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Público ou privado? Salman Rushdie fala sobre a posição da literatura em um mundo sem fronteiras

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"É tanta informação hoje, que um livro não pode oferecer as coisas na mesma velocidade. Ou na mesma profundidade." - Salman Rushdie, Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

A posição da literatura em um mundo onde eventos públicos têm impacto direto em nossas vidas. Um mundo em que, a partir de 11 de setembro, a política passou a estar completamente interligada à vida privada, em que "os políticos nos atacam diariamente" e em que as vozes do poder podem ser tão ficcionais quanto as dos escritores.

Este foi o tema central da conferência inaugural do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre 2014, Eventos públicos e vida privada: literatura e política no mundo moderno, com Salman Rushdie, escritor britânico que transformou uma vida de medo e ameaças de morte em luta pela liberdade de expressão.

Rushdie, que passou mais de uma década se escondendo após sentença de morte expedida pelo aiatolá Khomeini, então líder supremo do Irã, é uma das mais fortes vozes contra o fundamentalismo. No Salão de Atos da UFRGS lotado, ele não floreou sua posição: "a solução para o fundamentalismo é parar de crer em deus". Sobre seu bom humor e desprendimento, para quem esperava alguém tenso e temeroso, também foi claro: encerrou o capítulo das ameaças como encerra seus livros. Como histórias que ficam para trás e abrem espaço para novas narrativas.

O escritor abordou algo que considera específico da contemporaneidade: o fim das distâncias entre as diversas realidades do mundo global, o fim da percepção de que as tragédias ocorrem em lugares desconhecidos e de que pouco podemos fazer por elas. Mais ainda, o convidado atribuiu a visão da impotência sobre a história às ditaduras, sendo a base do autoritarismo ensinar que o indivíduo não tem poder sobre os fatos.

Estes fatos antes tão distantes ou imutáveis, defendeu, não existem mais. "Vivemos em uma era em que a história não acontece mais longe de nós, ela nos impacta." Isso todos já sabemos. A grande questão, esclareceu, é saber se somos nós que construímos o mundo ou se somos apenas moldados por ele. A diferença pode residir na literatura, argumentou: "O que encontramos na literatura são as respostas das perguntas as respostas das perguntas que permaneceriam um mistério se só acompanhássemos as notícias."

De acordo com Rushdie, a quantidade de fatos divulgada hoje é gigantesca e isso abre espaço para uma função na literatura: "um livro não pode oferecer as coisas na mesma velocidade. Ou na mesma profundidade." Esta é a posição da literatura, "cruzar fronteiras, nos levar a lugares mostrando verdades de mundos que não são os nossos."

Muitas perguntas foram dirigidas ao convidado no momento pós-conferência. Temas variados como literatura infantil, o estado de violência no Paquistão e o que sente sobre a América Latina foram trazidos à tona. Dos diversos tópicos, ficou o que o escritor falou da própria profissão em algumas confissões pessoais como não gostar de ler suas próprias obras ou de considerar a escrita uma doença incurável em que vozes o alertam sobre as boas histórias que sempre surgirão. Por fim, Salman Rushdie deixou uma grande dica para novos escritores: "a hora de concluir um livro é a exaustão do autor. É quando vemos que não estamos melhorando o texto, apenas o reescrevendo de formas diferentes."