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Werner Herzog: “Pirataria tem sido a mais bem-sucedida forma de distribuição global”

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Werner Herzog e Illia Gladshtein no Visions in Nyon
Werner Herzog e Illia Gladshtein no Visions in Nyon

A polêmica frase que encabeça esta notícia veio de um polêmico diretor, Werner Herzog. Mas, não foi apenas pela polêmica – há um motivo.

Sempre antenado ao potencial da tecnologia, o cineasta alemão compartilhou suas ideias sobre a pirataria em abril, em um festival suíço Visions in Nyon. Ele tinha ido ao evento para receber o prêmio pelo conjunto da obra.

Durante a entrega da premiação, o produtor ucraniano Illia Gladshtein comentou com Herzog que só conseguia encontrar os filmes do alemão em sites de torrent ilegais. Foi aí que o cineasta replicou, “a pirataria tem sido a mais bem-sucedida forma de distribuição global.”

Herzog argumentou que ele preferia que pagassem para ver seus filmes, mas, se não é possível encontrar seu trabalho “na Netflix ou na televisão paga, então, recorra à pirataria”. Ele também acrescentou: “se alguém como você quiser roubar meus filmes e colocá-los na internet, tudo bem, lhe darei minha bênção.”

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A fala do cineasta não soou bem aos ouvidos dos estúdios e distribuidoras dos filmes de Herzog, mas pesquisas têm sugerido que a pirataria não representa uma grande ameaça à indústria cinematográfica.

Em 2015, uma empresa holandesa enviou um relatório de 300 páginas para a Comissão Europeia apontando que não havia evidência de que a pirataria prejudicava o lucro da indústria. Este estudo custou 428 mil dólares para ser conduzido, mas os resultados não foram divulgados.

Outra pesquisa, publicada em janeiro de 2019 pela University of Houston e Western University foi além: concluiu que a pirataria tem ajudado os artistas. Este estudo apontou que filmes que “vazam” na internet enquanto ainda estão sendo exibidos nas salas de cinema geram ainda mais comoção nas mídias, elevando o lucro final.

Contudo, não foi o que encontraram os economistas Brett Danaher, da Wellesley College, e Joel Waldfogel da University of Minnesota. Eles avaliaram o impacto do torrent na janela de tempo entre o lançamento de um filme no país original e sua exibição nas salas de cinema estrangeiras – é o período em que o torrent de determinado filme é mais buscado.

Segundo os economistas, obras de ficção científica e de ação sofrem muito mais do que outros gêneros. O levantamento feito em 17 países apontou uma possível queda anual de US$ 240 milhões em receitas de bilheteria de fins de semana.

Este estudo também revelou algo que vai ao encontro da fala de Herzog: as pessoas se voltam para a pirataria on-line quando essa é a única maneira de conhecer um conteúdo. Um exemplo mencionado por Danaher foi quando a NBC, em disputa de contrato com a Apple, recolheu seu conteúdo da loja iTunes. O resultado desta disputa? O tráfico de conteúdo pirata da NBC explodiu.

Por fim, em 2014, o escritor e produtor Stephen Follows resolveu investigar se a “culpa” da pirataria era apenas do público. Ele conduziu entrevistas com profissionais ligados a três dos principais mercados do cinema: Cannes, Berlim e Hollywood. Foram ouvidas 1.235 pessoas de diversos segmentos, como produção, pós-produção, distribuição e marketing.

De modo geral, o que se percebeu é que o assunto divide opiniões mesmo entre os profissionais da área. 50% deles responderam que a pirataria não afetou em nada o seu trabalho, enquanto que 3% disseram que os downloads, na verdade, os ajudaram.

Os profissionais ligados às áreas de venda e distribuição foram os que mais condenaram os downloads: a pirataria digital é considerada seriamente danosa por 18% deles. Apenas 3% têm uma posição positiva sobre os downloads. O dado mais curioso desta pesquisa: 39% destes profissionais admitiram que também baixam filmes ilegalmente.