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Timothy Snyder: futuro, liberdade e democracia

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Na noite da última quarta-feira (21), o historiador estadunidense Timothy Snyder realizou sua conferência na temporada 2020 do Fronteiras do Pensamento. Com mediação do jornalista Daniel Scola, o debate foi sobre o tema liberdade, escolhido por Snyder por ser um assunto que poderia desenvolver naturalmente em virtude de seus trabalhos anteriores.

Autor das obras “Na contramão da liberdade” e “Sobre a tirania”, o pensador defendeu ao longo de seu discurso que a liberdade e o futuro são conceitos entrelaçados. A falta de futuro na política é o que temos de mais estranho nos dias atuais, momento em que o autoritarismo vai consumindo a democracia.

Presente, futuro, liberdade, democracia, líderes e autoritarismo foram palavras-chave na conferência de Snyder. Porém, o historiador ainda tocou em pontos importantes no que tange os conceitos abordados, como é o caso das mídias sociais: “sempre estamos nos estimulando a reações emocionais. Não estamos pensando sobre o futuro. Não estamos pensando sobre as mudanças, pensamos apenas no efeito que nós temos uns sobre os outros”.

 

A falta de um futuro

O que deu errado com o presente político? O que nos torna tão diferentes nesse momento de outros momentos dos últimos cem anos? Talvez concordem que uma das coisas mais estranhas é a falta de futuro. A forma com que o futuro desapareceu do nosso linguajar político e também dos nossos pensamentos. 

Em termos históricos, todos os movimentos políticos sempre tinham alguma noção do futuro. O socialismo tem a ideia de uma utopia dos trabalhadores. O capitalismo tem a ideia de um mundo em que não haja alternativas ao capitalismo. Desde a Revolução Francesa, pelo menos no hemisfério ocidental, há ideias concorrentes sobre o futuro. Na década de 70 e 80 havia uma visão de um futuro tecnológico. 

Em comparação, qual é a visão de futuro que os jovens de hoje têm? Não é estranho que, na medida em que avançamos no mundo de tecnologia e riqueza, as pessoas jovens tenham dificuldade em imaginar como será o futuro?


Liberdade e capitalismo

Achar que capitalismo resulta automaticamente em democracia não é diferente de pensar que capitalismo resulta em socialismo. Existem problemas com essa maneira de pensar que nos deixaram vazios espiritualmente e diminuíram a nossa capacidade humana, aquela capacidade que precisamos para a democracia ou até para a liberdade. 

O problema com essa forma de pensar - que predomina desde 1990 até muito recentemente, quando foi substituída pela política da eternidade - é que isso é uma antítese da liberdade. Faz de conta que há liberdade, que a história está do nosso lado, o capitalismo está do nosso lado, e que precisamos de liberdade. Mas o problema é que isso é exatamente o oposto da liberdade. 

Se você disser, por exemplo, que a liberdade virá para você através de uma força maior – história, capitalismo - se você disser que a liberdade é algo que os humanos não trazem para si, e aí você diz que a gente vive no mundo determinista onde uma determinada estrutura traz um tipo de estrutura política. Sim, existe certa autonomia com relação a isso, que há espaço para a liberdade humana. O que os humanos precisam fazer para ficarem livres?  

 

Desigualdade radical de renda e riqueza

Muitos autores mostraram que em condições de desigualdade radical é muito difícil imaginar a liberdade, porque os muito ricos e os muito pobres são habitantes de duas cidades diferentes, como colocado por Platão. Um bom exemplo disso no século 21 é a ideia da imortalidade, de que algumas pessoas muito ricas vão viver para sempre iguais e irão monopolizar o tempo, enquanto todos os demais ficam simplesmente observando e admirando.

Um segundo ponto estrutural relacionado é o fim da mobilidade social. Alguns desses fatores são muito proeminentes nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, a gente tem o problema de mobilidade social. Desde a década de 80 isso não é mais uma realidade. Quando as pessoas não têm mobilidade social elas perdem uma noção do futuro.

E se você acha que a próxima geração não irá tão bem quanto você, aí você perde essa noção de mobilidade social. E aí a democracia e a liberdade estão em xeque. Relacionado a isso temos a questão da saúde: uma forma de imaginar o futuro, não apenas um futuro para seus filhos, mas um futuro para você.

 

Mídias Sociais

O crescimento das mídias sociais não é positivo para a liberdade e para a democracia. As empresas de mídia social tendem a se tornar monopólios, aí elas matam a concorrência seja deliberadamente ou não, e com isso torna-se mais difícil que as ideias circulem. Outro problema com as mídias sociais, devido à sua concentração, é que elas são desenhadas para nos manter online e nos estimular com as coisas que gostamos muito ou que não gostamos nada. 

Esse modelo comportamental faz com que os olhos humanos fiquem fitos na tela, mas com isso desenvolvemos uma certeza muito grande de que as nossas ideias estão corretas e as ideias das outras pessoas são atos de má fé. Então, as mídias sociais têm o efeito de polarização radical, ou seja; uma política de nós estamos certos eles errados. Eles nos enfurecem sim e nós enfurecemos eles nessa forma de política e, assim, o futuro desaparece. Sempre estamos nos estimulando a reações emocionais. Não estamos pensando sobre o futuro. Não estamos pensando sobre as mudanças, pensamos apenas no efeito que nós temos uns sobre os outros.

 

Significado da palavra Liberdade

Quando eu falo de liberdade no futuro, não estou dizendo que o futuro é um espaço vazio no qual iremos simplesmente inserir mais liberdade. Ao invés disso, precisamos de uma ideia de futuro para podermos ser livres. Então, o futuro e liberdade andam de mãos dadas e essa construção de liberdade envolve construir um futuro. 

Agora, eu queria falar um pouquinho sobre o significado da palavra liberdade. Em geral, usamos a palavra liberdade com tanta frequência que nem ouvimos ela. No idioma inglês é usada tanto que se tornou clichê, quando usada é quase que imediatamente ignorada. Isso é uma tragédia, porque a liberdade é um valor, independente de estar na esquerda, direita ou centro, liberdade é um valor que se traduz no valor máximo de todos os valores. Porque isso, o maior de todos os valores? Acho que há muitas coisas boas no mundo. Há muitos valores diferentes no mundo, há valores em pessoas diferentes ao redor do mundo, e a única forma de uma pessoa poder julgar dentre esses diversos valores, é quando a pessoa é livre. Por exemplo, quando que devo ser leal e honesto? Eu só posso tomar essa decisão sendo uma pessoa livre. Escolher poupar ou ser generoso? Só podemos fazer isso estando livres.