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Sobre Hannah Arendt

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A filósofa alemã Hannah Arendt é tema do filme da diretora Margarethe Von Trotta, que estreou no Brasil no início de julho. Arendt também é objeto da mais recente coluna do psicanalista Contardo Calligaris e já havia sido examinada em sua tese de doutorado. Na coluna para a Folha de S.Paulo, Calligaris discute o poder do vizinho, do coletivo, do outro sobre nossa forma de pensar e de agir. Diz ele:

“O coletivo (a nação, o partido, o sindicato, a torcida, a gangue, o grupo adolescente de amigos, a própria família) não oferece apenas ideologias e desculpas: ele fornece uma função para cada um de seus membros. Com isso, não preciso pensar para decidir minha vida - preciso apenas preencher minha função. É bom o que é funcional ao grupo - ruim, o que não é. Qualquer crepúsculo do indivíduo é um crepúsculo da moral. Pensemos nisso, por favor, quando torcemos, agitamos bandeiras ou falamos, misteriosamente, na primeira do plural."

O Fronteiras do Pensamento retomou alguns conferencistas que abordaram o pensamento de Hannah Arendt para discutirem a contemporaneidade. Celso Lafer fala sobre o terrorismo, Michel Maffesoli reflete sobre o desligamento entre discurso e vivido, e Affonso Romano de Sant'anna analisa a violência na chamada pós-modernidade. Leia abaixo a seleção do Fronteiras e clique aqui para assistir ao trailer deHannah Arendt (com legendas em português) ou clique aqui para saber mais sobre o filme.

MICHEL MAFFESOLI
Sociólogo, considerado um dos maiores especialistas na pós-modernidade e uma referência da sociologia dos anos 90
: "Penso que há momentos, justamente quando há uma mudança de paradigma, mudança nas maneiras de ser e de pensar, há momentos de fronteira, momentos de limiar, em que há um entremeio – um desacordo entre um dizer antigo, uma maneira de se dizer pela sociedade instituída. Aliás, lamento dizer, é o que encontramos nos discursos acadêmicos, o que encontramos nos artigos jornalísticos, o que encontramos em todos os discursos políticos; um discurso da intelectualidade que eu diria antigo, que não está mais em congruência com o vivido; é o que eu chamaria um 'dito societal', um dizer antigo que constitui, no fundo, o que está institucionalizado como um discurso, sob suas diversas formas.

E há também o que chamo aqui um 'dito societal', às vezes não verbal, que vai se exprimir nas práticas juvenis, nas diversas formas de rebelião, nas diversas formas de revoltas multiformes que podemos observar na sociedade. E isso, a meu ver, é o que nos atinge atualmente, ou seja, essa espécie de desacordo entre uma sociedade oficial e uma sociedade oficiosa. Portanto, entre um discurso oficial e um discurso oficioso.

Existe aí um problema. Não há mais acordo entre o discurso e o vivido. Hannah Arendt, que foi uma grande dama do pensamento do século XX, dizia que havia um vasto mercado de concepções do mundo em que tudo se tornara mercadoria. Vasto mercado de concepções do mundo. A característica dessas concepções do mundo, dizia Hannah Arendt, é justamente as respostas que elas fornecem, um pouco como chaves que serão utilizadas e são respostas para tudo.

Arendt mostrava que o verdadeiro pensamento é um pensamento que sempre questiona e que, no labirinto do vivido, não há necessariamente respostas, mas saber colocar bem as questões. Para recordar Aristóteles, era assim que ele qualificava a 'filosofia': 'colocar bem os problemas'; não encontrar necessariamente soluções. O que significa questionamento.

Isso é o verdadeiro pensamento. Pois, se temos uma ambição, um desafio, não é o de achar soluções, mas o de fazer um diagnóstico, sabendo, portanto, colocar verdadeiramente as questões pertinentes. O questionamento é contra o dogma. O dogma, em grego, é o termo jurídico que põe uma ordem ao que se originou da experiência. O que traduz a palavra grega 'dogma' é decretum, o decreto. Portanto, há dogma e decreto quando colocamos ordem em algo que é vivido."

