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Werner Herzog: "Não esperem que os políticos encontrem a solução"

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Werner Herzog no Fronteiras POA (Foto: Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)
Werner Herzog no Fronteiras POA (Foto: Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)

Pela primeira vez em Porto Alegre, o diretor alemão Werner Herzog falou sobre o jeito aventureiro de fazer cinema tanto em Hollywood quanto em produções com orçamentos menores, em que ele mesmo escreve dirige e produz. Herzog é um dos principais nomes do movimento cinematográfico do mundo e lançou o primeiro filme aos 19 anos, em 1961.

O diretor foi o convidado do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre na noite desta segunda-feira (23). Aplaudido de pé pelo público, fez um elogio à iniciativa individual quando falamos sobre mudança climática e sobre o futuro do planeta:

"Na nossa civilização, comece com você mesmo. É muito fácil. Dirija 20% menos. Faça uma reunião online, no Skype. Você não precisa de papel, você não precisa cortar as florestas, você não precisa dirigir até o Rio de Janeiro para se encontrar com alguém. Se você conhece a pessoa, você pode conversar rápido no Skype. Assim, você consegue organizar a sua própria vida, seu próprio consumismo. Comece com a sua própria gestão."

Herzog também falou, obviamente, sobre cinema. O diretor deixou claro, à plateia do Salão de Atos da UFRGS, o que define a sétima arte: não o domínio da técnica, mas sim a compreensão do ser humano.


Herzog é o conferencista desta quarta-feira (25), no Fronteiras do Pensamento São Paulo. Garanta sua participação nos próximos eventos. Além de Herzog, o Fronteiras SP ainda receberá Contardo Calligaris e Luc Ferry.

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Podemos dizer que Herzog não ministrou uma conferência em Porto Alegre, mas sim conduziu uma apresentação inédita no palco do Fronteiras. O diretor preparou trechos de alguns de seus filmes para exibir e comentar. Alguns deles haviam sido gravados nos últimos meses e ainda eram inéditos, como imagens da cratera de um meteoro, registradas com um drone na Austrália.

Ele também destacou a importância da internet para viabilizar projetos alternativos de cinema, mas frisou o valor do contato direto com paisagens e pessoas.


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Após sua fala, Herzog respondeu as perguntas do público presente. Ainda, a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem.

Algumas das perguntas endereçadas ao cineasta tratavam da Amazônia, uma vez que seu clássico Fitzcarraldo (1982) foi dirigido na floresta. Ao responder, Herzog evitou fazer uma defesa inflexível da área florestal e comentou que ainda deseja voltar para a Amazônia e gravar no local.

"Eu sou da Alemanha, país que era basicamente só floresta e nós destruímos todas as nossas florestas para criar espaço para o gado e para a agricultura. Nós precisamos ter muito cuidado ao tomar uma atitude imperialista tentando dizer ao Brasil o que fazer", afirmou, recebendo aplausos do público. Confira abaixo esta e outras respostas

Lembre-se: Herzog estará no Fronteiras São Paulo nesta quarta (25): adquira seus ingressos para São Paulo



Perguntas e Respostas | Werner Herzog no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

Pergunta Braskem: O impacto das relações virtuais beira o irreversível atualmente. O senhor acredita que, com a mistura de fantasia e realidade que lidamos todos os dias, ainda sabemos nos conectar uns com os outros?

Werner Herzog: Claro que sim. Eu vejo vocês aqui, nós estamos aqui nos respondendo. Isso é a base, nós não devemos perder isso jamais.

O Brasil é muito tátil e eu adoro isso. Você está sentado com seus amigos bebendo uma cerveja e as pessoas chegam, imediatamente te tocam, pegam sua mão e dizem: “E aí, Werner! Vem pra Bahia, as mulheres são lindas. Vem, vem!”

O Brasil é lindo nesse sentido, porque as pessoas realmente se tocam. Não é como na França, que todo mundo fala uma língua maravilhosa e fala sobre a beleza da sua retórica.

