José Eduardo Agualusa - A leitura como utopia – Literatura, democracia e justiça social, o caso angolano | Fronteiras do Pensamento
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José Eduardo Agualusa

A leitura como utopia – Literatura, democracia e justiça social, o caso angolano

Um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, o angolano José Eduardo Agualusa é um sonhador. Com uma obra traduzida para mais de 25 idiomas, ele foi finalista do Prêmio Man Booker, pelo romance Teoria geral do esquecimento, e desenvolve uma narrativa construída a partir da poesia. Seus livros, especialmente o mais recente – A sociedade dos sonhadores involuntários –, falam de problemas, de medos, de anseios, de restrições e, principalmente, de otimismo. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, Agualusa partiu da história de Angola para abordar o poder da leitura, a necessidade de democratização e desenvolvimento dos países e o enaltecimento à utopia, numa exposição essencialmente otimista.

Para ele, a leitura da grande ficção universal tem o poder de nos tornar melhores e de aproximar as pessoas. “Acredito que a moderna literatura africana pode contribuir para a democratização e a pacificação do continente. E também para dar uma outra imagem da África, facilitando a integração dos migrantes africanos nos países de acolhimento.” Agualusa citou dois exemplos do uso inusitado e criativo da literatura para a cura dos males do mundo. O primeiro é o livro Farmácia literária, das inglesas Susan Elderkin e Ella Berthoud. A cada verbete, elas indicam leituras para uma injeção de coragem, coração partido, ansiedade e outras situações, numa espécie de biblioterapia. O segundo é o projeto de um sonhador português, Zé Pinho, que pretende inaugurar uma farmácia literária em um antigo hospital desativado. “Muito antes deste livro surgir, eu publiquei um conto sobre uma velha senhora em Benguela, uma das cidades mais bonitas e antigas de Angola. Uma senhora que receitava poesia como tratamento para todos os tipos de males. No meu conto, o narrador ouve falar desta senhora que receitava poesia, e corrige o seu interlocutor. ‘Receitava, não. Ela recita poesia.’ E o homem indigna-se: ‘Não, não, ela realmente receita poemas. Eu sofria de uma angústia persistente, e ela receitou-me alguns versos da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner e, agora, sinto-me muito melhor’.”

Agualusa destacou que a poesia surgiu como uma disciplina da magia. E é por esse motivo que ele continua a acreditar nos poderes desse gênero literário. Ele contou uma história que ouviu do poeta Ferreira Gullar, de um brasileiro que falava apenas de economia e, por conta disso, perdeu a namorada, enquanto estava no exílio no Chile. “Nesse dia, sentou-se como costumava, ao lado do Gullar, mas só falou de poesia. Então, o Gullar concluía que, quando a morena vai embora, a economia não tem serventia alguma. Quando a morena vai embora, só poesia nos pode ajudar. Ou seja, a poesia serve para nos fazer humanos. A economia, sem poesia, isto é, sem coração, sem um grão de humanidade, é exatamente má economia.”

Em 1961, explodiu em Luanda, capital de Angola, uma revolta armada contra o colonialismo português. Agualusa relatou que o despertar do país ocorreu a partir de uma insurreição poética. “Tudo começou com a poesia. Tudo começou com as mais belas canções. Foi nos anos 1940 e 1950 que surgiram em Luanda uma série de movimentos literários envolvendo figuras como Viriato da Cruz, Alda Lara, Ernesto Lara, Mario António de Oliveira, António Jacinto, António Augustinho Neto e tantas outras. Algumas das quais um pouco mais tarde se destacariam como dirigentes políticos. Augustinho Neto, por exemplo, viria a ser o primeiro presidente de Angola. Nestes governos iniciais estariam também António Jacinto como ministro da Cultura, para além de muitos outros poetas e ficcionistas. Estou lembrando de Pepetela, que é bastante conhecido aqui no Brasil e que é um dos autores mais lidos em Angola, que foi também ministro da Educação em Angola, num desses primeiros governos.” Também datam desses primeiros anos as canções do grupo N’gola Ritmos, liderado por Liceu Vieira Dias e de que Agualusa apresentou uma música durante a conferência.

