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Somos todos Nigéria?

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Michael Fleshman
Michael Fleshman

Os atentados a Charlie Hebdo e em Baga aconteceram na mesma semana. O primeiro, em Paris, foi orquestrado por jihadistas que se sentiram ofendidos pelas charges publicadas pela revista. O horror se espalhou pela cidade francesa durante toda a semana e matou 17 pessoas no início de janeiro. A manifestação #jesuischarlie tomou o mundo e levou milhares de pessoas às ruas da França bradando alto pela liberdade e pela democracia.

No mesmo período, em Baga, na Nigéria, aproximadamente 2 mil pessoas foram mortas depois de um ataque do grupo Boko Haram, um grupo radical islâmico que recruta jovens para lutar pelo estabelecimento da lei do Islã no país e condenar a educação ocidental.

Mídia e anistia internacional foram criticados pelo pouco espaço e palavras dedicados ao segundo caso. A defesa diz que, enquanto os atentados em Paris aconteceram num dos maiores centros do mundo, o ataque do Boko Haram se sucedeu numa região isolada, quase sem internet, em que jornalistas têm medo de circular e todo tipo de informação vem de relatos desencontrados de sobreviventes.

É como se a realidade da África não nos pertencesse, mas o contexto ocidental da França, dos Estados Unidos e outros nos pertence por quê? Por que somos todos Charlie e poucos são aqueles que se manifestam por Baga?

Quando esteve no Fronteiras do Pensamento, o médico congolês Denis Mukwege afirmou: "Não existe democracia sem direitos humanos. Há muito tempo, os direitos humanos foram considerados luxo. Parece-me que isso continua sendo verdade para muitos países da África. Efetivamente, pouquíssimos dos nossos países reconhecem a dignidade inerente a cada pessoa sem qualquer discriminação".

O escritor moçambicano Mia Couto falou sobre o lugar em que nasceu: "Eu nasci num lugar desarrumado, num lugar que sonhava ser outra coisa. Portanto, era como se eu já vivesse num lugar de ficção na essência, como se a ficção fosse uma coisa que comandasse mais do que a realidade".

O teórico cultural ganês Kwame Anthony Appiah acredita que valores como os direitos humanos não podem ser relativizados e diz que o poder deveria ser democratizado. "Se queremos unidade e solidariedade política na África, temos que trabalhar por isso, elas não vão vir naturalmente só porque somos todos negros", afirmou.

A ativista Leymah Gbowee foi encarregada de organizar o movimento que ajudou a colocar fim à Segunda Guerra Civil da Libéria, em 2003. Dez anos depois, ela contou sobre a experiência e sua luta contra a violência em sua conferência no Fronteiras do Pensamento. "O que aprendi quando me engajei e comecei o meu trabalho de ativismo foi o fato de que você não pode abrir mão de algo que não tem. Você não pode dar paz às pessoas quando não tem paz. Você não pode oferecer não violência quando os seus pensamentos estão repletos de violência. Você não pode curar se não tiver passado por um processo de cura", diz ao analisar o quanto a violência já se espalhou pelo mundo.