No Brasil eles te tocam e esse tipo de relação tátil é indispensável. Não há um confronto, é o amor direto. Sem isso a raça humana não seria mais humana.

Sobre a mistura da fantasia com realidade, é como nos sonhos. Nós sonhamos à noite. Eu sou um desses que não lembra dos sonhos. Talvez, por isso que eu tenha me tornado cineasta, porque não sonhar à noite é um defeito. Mas, nós podemos sonhar, fantasiar e alterar realidades. Podemos atribuir afeição às coisas.

Um exemplo: sou uma criança que brinca com um ursinho e o amo. Tenho um sentimento autêntico pelo meu ursinho. Ele não é um ser animado, mas ainda assim é um sentimento verdadeiro.

De alguma forma, esse é o assunto do filme que eu fiz no Japão, Family Romance, LCC. Se você é uma pessoa solitária, nesse filme você pode alugar um amigo que vai conversar com você, vai ao bar com você. Ou no dia do seu casamento, que o seu pai alcoólatra não pode ir, a sua família aluga um pai.

Nesse filme tudo é fabricado, tudo é construído, e ainda assim as emoções são autênticas. Isso é o mais estranho de tudo: descobrir que os nossos sentimentos humanos são sempre autênticos.  

Você traz o conceito de liberdade, abordado a partir de várias perspectivas nas conferências do Fronteiras do Pensamento neste ano. Quando observamos a sua trajetória, você não se rendeu a padrões, a fórmulas, a receitas da indústria audiovisual. Quando se é um cineasta veterano, isso parece mais fácil, mas quando você faz isso desde o início da sua carreira, é mais raro. De onde veio essa força de liberdade para trilhar seu próprio caminho desde o começo da sua trajetória?

Werner Herzog: Nunca me interessei pelo que os outros estavam fazendo, então eu não seguia aquele código de conduta da indústria cinematográfica. Em parte, porque eu cresci sem cinema. Eu não sabia o que era cinema, nem sequer sabia que isso existia até eu ter 11 anos de idade.

Em outras palavras, eu cresci em um local isolado entre as montanhas. Tão isolado que tinha só uma ruazinha e no inverno a gente ficava isolado pela neve, nós não tínhamos água corrente, não tínhamos eletricidade, não tínhamos rádio e no verão eu não usava sapatos, só usava quando nevava. Fiz meu primeiro telefonema com 17 anos de idade. Hoje, as crianças de 4 anos de idade têm celulares.

Então, eu não conhecia o cinema. Quando eu descobri o cinema, tive aquele sentimento de que todas aquelas histórias que eu ouvi quando criança eram muito melhores.

De alguma forma, desde os meus 15 anos eu sabia que um dia eu faria filmes, mas tive que reinventar o cinema, e até hoje eu estou inventando o cinema, por isso que não me importo com o que os outros estão fazendo e como uma história deveria ser contada.

Eu sei que sou um bom contador de histórias e faço isso melhor do que Hollywood. E não estou falando isso só por falar. Hollywood é maravilhosa e incrível em efeitos especiais, e eles têm o que chamam de qualidade de estrela, mas eu tenho em meus filmes as melhores estrelas do mundo também: Nicolas Cage, Klaus Kinski, Donald Sutherland, Christian Bale.

O que Hollywood não faz muito bem é a contação das histórias, que é feita em segunda plano, atrás das explosões, do dragão que voa e dos efeitos.

Hollywood sabe das minhas qualidades enquanto contador de histórias e devido a isso nós temos algumas referências cruzadas e alguns pontos de encontro, mas eu não preciso de Hollywood e eles não precisam de mim. Eu arregaço as minhas mangas e ainda invento o cinema.  

Como um cineasta que faz de tudo, da direção à pós-produção, você pode falar do seu processo criativo? Qual parte te satisfaz mais?