Quarenta anos mais tarde, outro movimento surgiria, pelas mãos de artistas e poetas – com destaque para o rapper Luaty Beirão – que reivindicavam ao país democratização e justiça social. “Em 20 de junho de 2015, Luaty foi preso com mais 12 jovens companheiros enquanto liam e discutiam um livro do pacifista norte-americano Gene Sharp. Os jovens foram acusados de tentativa de golpe de Estado, gerando um forte movimento de solidariedade que envolveu a participação ativa de muitas cenas de escritores e artistas das novas gerações.” O caso, que incluiu uma greve de fome dos jovens e grande repercussão internacional, inspirou Agualusa a escrever o romance A sociedade dos sonhadores involuntários.

Esse episódio ajudou a fortalecer a sociedade civil angolana, que ainda hoje luta para mudar sua realidade. “Há poucos dias, assistindo a um documentário sobre agricultura em Angola, fui surpreendido com a afirmação de uma camponesa. ‘Eu me mexi sozinha’, disse ela. A frase sintetiza, dolorosamente, não só o destino individual daquela mulher, mas a saga da maioria dos angolanos que nascem sozinhos, em condições precárias, sem nenhum apoio, com muito pouco apoio do aparelho do Estado. Também nascem sozinhos no sentido em que se fazem sozinhos. Não só sem o apoio do aparelho do Estado, mas muitas vezes contra o aparelho do Estado.”

Para Agualusa, a guerra civil em Angola teve mais reflexos entre a população pobre, e problemas como a miséria e a corrupção são resultado de uma cultura da exclusão que o conflito ajudou a instalar no país. “Foi mais do que um conflito ideológico, tendo de um lado o regime marxista apoiado por Cuba e pela União Soviética e do outro um movimento de guerrilha que contou com largo apoio norte-americano e também da África do Sul no tempo do Apartheid. A guerra em Angola opôs dois universos distintos historicamente. Antagônicos. O mundo urbano contra o mundo rural. O mundo urbano ganhou. Isso implicou, por exemplo, a afirmação esmagadora da língua portuguesa, cuja expansão ameaça agora vários idiomas africanos.”

Quando o objetivo é combater a corrupção, é necessário fortalecer uma cultura de inclusão, reforçando diferentes estruturas da sociedade civil com abertura democrática, jornalismo independente e criação de fóruns de debates. Algo que está ocorrendo em Angola, sobretudo após o afastamento do presidente José Eduardo Santos, que ocupou o poder durante quase 40 anos. “A literatura tem um papel importante em todo esse processo, desenvolvendo empatia, promovendo o debate, ajudando cada angolano a encontrar-se no coração do outro. Daquele que, até há pouco tempo, era visto como o inimigo.”

O escritor contou uma história de quando a filha visitou a clínica onde nasceu e ficou tão entusiasmada que exclamou: “Uau, quero nascer outra vez!”. Ele pensa neste episódio como um sinal do otimismo crônico dos angolanos, de um país que quer nascer de novo, mas não sozinho. Nesse processo, Agualusa defendeu que os livros podem dar uma contribuição essencial e não poupou críticas ao presidente norte-americano, citando-o como exemplo. “Por outro lado, num tempo como o nosso, da construção de muros, livros operam de forma oposta a essa tendência. Ou seja, erguem pontes. Livros são pontes. Ditadores, torturadores, pessoas que se dedicam a exercer a maldade o tempo inteiro, não costumam ser leitores de ficção. Podem até ser grandes leitores, como Hitler, que gostava de ler biografias e livros de história. Mas raramente leem ficção. Pensemos em Trump, um homem que se vê a si próprio como um construtor de muros. É difícil imaginar Trump a ler o que quer que seja, a não ser os tuítes que lhe dizem respeito, e não consigo de todo imaginá-lo a ler, por exemplo, Cem anos de solidão.”

Levando em conta o ano eleitoral do Brasil, o escritor também defendeu que os países democráticos estariam melhores se os políticos fossem obrigados a apresentar, além da relação de rendimentos, uma lista dos livros de ficção lidos. E se os leitores, no momento da escolha, dessem preferência aos políticos leitores em vez de votar em políticos que declaradamente desprezam a literatura.