CELSO LAFER | Advogado, ex-chanceler brasileiro e especialista em economia, membro da Academia Brasileira de Letras desde 2006: "Num sistema heterogêneo, a subversão consiste em atiçar o descontentamento dos povos; e uma das formas pelas quais ela aparece é pela violência. A violência se distingue da força pela desproporção entre meios e fins – porque não tem medida. E é isto que vem caracterizando, no plano interno e no plano internacional, numa dialética de mútua complementaridade, o solipsismo, voltado apenas para si, da soberania, e o solipsismo da razão terrorista, que são ingredientes básicos da atual heterogeneidade do sistemainternacional.

O terrorismo pode ser entendido como um conjunto de ações voltadas para provocar o medo que paralisa e o horror que desconcerta com o objetivo de mudar condutas. Gera a insegurança coletiva, pois é a expressão do pacto dos violentos voltado para colocar em questão a confiança numa vontade comum de estabilidade no plano internacional.

O terrorismo não é um fenômeno novo, mas tem no mundo contemporâneo uma dimensão transnacional generalizada; possui uma capacidade de atuação em todas as direções em função da sua capacidade técnica de atuar em redes, sem o peso das estruturas hierárquicas que, no passado, caracterizavam as organizações terroristas. E intimida, porque o poder de negação da violência se viu multiplicado pelos instrumentos que a tecnologia contemporânea oferece.

A violência pode paralisar e destruir o poder, mas da sua negatividade, diz Hannah Arendt, firmada nos implementos da violência, não brota o poder. É por essa razão que magnifica as tensões, mas não produz do solipsismo da sua razão o curto-circuito, o estalo alterador da ordem mundial."

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA | Poeta, ensaísta, cronista e professor brasileiro, suas crônicas já lhe deram o título de um dos dez jornalistas mais influentes do Brasil: "A chamada 'pós-modernidade' é uma situação curiosíssima. Como falar de paradigmas dentro de um contexto cultural em que se tornou comum negar o paradigma? Teriam, os paradigmas, deixado de existir? Ou a negação do paradigma pertence a outro tipo de paradigma? A negação doparadigma pode ser analisada paradigmaticamente.

E, aí, começamos a fazer uma análise da teoria do discurso e da retórica que envolve essa questão. Thomas Kuhn perguntava: “Por que alguém pode se dedicar a resolver enigmas? Por que a sua libido se concentra nessa façanha? Como o seu imaginário se mobiliza para isso?". No caso das ciências sociais ele dizia que talvez fosse o desejo de ser útil, de percorrer caminhos novos, a esperança de descobrir uma ordem ou a necessidade de pôr à prova o conhecido e estabelecido.

Eu acrescentaria que nessa questão do confronto com os paradigmas exauridos, paradigmas que não nos satisfazem, o cientista, o teórico e o artista se dedicam a resolver ou enfrentar este enigma, também, por uma questão pessoal. Ou seja, enquanto certos problemas não se transformam em problemas pessoais, nós não os enfrentamos com a devida coragem e audácia. Dizia Hannah Arendt que se ela não conseguisse entender a lógica do nazismo, ela enlouqueceria, portanto, se dedicou a estudar isso. De alguma maneira, acho que o desafio hoje, diante da nossa cultura, é o mesmo: essa intersecção entre o sujeito e o seu tempo, o sujeito e o seu momento histórico.

A contemporaneidade se meteu em uma irremissível poética da dispersão. Foi uma grande conquista que a modernidade trouxe, e a pós-modernidade também, mas toda conquista implica o surgimento de novos problemas para manter o domínio e, quando o império vai além do que pode e expande suas fronteiras, dilui-se e começa o seu declínio.

Por isso, a situação da pós-modernidade, sobretudo, me faz lembrar de uma frase de Jean Luc Chalumeau que dizia que a nossa situação, hoje, lembra a de Alexandre, O Grande, que, depois de ter conquistado todo o mundo, só podia chorar e ficar deprimido por não ter mais nada o que conquistar. Pois nós acabamos de sair de um século mortal e mortífero. Morte de Deus, morte da história, morte do homem, morte da arte e quase morte da morte.

Nesse sentido, o vasto cemitério em que perambulamos, como zumbis, entre o sentido e o não sentido, complementa – e isso é grave – a mais devastadora orgia de sangue, destruição e guerras que a história já teve. Teorizar sobre a morte de certas categorias pode não fazer jorrar sangue no papel, mas sim apenas justificar a morte onde quer que ela esteja."