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Ritalina: fatos e mitos

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Estudo aponta que o remédio Ritalina não promove melhora cognitiva em pessoas saudáveis. A droga, indicada para pacientes que sofrem de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), tem sido comprada por pessoas saudáveis para potencializar o foco e a produção.

Para a pesquisa, desenvolvida pela psicóloga Silmara Batistela, foram selecionados 36 jovens saudáveis de 18 a 30 anos. Eles foram divididos aleatoriamente em quatro grupos: um deles tomou placebo e os outros três receberam uma dose única de 10 mg, 20 mg ou 40 mg da medicação. Depois de tomarem a pílula, os participantes foram submetidos a uma série de testes que avaliaram atenção, memória operacional e de longo prazo e funções executivas. O desempenho foi semelhante nos quatro grupos, o que demonstrou a ineficácia da Ritalina em "turbinar" cérebros saudáveis. "O uso não alterou a função cognitiva. A única diferença que observamos foi que os que tomaram a dose maior, de 40 mg, relataram uma sensação subjetiva de bem-estar maior em comparação aos demais", diz Silmara.

No Fronteiras do Pensamento, a neurocientista britânica Susan Greenfield foi categórica com relação à droga. Para ela, a necessidade de um remédio que aumente a dopamina no cérebro é consequência direta do modo de vida contemporâneo muito intenso e rodeado de telas (que elevam os níveis de dopamina): “quanto mais dopamina, mais infantil o cérebro, menos noção de sentido, tempo, significado. As telas aumentam a dopamina. É a excitação potencializada do momento, comum no cérebro infantil. A pressão dos sentidos domina o mundo atual. Quanto mais excitante a experiência, mais dopamina. São mecanismos doentes."

Ao tomarmos Ritalina, liberamos dopamina no cérebro. A dopamina é um neurotransmissor (substâncias química produzida pelos neurônios), responsável pela sensação de prazer e pela sensação de motivação. Por isso, a dopamina é frequentemente associada aos usuários de drogas, por ser viciante, precisando de estímulo contínuo. Recentes pesquisas sugerem que o uso contínuo das telas eleva o nível de dopamina, o que estaria resultando na necessidade da Ritalina fora da tela. Existem pesquisas que correlacionam o aumento de doenças de falta de atenção ao uso extremado de computadores e videogames. Isso se acentua em casos extremos, nos quais as pessoas gastam até 10h por dia na frente da tela, existe uma forte correlação com anormalidades em exames cerebrais, como problemas de foco, hiperatividade e estresse.

Como solução, Greenfield propõe: “o ambiente é a chave pra fazer de você a pessoa que você é". Para a neurocientista, devemos refletir sobre como o novo mundo muda nosso pensar e sentir. Devemos, acima de tudo, desenvolver ambientes reais e prazerosos para as crianças, que respeitem o tempo natural das coisas, diminuindo a necessidade do virtual ou a ilusão do instantâneo e muito intenso, que acarretam em níveis excessivos de dopamina.