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Pierre Lévy responde a Pergunta Braskem: professores e governos na educação digital

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Pierre Lévy no Fronteiras Porto Alegre 2016 (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Pierre Lévy no Fronteiras Porto Alegre 2016 (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

Curadoria de dados e inteligência coletiva foi o tema da conferência de Pierre Lévy ao Fronteiras do Pensamento Porto Alegre 2016, na noite desta segunda-feira (27).

O pensador francês partiu do conceito de curadoria dos museus para abordar a importância da criação, da organização e da filtragem dos conteúdos digitais, um trabalho que, segundo Lévy “se tornou uma atividade central desta década".

Ser um curador, atualmente, não é uma escolha, explicou Lévy. Na sociedade contemporânea, “somos curadores de uma forma ou de outra. Através de um like no facebook ou de uma hashtag, você está categorizando um conteúdo." E para executar este trabalho coletivo de curadoria da informação global, trabalho este que tem impacto direto na memória coletiva, enfatizou o pensador, é crucial que determinadas habilidades sejam desenvolvidas desde cedo: “saber priorizar assuntos, saber se concentrar em um assunto específico, ser capaz de escolher boas fontes de informação, saber interpretar os dados para produzir hipóteses e criar documentos de análise de dados."

Após sua fala, Lévy respondeu as perguntas do público. Dentre elas, a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras através do e-mail digital@fronteiras.com. Desta vez, a questão escolhida veio de Ariana Chagas Gerzson Knoll. Confira abaixo:

Tem se visto poucos avanços na área da educação pública com relação ao uso das tecnologias no Brasil. As ações são pontuais, isoladas e não acontecem como política pública educacional. Como o senhor acredita que nós, pesquisadores, podemos ajudar a escola pública de ensino fundamental no Brasil, a vencer a lacuna do espaço tempo existente entre o que a escola faz e o que a escola precisa fazer para dar conta do papel social de ensinar e aprender em tempos de Cibercultura?
Pierre Lévy: Eu me encontro na mesma situação. Isso não acontece apenas no Brasil, é um pouco em todos os lugares. Estamos nesta situação bizarra: todos os governos do mundo dizem “precisamos tirar proveito da tecnologia no ensino" e todos os professores na base têm esta impressão de que nada é feito no fim das contas. Esta é a situação geral. O que eu diria é o seguinte: não podemos esperar nada dos governos e dos programas oficiais.

Devemos fazer tudo o que pudermos na base de maneira horizontal e colaborativa. Isso significa que, dentro desta pequena margem de manobra que temos, já podemos fazer muita coisa. Especialmente através das redes sociais, utilizem-nas com os alunos. Podemos ensiná-los a ter espírito crítico com relação a todas as fontes que encontram na web, isso é muito importante.

Ainda, não podemos nos fechar nas plataformas educativas. Vamos utilizar as plataformas onde os alunos já estão, mas vamos ensiná-los a usar estas ferramentas de forma eficiente.

Lévy respondeu outras perguntas do público presente no Salão de Atos da UFRGS.
Confira abaixo as respostas do pensador francês:


Este ano, o tema do Fronteiras do Pensamento é a Grande Virada. Qual é sua opinião sobre como esta inteligência coletiva pode influenciar o Brasil em sua grande virada, que pode até já estar acontecendo...?
O Brasil é um dos países onde a computação social teve grande sucesso. Já há muitos anos, diversos movimentos sociais no Brasil utilizam as redes para o seu trabalho. Então, em certo sentido, a grande virada já começou. A grande virada começou no sentido da utilização política da tecnologia. Acredito que as duas áreas em que o Brasil pode tirar muito proveito desta nova situação são as seguintes, a educação e o desenvolvimento econômico.

Na educação, me parecem evidentes os benefícios. Precisamos utilizar ao máximo as novas ferramentas para engajar os alunos. É preciso que todos os professores trabalhem nesse sentido. É preciso ensinar, desde o ensino médio, os princípios que abordei esta noite: inteligência pessoal, pensamento crítico e inteligência coletiva. São habilidades muito úteis a todos os cidadãos e que não são competências técnicas – estamos falando de competências sociais e cognitivas, é importante entender isso.

As ferramentas também devem ser usadas no plano econômico, é lógico. É uma grande oportunidade para conhecer o mercado, para organizar as empresas por dentro, e não digo apenas as empresas clássicas dentro do sistema, falo também de organizações comunitárias, do terceiro setor, de associações em geral. Há um grande poder intelectual e social a ser explorado ainda.

Os indivíduos estão cada vez mais individualistas e menos cooperativos. O cooperativismo e os amigos estão restritos às redes sociais. Em uma organização, como podemos tornar mais coletiva a informação e divulgar experiências?
Bom, a pessoa que fez a pergunta acha que estamos em uma época individualista. Sim, é verdade, mas, paradoxalmente, nunca antes houve tanta colaboração. Quando observamos o que ocorre no GitHub, na Wikipédia ou até mesmo em um grande número de áreas, nas MOOCs, por exemplo, este sistema de aprendizagem colaborativa em rede, cursos abertos online, existem muitos cursos que se apoiam em novas tecnologias. Isso não quer dizer que só a tecnologia será diferente.

Precisamos criar uma cultura de colaboração e cooperação. Mesmo assim, quando vejo cada vez mais softwares e programas abertos, dados criados diretamente com a licença Creative Commons, tudo isso me dá esperança. Não devemos ser tão pessimistas, mas também não devemos imaginar que a tecnologia cuidará de tudo. Precisamos fazer um esforço para promover a cultura da colaboração.