do corpo presente e passar para o próximo corpo cooperam. Trabalham juntos. Por isso corpos são inteiros tão coerentes. É por isso que todos os membros e órgãos dos sentidos trabalham conjuntamente. É simplesmente porque todos os genes que os construíram têm o mesmo caminho de saída para a próxima geração."

(Leia e assista na íntegra, em inglês, no site The Edge)

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