Werner Herzog: Fácil de responder. Tudo o que tem a ver com o cinema me satisfaz. Escrever, dirigir, produzir, editar, criar música, atuar. Tudo o que tem a ver com o cinema não me traz nada além de alegria. Não tem como ser melhor.

Eu não sei o que eu faria se eu vivesse na época da Renascença. Talvez eu teria me tornado um poeta, talvez arquiteto, cozinheiro, astrônomo.... Eu não sei. Mas tudo isso me traz grande alegria e não consigo escolher uma parte que eu goste mais, pois todas estão em uníssono para mim.

Eu vejo o filme inteiro diante dos meus olhos, como se estivesse em uma tela. A edição, por exemplo, é uma parte do que já vi, do que eu filmei, e que agora tem que ser unida. Não é uma tarefa mecânica, é algo que sempre tem muita vida.

Durante a filmagem de um roteiro, permito a vida entrar. Na árvore do lado de fora da casa onde estávamos filmando Vício Frenético, eu vi uma iguana e disse: “alguém pode ir lá fora, subir na árvore e pegar essa iguana para a nós?” Aí alguém foi lá, pegou a iguana e eu pedi que colocassem na mesa. Eu não sabia como esse iguana ia se comportar.

Eu disse ao Nicolas Cage: “Você está vendo essa iguana, porque você está até cheio de cocaína”, e para os detetives eu disse: “Vocês não estão vendo nada. Ele está louco. Não tem nenhuma iguana aqui”.

Eu permiti que algo muito criativo, muito vivo, entrasse no filme em um minuto. Veio de forma muito rápida e eu sempre permito isso. Não tem uma fórmula clara que eu sigo como um escravo, por isso que eu não tenho nenhum storyboard. Eu não gosto de pré-configurar. Acho que isso é um instrumento de pessoas antigas que não conseguem confiar em si mesmas. O storyboard é uma ferramenta dos covardes, não é para mim.

Tenho uma câmera comigo, quase o tempo todo. Se não tivesse muito escuro aqui, provavelmente eu estaria filmando vocês. É assim que eu funciono.


Nessas suas andanças pelo mundo, você tem acompanhado o que está acontecendo na Amazônia? Qual é sua opinião sobre isso?

Werner Herzog: Sim, claro que tenho uma opinião. Sempre tenho tempo para essas coisas. Eu leio sempre. Não há um dia em que eu não leia. Eu digo a vocês que estão fazendo filmes: leiam, leiam, leiam e leiam. Vocês nunca serão grandes cineastas, se não lerem. Você precisa ler. Sei que estou falando para ouvidos moucos, mas tudo bem.

Então, é claro que eu acompanho o que está acontecendo na floresta amazônica. Não só no Brasil, mas na Bolívia também. Eu tenho duas observações a respeito. São observações globais: Não é só a floresta amazônica, é o consumismo, o desperdício de recursos de uma maneira que não é saudável para nosso planeta. Nós estamos nos autodestruindo e essas atitudes fazem parte de uma catástrofe global.

Meu segundo comentário é histórico. A Europa Ocidental eliminou todas as suas florestas nos anos 1980. No Mediterrâneo, na Grécia antiga, no Líbano, todas as florestas foram devastadas na antiguidade.

Eu sou da Alemanha, país que era basicamente só floresta e nós destruímos todas as nossas florestas para criar espaço para o gado e para a agricultura. Nós precisamos ter muito cuidado ao tomar uma atitude imperialista tentando dizer ao Brasil o que fazer.  

Esta permanece sendo uma questão global muito séria, então não podemos subestimar os efeitos disso no Brasil e na Bolívia. O que está acontecendo é algo sistemático de alguma forma, mas eu compreendo que haja milhões e milhões de pessoas sem terra que precisam de espaço para o seu gado.

Nós tivemos o Climate Summit na ONU, vocês viram? Portanto, não esperem que os políticos encontrem a solução. A política está totalmente perdida. Você pode ter o Protocolo de Kyoto, e aí os Estados Unidos fica fora, a Índia fica fora, então, você tem metade da população do mundo que não está nem ligando para aquilo.

