Voltar para Notícias

Perry Anderson explica o lugar do Brasil no mundo

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

PERRY ANDERSON, historiador britânico, foi o convidado desta segunda-feira (14) no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre. Anderson traçou uma comparação histórica para explicar a conjuntura político-econômica atual. Para ele, o mapa político contemporâneo se esboça sobre o Concerto de Nações, formado no Congresso de Viena em 1815.

Este primeiro concerto, formado pelas cinco principais monarquias na época, foi criado como uma frente política contra levantes ou guerras. “O concerto de nações existia para coordenar. Historiadores exaltam seu sucesso neste objetivo, pois, por 40 anos, mesmo diversas em regimes políticos e ideologias, eram parceiras e garantiram um longo período sem guerras na Europa", relembra o historiador (foto à esquerda. Crédito Carlos Macedo / Agência RBS)

Atualmente, diz Anderson, vemos um movimento análogo se criando. Estados Unidos, União Europeia, China, Rússia e Índia estão formando uma coalizão, que difere do Concerto de 1815 em seus motivos. Em 1815, havia um Napoleão a ser derrotado. Atualmente, o que une o novo Concerto é o mercado global interdependente.

“Desde a guinada neoliberal de 1980, os mercados estão conectados de forma até hoje impensável. Portanto, há um compromisso em comum nesta nova pentarquia: um mercado mundial capitalista", argumenta. Somado a isso, existem forças militares, já que os EUA, aponta o historiador, não possuem conflitos internos para apartar e garantem sua força militar para ajudar as outras nações, que não compartilham deste cenário.

Anderson explica que o Brasil é apontado como membro do BRIC, mas não participa deste novo Concerto por uma questão ideológica. “No último quarto de século, a América Latina se tornou pioneira na guinada neoliberal, estando dentro da corrente do capital já na década de 90, alinhada com os sistemas de domínio e de acúmulo", esclarece. No século 21, isso mudou com a vitória de Chávez. Em 10 anos, o mapa se transformou. Vieram Lula e Dilma, Kirchner, Mujica, Morales e seguirá com Bachelet no Chile, exemplificou o conferencista.

Para ele, Europa e Ásia estão, mesmo após a crise, aprofundando-se no neoliberalismo, mas a América do Sul caminha na direção contrária: mais controle público e igualdade. Além disso, aponta, o Brasil não está envolvido nas políticas de repressão, não é uma potência militar e oferece uma nova imagem de reforma social. “A reforma social brasileira está longe de perfeita, mas é claramente diferente da reação neoliberal na Ásia e Europa. O Brasil estabeleceu um novo caminho, se opondo e questionando escolhas internacionais", justifica.

Ao término da conferência, na parte destinada às perguntas dos alunos, que teve mediação da professora da USP, Maria Elisa Cevasco, Anderson discutiu, dentre outros temas, a questão das manifestações no Brasil. Novamente e como não poderia deixar de ser, traçou uma comparação: segundo Anderson, no mundo árabe, as explosões populares não conseguiram gerar a força organizacional para transformar as estruturas. “no Egito, o antigo regime está voltando por falta desta força organizacional. Acho que é isso que acontecerá. A partir do caso da Primavera Árabe, as manifestações brasileiras devem aprender a necessidade da força organizacional. Sem ela, e esta é a lição para os movimentos Passe Livre e outros, todo o esforço pode se perder.