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Suzana Herculano-Houzel responde a Pergunta Braskem: o que torna o cérebro humano notável

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Suzana Herculano-Houzel no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Suzana Herculano-Houzel no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

O que torna o cérebro humano notável, mas não especial? Este foi o questionamento proposto pela neurocientista Suzana Herculano-Houzel no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre de segunda-feira (28/9). A pesquisadora deu uma aula sobre a diferença entre os cérebros dos mamíferos, desbancando hipóteses que, por muitos anos, intrigaram a comunidade científica.

O que torna nosso cérebro notável? Seria o tamanho do córtex? Seria o tamanho do cérebro? Seria o número de neurônios no cérebro? Não, não e não. Todas as questões acima foram descartadas pelas descobertas mais recentes. Há espécies com córtex maior, cérebro maior e com mais neurônios.

Elefantes africanos, exemplificou a conferencista, possuem cérebros maiores (três vezes maiores) e mais neurônios (três vezes mais), mas a concentração de neurônios no córtex é menor. “Embora o córtex cerebral do elefante seja duas vezes maior do que o nosso, ele tem só um terço do número de neurônios. O nosso tem, em média, 16 bilhões. No elefante, a gente encontrou nem mesmo seis bilhões de neurônios no córtex."

98% dos neurônios do elefante africano estão localizados no cerebelo (apenas 2% no córtex), explicou Houzel. Isso faz a capacidade sensorial do elefante ser fantástica, mas a cognitiva menor do que a nossa. "Se a gente comparar nossa espécie com outras, vemos a diferença: nenhuma espécie tem tantos neurônios no córtex cerebral quanto a nossa. Se a gente lembrar que neurônios, sobretudo no córtex, são a unidade de processamento e integração de informações, de planejamento para o futuro, a gente pode esperar, então, que o parâmetro mais limitante para a capacidade cognitiva de uma espécie seja não o tamanho do cérebro, mas sim o número de neurônios no córtex cerebral."

“Ter esses 86 bilhões de neurônios é uma condição necessária para a capacidade cognitiva que temos, mas não é suficiente." Herculano-Houzel explicou que nascemos dotados de muita capacidade, mas com poucas habilidades. Tais habilidades dependem da auto-organização do cérebro, que se organiza de acordo com o uso, a prática, o esforço: “Nos tornamos bons conforme nos propomos a sermos bons."

Outra questão surpreendente foi a quantidade de energia utilizada pelo cérebro humano e as estratégias que a espécie desenvolveu para otimizar esta energia. Enquanto o cérebro humano representa apenas 2% da massa do corpo, ele consome 25% da nossa energia. Das 2.000 calorias que consumimos por dia, esclareceu a convidada, o cérebro utiliza 500. “Cada bilhão de neurônios custa seis calorias por dia. O cérebro humano custa caro, porque tem 86 bilhões de neurônios. Se nosso cérebro seguisse a regra dos primatas, teríamos que comer 9h30 por dia para ter a quantidade de neurônios que temos."

Foi assim que surgiu o grande diferencial da espécie, segundo a neurocientista, a habilidade de cozinhar os alimentos. "Tivemos que aprender a pré-digerir os alimentos antes deles chegarem à nossa boca para gastarmos menos energia no processo. Ou seja, aprendemos a cozinhar." A ironia, brincou a convidada, é que, com a alimentação hipercalórica contemporânea e uma vida com pouco gasto energético, retornamos à boa e velha salada crua para emagrecermos.

Após sua fala, Suzana Herculano-Houzel respondeu a Pergunta Braskem, enviada por vocês, leitores do Fronteiras do Pensamento nos canais digitais. Desta vez, a pergunta selecionada veio de Maria Luiza Fávero, que questiona Suzana sobre o impacto do “excesso" de informações no cérebro. Confira abaixo:

Maria Luiza Fávero: Sobre perda de memória independentemente do envelhecimento cerebral. Pacientes cada vez mais jovens se queixam de perda de memória. Recomendávamos estimular a memória para deixá-la ativa. Mas, parece que os estímulos em excesso causam algo parecido com uma exaustão. Esta aparente fadiga cerebral não estaria afetando uma parcela considerável da população? Qual sua visão sobre este excesso de estímulos no cérebro?
Suzana Herculano-Houzel:
Eu gosto tanto dessa pergunta. A primeira coisa que precisamos saber é que, por definição, a gente sempre viveu em um mundo com excesso de estímulos, porque o cérebro da gente tem uma limitação intrínseca, que é prestar atenção em apenas uma coisa por vez. Então, a todo instante em qualquer lugar, pode ser no ambiente mais natural que você quiser, sempre há mais coisas acontecendo do que o seu cérebro consegue dar conta. A gente sempre se foca naquela uma coisa importante por vez.

É claro que, se você enche a sala de coisas interessantes acontecendo, fica cada vez mais difícil, cada vez mais estressante você exercer o controle cognitivo de resistir a todas as distrações e se manter focado.

Mas dizer que é o mundo moderno que tem distrações e estímulos demais é um salto muito grande que, sobretudo, eu acho que tenta absolver a gente de toda culpa. A culpa não é da gente, a culpa é do mundo que coloca tecnologia demais, estímulos demais na nossa frente.

O problema não é a tecnologia, não é a diversidade, a facilidade com que a gente consegue se cercar de estímulos hoje, o problema é o mau uso que é tão fácil fazer dessas tecnologias. A começar, por exemplo, pelo bombardeio de e-mails que recebemos por dia. Você pode responder todos eles se você quiser. Agora, você deve responder todos eles por dia?

Como em todos os outros casos, tem um aprendizado por trás: toda vez que aparece uma tecnologia nova, passamos por um processo de adaptação à tecnologia. Alguns fazem isso com mais facilidade e outros penam um bocado, mas dizer que o mundo moderno fez aparecer o déficit de atenção, que o déficit de atenção é cria da tecnologia... de modo algum. Sempre existiu.