É maravilhoso que os jovens de 15, 16 anos estejam protestando, mas eles não devem pedir à comunidade internacional de políticos para fazer alguma coisa, eles têm de começar eles mesmos.

Nós estamos desperdiçando. Os Estados Unidos jogam fora 45% de seus alimentos. Europa Ocidental, 40%.

Pense em um bife. Imagine a quantidade de pasto que você precisa para a vaca, a quantidade de energia que você precisa para transportar a vaca, para matar a vaca, você precisa armazenar aquela vaca refrigerada até o supermercado, você compra o bife, você traz para sua geladeira, e aí você só aproveita 55% dele. Isso é escandaloso.

Eu já comecei a cuidar da minha geladeira. Eu jogo fora uma coisa e outra. Às vezes, eu olho e tem uma salada que está muito ruim e eu jogo fora, mas mesmo assim eu devo jogar fora 3% ou 4% dos meus alimentos, não 40%.

Na nossa civilização, comece com você mesmo. É muito fácil. Dirija 20% menos. Faça uma reunião online, no Skype. Você não precisa de papel, você não precisa cortar as florestas, você não precisa dirigir até o Rio de Janeiro para se encontrar com alguém. Se você conhece a pessoa, você pode conversar rápido no Skype. Assim, você consegue organizar a sua própria vida, seu próprio consumismo. Comece com a sua própria gestão.

Uma vez o senhor disse que uma das maiores riquezas do Brasil era que se falavam mais de 30 línguas indígenas e que a extinção dessas línguas era a maior das tragédias humanas. O senhor está acompanhando isso e pensa em filmar algo nessas tribos ou melhor deixá-las em paz, sem contato?

Werner Herzog: Não, você não pode deixá-los em paz, pois eles já têm contato, com exceção de pequenos grupos tribais que talvez não tenham tido contato com outros, mas praticamente todos já tiveram esse contato.

Vocês podem ver em Fitzcarraldo, que tem indígenas do Peru, e de repente um dos líderes indígenas fala na língua dele e isso não está traduzido. Nós não compreendemos o que ele está falando, mas não tem muito disso nos meus filmes.

No meu filme da Austrália, Onde Sonham as Formigas Verdes, das muitas línguas que eles tinham lá, poucas restam. E aí uma pessoa indígena vai até o tribunal para ser testemunha e o juiz pergunta: “alguém consegue traduzir?”. E ninguém consegue, porque aquela é a última pessoa que ainda fala aquela língua.

Eu tento não me conectar tanto com isso, porque a minha esposa, Lena Herzog, ela fez um oratório de uma hora composto por vozes que não existem mais. Línguas que já estão extintas. Línguas que temos registradas em gravações dos anos 1950, mas que já não são mais faladas. O último falante morreu.

Também temos línguas que já estão com grave risco, que ainda têm duas ou 3 pessoas que falam aquela língua. Então, ela fez esse oratório que é acompanhando de um vídeo contemplativo. É um trabalho lindo. Ela vai mostrar ele em Paris daqui duas semanas e já mostrou no Museu Britânico e no Kennedy Center nos Estados Unidos e eu não quero entrar para o campo de pesquisa dela.

Nos últimos anos eu ouvi 400 gravações diferentes de 400 línguas que não existem mais. Nós temos mais ou menos 6.500 línguas que ainda são faladas e a cada dez dias nós perdemos uma língua.

No final do nosso século, só 10% das línguas restarão. É uma extinção mais dramática e mais catastrófica do que a das baleias ou do leopardo da neve. Claro, eu não quero viver num mundo em que não tenha leopardo, mas não quero viver num mundo em que, enquanto estamos sentados aqui, mais uma língua está morrendo.

Esse é um problema que tenho com o movimento verde, que só pensa em preservar as baleias que estão correndo risco, os pandas, as flores e os répteis, mas ninguém nunca fala sobre as culturas, os humanos, e as línguas em risco de extinção.