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Pergunta Braskem: Valter Hugo Mãe, o retorno à infância e a reflexão sobre a morte

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Valter Hugo Mãe (foto: Rita Rocha)
Valter Hugo Mãe (foto: Rita Rocha)

"A questão estará em saber se a literatura é ainda pertinente no nosso tempo. A mim parece-me que sim. Que a literatura é meditação, é uma proposta de pensar melhor, ir mais adiante e, como tal, interessa proteger. Daí a questão sempre presente de saber como divulgar, como seduzir os não leitores para a magnitude do gesto da leitura." - Valter Hugo Mãe

Nascido em Saurimo, em Angola, Valter Hugo Mãe se destaca no panorama da literatura portuguesa pelo carisma e o ecletismo. Escritor, editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor, Hugo Mãe é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre. Mãe sobe ao palco do Salão de Atos da UFRGS no dia 03 de agosto, segunda-feira.

O Fronteiras do Pensamento leva seus questionamentos até Valter Hugo Mãe através da iniciativa Pergunta Braskem. Envie suas perguntas de qualquer parte do Brasil para o e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de segunda-feira (03). Uma pergunta será selecionada e respondida pelo convidado diretamente do palco do Fronteiras Porto Alegre. A resposta será divulgada na terça-feira (04), nos canais digitais do Fronteiras do Pensamento.

Filho de portugueses, Valter Hugo Mãe retornou a Portugal antes dos cinco anos de idade. Passou a infância em Paços de Ferreira e, em 1980, mudou-se para Vila do Conde, onde vive até hoje. Possui livros publicados de poesia e narrativa longa. Em 2007, atingiu o reconhecimento público com a conquista do Prêmio José Saramago com o seu segundo romance, o remorso de baltazar serapião. Na solenidade de entrega, o próprio Saramago classificou o livro como um “tsunami literário".

Hugo Mãe combina uma prosa apurada em língua portuguesa e histórias marcadas pela emoção. Chama a atenção pela variedade dos meios de expressão e de temática, que pode falar dos pequenos detalhes do cotidiano, dos problemas contemporâneos enfrentados por países como Portugal ou das paisagens da Islândia, como em sua mais recente obra, A desumanização.

Lançada no Brasil pela Cosac Naify, A desumanização reúne dois elementos importantes na trajetória do escritor: a Islândia, país que Mãe já visitou seis vezes e pelo qual tem afeto especial, e a temática da morte, recorrente em seus trabalhos. Ao vir ao mundo, Hugo Mãe teve que lidar não apenas com a experiência da vida, mas também com a da morte. O escritor nasceu após o falecimento de seu irmão Casimiro, que partiu com apenas um ano de idade.

Hugo Mãe dedica A desumanização ao irmão e, no livro, comenta sua história pessoal: "Quando nasci já o meu irmão Casimiro havia falecido. Durante a infância imaginava-o à minha imagem, um menino crescendo como eu, capaz de conversar comigo partilhando os mesmos interesses. Sabia, embora, que estava deitado sob a terra, e pensava que a palavra coração era da família da palavra caroço, uma semente. Achava que os meninos mortos faziam nascer pessegueiros porque os pêssegos tinham pele. O primeiro pêssego que comi foi em idade adulta."

Assim, Hugo Mãe nos presenteia com uma narradora ainda criança, a pequena Halla que, a partir do belo cenário dos fiordes islandeses, compartilha com o leitor aquilo que lhe resta depois da morte da irmã gêmea, Sigridur. Leia um trecho abaixo:

Éramos gémeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu por metade com a morte.

Ao deitar-me, naquela noite, lentamente senti o formigueiro da terra na pele e o molhado alagando tudo. Comecei a ouvir o ruído em surdina dos passos das ovelhas. Assim o expliquei, assustada. Disseram-me que talvez a criança morta tivesse prosseguido no meu corpo. Prosseguia viva por qualquer forma. E eu acreditei candidamente que, de verdade, a plantaram para que germinasse de novo. Poderia ser que brotasse dali uma rara árvore para o nosso canto abandonado nos fiordes. Poderia ser que desse flor. Que desse fruto. A minha mãe, combalida e sempre enferma, tocou-me na mão e disse: tens duas almas para salvar ao céu. Assustei-me tanto quanto lhe tive ternura. A minha mãe não me perdoaria qualquer falha.

Achei que a minha irmã podia brotar numa árvore de músculos, com ramos de ossos a deitar flores de unhas. Milhares de unhas que talvez seguissem o pouco sol. Talvez crescessem como garras afiadas. Achei que a morte seria igual à imaginação, entre o encantado e o terrível, cheia de brilhos e susto, feita de ser ao acaso. Pensei que a morte era feita ao acaso.

Leia mais de A desumanização ao final do libreto preparatório para a conferência com Valter Hugo Mãe, que contém, também, biografia, principais livros, links com o autor, bem como algumas de suas ideias: “Creio que o mundo é um problema. E aquilo que somos e como somos é uma tentativa de solução, porque o mundo é esse desafio colocado a cada um de nós, e o modo como somos é uma tentativa de superação desse desafio. Por isso, somos como sabemos, somos como podemos; mas, dentro da medida do possível, somos a solução."