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Pergunte para Manuel Castells

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O Fronteiras abriu espaço de comunicação entre os internautas e os conferencistas do curso, levando duas questões dos nossos seguidores no facebook para o palco do Fronteiras.

Pergunta: Por que, mesmo imersos na Cibercultura, a formação de professores continua com os mesmos modelos? É possível mudar o ensino como um todo e as instituições se tornarem "redes sociais de ensino e aprendizagem"? Afinal, todos esses jovens estão presentes nas redes sociais. Que estratégias acontecem nessas redes, que poderiam ser adotadas pelas instituições de ensino? Autor(as): Ariana Chagas, Rute Vera Maria Favero e Patrícia Gondim

Manuel Castells: As redes sociais não são algo à parte na vida dos jovens. Os jovens vivem nas redes sociais, nas redes familiares, nas redes pessoais. Quando minha geração desaparecer, todo mundo viverá nas redes sociais. Ou seja, no fundo, as novas formas de existência, que incluem... Eu sempre comparo a internet com a eletricidade. Na história, houve momentos em que apenas algumas pessoas tinham eletricidade. Mas, a eletricidade é fundamental para a sociedade industrial. Na nossa sociedade, a internet é a forma de comunicar, de existir, de fazer qualquer coisa.

Portanto, a questão é: os jovens, nas redes sociais, qual é a característica especial das redes sociais que favorece ou dificulta a expressão dos jovens? Eu diria que há uma conexão entre a cultura da autonomia, que é a cultura fundamental da sociedade atual e, principalmente, dos jovens, em relação às instituições e aos poderes da sociedade. A prática das redes sociais na internet que materializam essa cultura da autonomia. É o próprio meio dos jovens e, portanto, é também o meio de aprendizagem.

Um dos grandes problemas da educação é que há uma contradição entre a pedagogia e a organização do ensino – estabelecido historicamente através das formas verticais e burocráticas –, entre a cultura da autonomia, a capacidade de cultura digital do jovens... É totalmente contraditório. Mostraram os estudos feitos em diversos países: a razão do abandono escolar, da evasão escolar na escola secundária é porque os jovens se aborrecem na sala de aula. A sala de aula continua sendo feita em formas de comunicação que não são as dos jovens, que não são as desta sociedade. E isso não é um problema dos professores, é um problema do tipo de organização – vertical, tradicional.

Diria que o desenvolvimento da prática social dos jovens nas redes está reforçando sua autonomia e sua capacidade de redefinição cultural. No fundo, está levando ao empoderamento dos jovens. Me parece irônico que, no país de Paulo Freire, se tenha esquecido a pedagogia da liberdade, a pedagogia do oprimido, que é a pedagogia básica.

Meu último comentário, aproveitando para passar uma informação para vocês... Vocês sabem que há estudos sérios do British Computer Society, que mostra uma correlação entre a internet e a felicidade. Arrá! Surpresa! Todos os meios de comunicação dizem que a internet é péssima, que é a fonte de todos os males... Não, há uma correlação entre o uso da internet e índices psicológicos de felicidade. Por quê? A correlação não quer dizer nada, mas o porquê é importante: a internet aumenta duas áreas fundamentais, a sociabilidade e o empoderamento. E quais são as duas variáveis mais importantes na determinação da felicidade das pessoas? A sociabilidade e o empoderamento.

Pergunta: O que está faltando nos movimentos sociais brasileiros? Interesse? Engajamento? Esclarecimento? O último grande movimento, "os caras pintadas", reuniu uma multidão de jovens, atraídos pela mídia, que estavam lá como se estivessem em uma festa, sem um real engajamento político. Nosso povo apenas repete, sempre, que os políticos são corruptos, como se estes tivessem vindo de um outro planeta, e não de dentro das nossas famílias, das nossas escolas, da nossa sociedade... Ninguém assume responsabilidade individual pela situação que vivemos. Assim como a educação dos filhos foi jogada inteiramente sobre os ombros dos professores, a vida social foi delegada aos três poderes, executivo, legislativo e judiciário. Tudo, absolutamente tudo deixou de ser responsabilidade dos indivíduos. Existe uma solução para o nosso povo? Autor(a): Beatriz Helena Ribeiro

Manuel Castells (na foto à esquerda, com o Prof. Dr. Juremir Machado da Silva): se alguma coisa aprendi na minha vida é não falar do que eu não sei. É preciso ser prudente. Mas, vamos ver... Não sei exatamente a situação dos movimentos sociais no Brasil. Acompanho o Brasil o mais próximo que posso, mas, nos últimos quatro anos, estive trabalhando tanto com movimentos deste tipo em outros países, que não pude voltar para cá. Faz quatro anos que não venho ao Brasil e desconheço a vivência concreta dos movimentos sociais por aqui. O que posso dizer é que o Brasil sempre foi uma sociedade muito mobilizada, muito ativa. Porto Alegre, particularmente, mas não apenas. Sempre tivemos movimentos sociais de todo tipo, que continuam existindo.

Acredito que, o que aconteceu no Brasil foi algo que aconteceu na França também. A mudança política que se produziu nos últimos dez anos foi bastante substancial e que, portanto, gerou muitas esperanças de mudança social em direção à política. Destas esperanças, uma parte levou a mudanças institucionais e outra parte foi frustrada, mas o nível de frustração não foi suficiente para que os movimentos sociais assumissem um papel de liderança representando amplos conjuntos da sociedade. Eu diria que o mais significativo, na minha opinião sobre o Brasil, é que há uma cultura jovem. E as necessidades dos jovens não são percebidas pelo sistema político como tal. Então, os movimentos tradicionais no Brasil, que foram a luta contra a pobreza, contra a desigualdade, etc, foi isso que o sistema político pôde absorver. Não inteiramente, mas em parte. Ou seja, houve uma espécie de social democracia brasileira, que está em um momento de auge – o que não é uma coisa ruim, é bom que haja saúde e educação. Mas, o que foi deixado de lado são novos problemas, como a marginalização relativa da juventude. Particularmente, me parece que a questão da liberdade na internet, que é fundamental para os jovens, foi tomada pelo sistema político, em âmbito presidencial, mas não levada a sério pelos parlamentares, os governos estaduais submetidos às pressões dos grupos midiáticos e os operadores de telecomunicação.

Então, há elementos de cultura jovem, de transformação política, que não estão, neste momento, representados no sistema político que, talvez, possa gerar movimentos de defesa da internet muito mais ativos dos que aqueles que existem hoje no Brasil.