É também, por meio da literatura que a África mostra um outro rosto que ultrapassa aquele construído pelo Ocidente. “Os livros ajudam a humanizar os milhares de migrantes que todos os dias desembarcam na Europa em busca de uma vida melhor e tantas vezes são olhados com desconfiança ou desprezo. Se há algo em comum na obra dos escritores africanos das novas gerações é o otimismo, a ironia, a alegria, a paixão pela vida.”

Agualusa destacou que essa paixão é uma oposição direta ao afro-pessimismo prevalecente nos países ocidentais. E contou de quando, no século VI, o papa Gregório I reduziu os oito pecados capitais para sete, perdoando a melancolia. “Os sábios da Igreja Católica consideravam que a melancolia obstinada – que hoje chamaríamos de um estado depressivo crônico ou um pessimismo persistente – ofendia o Senhor Deus, pois o indivíduo melancólico perde toda a alegria, isola-se, revolta-se contra os outros. Eventualmente, suicida-se e, ao fazer isso, desdenha o milagre cotidiano da vida. Resumindo: despreza a obra de Deus.”

O pessimismo, ele continuou, é um filho bastardo da melancolia, considerado uma espécie de adorno arrogante, que alguns pensadores colocam na lapela para parecerem inteligentes. “A mim, pelo contrário, parece-me que o pessimismo é uma facilidade do espírito, uma preguiça do pensamento, um luxo dos povos felizes. Difícil é ser otimista. Urgente é ser otimista. A moderna literatura africana reflete no seu otimismo o sentimento que domina o continente, não obstante as tragédias e dificuldades. Acordamos, lemos os jornais e rimos daquilo que faria chorar um sueco ou um holandês. Rimos porque, apesar das notícias nos jornais, estamos vivos. Continuamos vivos. Rimos porque respiramos. Rimos porque escutamos no quarto ao lado as gargalhadas dos nossos filhos. Rimos porque podemos dançar. Rimos porque a esperança se alimenta do riso. Rimos porque o humor é subversivo. Rir é resistir.”

Segundo Agualusa, a melancolia é uma forma de desistência. “A melancolia é uma cegueira que nos impede de ver o evidente. O evidente, o óbvio, é a vida que fervilha em redor. O óbvio são as possibilidades mesmo quando tudo à nossa volta parece impossível. O riso, escreveu Eça de Queirós, é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passa-se sete vezes uma gargalhada em torno de uma instituição, e a instituição cai. Uma boa gargalhada, contou Nabokov, é o melhor dos pesticidas.”

Na última parte da conferência, ele acrescentou que a literatura pode auxiliar países como Angola e Brasil, com democracias ainda não consolidadas ou ameaçadas e divididos socialmente. O grande desafio é levar o livro à maioria da população, com investimento na educação básica e em bibliotecas públicas e no apoio a editoras e livrarias. “No princípio era o verbo. No fim será também o verbo. A subversão virá pelos livros. Podem prender os livreiros, podem prender editores. Podem prender até milhares de leitores. O livro, este simples agente subversivo, este sereno vírus infeccioso, não deixará nunca de circular. O livro e a sua surda obstinação pela liberdade.”

Todas as pessoas deveriam ter acesso ao livro, como deveriam ter acesso a água potável, pois, se a literatura desenvolve nas pessoas o músculo da empatia e as torna melhores, as bibliotecas públicas podem ser consideradas armas de construção massiva e instrumentos poderosos no desenvolvimento individual. “O combate pela democratização, pela pacificação e pelo desenvolvimento de países como Angola passa, sem qualquer dúvida, pela criação de boas redes de bibliotecas públicas capazes de levar os livros aos seus leitores. O meu melhor sonho, e eu sonho muito, é o de contribuir para que em Angola se criem boas redes de bibliotecas públicas. E não só em Angola, mas em todos os países africanos. E não só na África, mas também no Brasil. Como no mundo inteiro”, finalizou. 


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