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Richard Dawkins responde a Pergunta Braskem: como cooperar em comunidades tão maiores do que as de nossos ancestrais?

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Richard Dawkins no Fronteiras do Pensamento São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Richard Dawkins no Fronteiras do Pensamento São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

O Fronteiras do Pensamento 2015 abriu sua temporada com o biólogo britânico Richard Dawkins e a conferência Evolutionary arms race and living together. Em Porto Alegre, Dawkins se apresentou no Auditório Araújo Vianna para três mil pessoas, na segunda-feira (25). Em São Paulo, na quarta-feira (27), o convidado subiu ao palco do Teatro Cetip, de onde respondeu a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias sociais. Recebemos dezenas de perguntas sobre os mais diversos tópicos, enviadas de todas as partes do Brasil. Confira abaixo a resposta de Richard Dawkins à questão do também biólogo, Cesar Benhur de Campos Marques:

Pergunta: Levando em consideração a adaptação da espécie humana para viver dentro de pequenos bandos, de cerca de 150 componentes, desde o seu surgimento até alguns milênios atrás, como é possível que as sociedades atuais, que chegam a ser compostas por milhões de pessoas, consigam se manter estáveis?

Resposta de Richard Dawkins: Esta é uma pergunta muito interessante. Provavelmente, a verdade é que a maior parte da nossa evolução como humanos aconteceu em pequenos grupos de até 100 ou 150 pessoas. Isso é plausível. Então, se formos aplicar o darwinismo ao comportamento humano, temos que nos lembrar disso sim e ver as grandes cidades em que vivemos hoje como sendo não muito naturais. Há muitas outras coisas não naturais como vestir roupas e comprar comida nos supermercados, sem ter que obtê-la por conta própria.

Acho que é uma forma produtiva de se entender uma pergunta que muitas vezes me fazem, que é 'por que nós somos tão bacanas uns com os outros'? A ideia do gene egoísta pode levar uma pessoa a pensar que nós tínhamos que ser egoístas e terríveis uns com os outros, mas não é isso. O gene egoísta pode programar um indivíduo a ser altruísta e o meu livro O gene egoísta fala sobre isso.

Quando vivíamos em grupos de 150 indivíduos, dois fatos eram relevantes: primeiro, a maioria das pessoas que você conhecia eram pessoas que você veria muitas vezes na sua vida, ou seja, você conhecia todo mundo no seu grupo, no seu bando nômade de 150 pessoas. Este é um ponto, todo mundo se conhecia.

Outra coisa é que a maioria ou todas as pessoas nesse clã seriam relacionadas familiarmente. Seriam primos, sobrinhos, sobrinhas e assim por diante. A seleção natural darwiniana tem duas principais formas de fazer com que o indivíduo ou até a espécie possa exibir cooperação e altruísmo. Primeiro, é fazer parte de uma mesma família e compartilhar genes e a outra forma é o altruísmo recíproco, 'uma mão lava a outra'.

As teorias da familiaridade e a da reciprocidade são mais evidentes em grupos pequenos, porque, ali, em geral, você estava com pessoas relacionadas a você de alguma forma e cujos genes você compartilhava e você tinha indivíduos com quem poderia desenvolver uma relação pessoal – você sabia quem fazia o bem e quem retribuía a bondade. O que quero dizer é que essa nossa história nesses grupos pequenos era uma condição ideal, digamos, para o desenvolvimento do altruísmo e da cooperação.

Hoje em dia, não vivemos mais em grupos de 150 indivíduos. Em São Paulo, obviamente, não se vive em uma comunidade pequena, mas o nosso cérebro, nosso sistema nervoso e os instintos que temos hoje são os mesmos de nossos ancestrais, que evoluíram nestes grupos pequenos. Então, na vida prática, o que vale para a seleção natural diretamente, é que ela ainda está em nosso cérebro, porque a seleção natural, na verdade, não nos programa com uma consciência cognitiva daquilo que devemos fazer para maximizar a sobrevivência dos nossos genes.

A seleção natural favorece regras práticas, regras mecânicas, favorece aquilo que funciona na prática. Essa regra prática, que teria funcionado para os nossos ancestrais, seria algo como 'seja generoso com todos aqueles que você conhece', porque eram todos parte do seu clã, porque você reencontraria estas pessoas. Hoje em dia, continuamos tendo esta mesma regra, mesmo vivendo em grandes cidades, tendo pessoas ao nosso redor que não são nossos familiares, pessoas que não reencontraremos e, ainda assim, esta regra existe em nosso cérebro. Essa pergunta pode ser respondida explicando por que nós somos generosos, por que nós doamos sangue, por que doamos para a caridade, por que nos importamos quando vemos alguém sofrendo e assim por diante.