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Paul Zak

A molécula da moralidade

Paul Zak usou seu famoso charme na conferência de encerramento da edição 2013 do Fronteiras do Pensamento ao discorrer sobre a oxitocina. Apelidado de “Dr. Love", o economista se debruçou nos últimos dez anos em pesquisas sobre o papel da molécula nas relações humanas. Zak é um dos fundadores do Centro de Neuroeconomia da Universidade de Claremont, no qual investiga a relação entre o funcionamento do cérebro e o comportamento econômico.

Sua conferência teve início com o caso de “Lisa", 40 anos, interna de um presídio. A Paul Zak foi solicitado que a avaliasse e procurasse entender como mudar o curso de sua vida. Lisa, que foi presa pelo uso de drogas, tornou-se usuária aos 13 anos de idade por influência de sua mãe. Sua vida teve uma queda exponencial a partir daquela idade. O neuroeconomista se perguntou como uma mãe não consegue demonstrar amor ou ter a decência de cuidar de seus próprios filhos.

Aquela pergunta está na base de suas pesquisas. Os seres humanos, diferentemente de outros animais, não são hostis com aqueles que não conhecem, preocupam-se com pessoas em todo o mundo e amam seus filhos, cuidam deles. Todavia, apesar dessas características da espécie, há casos nos quais elas não estão presentes.

A oxitocina é encontrada nos mamíferos e era considerada um hormônio feminino, que não tinha utilidade fora do ato de reprodução. Zak havia encontrado certa literatura que identificava o aumento de oxitocina durante o encontro de animais com seus familiares, e rumou para a pesquisa acerca da função da molécula.

Seus amigos, contudo, o desencorajaram, pois a oxitocina era vista como algo feminino e não relacionado a toda a espécie, sendo considerada residual nos homens. Ainda assim, decidiu fazer experiências em homens e mulheres, fora da reprodução e do nascimento, para verificar “se a oxitocina poderia facilitar não apenas o sentido de segurança, mas uma real preocupação pelos outros", explicou o conferencista.

Uma de suas primeiras pesquisas se deu em um casamento. Amostras de sangue foram recolhidas de diversos participantes da cerimônia e foi constatado aumento nos índices de oxitocina nos noivos e seus pais, sendo na noiva e sua mãe os maiores índices. Os níveis de testosterona do noivo não se elevaram durante o casamento, mas sim ao final, quando sua mente já se direcionava à lua de mel.

A liberação da molécula fez com que os noivos e seus pais se sentissem fisiologicamente ligados. Paul Zak acredita também que a liberação de oxitocina na cerimônia é fator determinante para os casais manterem-na em vez de apenas firmar o contrato e morar juntos. “As pessoas acabam querendo essa emoção elevada na hora do casamento", comentou em vídeo exibido durante a conferência.

A empatia estaria, portanto, diretamente relacionada ao volume de oxitocina que o cérebro produz. Em situações nas quais há envolvimento de dinheiro, por exemplo, pode ser observada maior quantidade do hormônio em pessoas que têm facilidade em partilhá-lo. Para coletar amostras de sangue para seus experimentos, Paul Zak oferecia uma determinada quantia em dinheiro à pessoa e arguia se ela pretendia partilhá-lo com outros membros de seu laboratório ou se gostaria de mantê-lo para si. Os índices maiores de oxitocina foram encontrados naqueles que confiavam em suas equipes e queriam compartilhar o dinheiro.

“Pensemos na oxitocina como um agente químico de resposta ao ambiente social. Nós somos seres sociais, e ela me diz se eu devo ficar com medo ou me envolver com uma pessoa. Se há muita liberação de oxitocina, é porque eu gosto muito de você, eu gosto mesmo de você", argumentou.

O conferencista aposta ainda na relação existente entre a oxitocina e a moral, entendida não em sua dimensão religiosa e sim no que se refere ao comportamento frente aos outros. Adam Smith (1723-1790), em A teoria dos sentimentos morais de 1759, já afirmava que somos seres sociais e compartilhamos emoções, esperamos reciprocidade e empatia. O autor escreveu essas ideias antes da publicação de A riqueza das nações, e foi a primeira teoria de moralidade que não recorria a Deus para discutir sobre nossas ações.

“Smith não tinha provas ou dados, apenas sua intuição. De fato, conhecendo este mecanismo, esta molécula, eu posso fazer uma série de outras perguntas. O que a faz aumentar, o que a diminui, por que funciona em alguns e não funciona em outros?"

Já existe oxitocina sintética e um spray que pode ser usado para causar seus efeitos. Todavia, “a maneira de melhorar a sociedade não é drogando as pessoas". Ademais, a oxitocina não funciona isoladamente, pois faz parte de um circuito maior que inclui a produção de dopamina e serotonina. Em conjunto, trazem sensações benéficas tanto em relação a nós mesmos quanto aos outros.

O stress, por outro lado, opera como um inibidor desse processo, pois ele aciona o modo de sobrevivência. Em situações de risco, sobreviver implica não enxergar o outro, deixá-lo para trás, ser rude com ele etc. “Isso não significa que você é uma pessoa ruim, mas apenas que você teve um mau dia", ressaltou. São momentos pouco raros na atualidade, que podem ocorrer no lar, no trabalho, no trânsito e nos transportes públicos.

Outro inibidor de oxitocina é a testosterona. Altos níveis deste hormônio inibem sua produção. Por consequência, pessoas que apresentam altos níveis de testosterona são pessoas mais egoístas, que exigem mais dos outros. “Garotos de 15 anos, que todos nós já fomos, são as criaturas mais egoístas do planeta", brincou o conferencista. Os altos níveis de testosterona dificultam a interação social empática.

Em determinada pesquisa, foi encontrado um garoto com baixíssimo índice de oxitocina. Acompanhando seu comportamento, foi percebido que ele se assemelhava muito a um quadro mental psicopata, caracterizado principalmente pela falta de empatia. “Ele não pensa em como tal pessoa é legal, mas como ele pode usá-la para atingir as suas metas, como roubar seu carro ou sua namorada", exemplificou.

Uma pesquisa realizada com 161 psicopatas em Wisconsin identificou que eles não produzem oxitocina. “Não é o nível de oxitocina o problema, são os receptores que estão danificados. Eles não processam as coisas como nós", concluiu Zak, e acrescentou que 2% da população norte-americana possuem esse perfil, e 30 a 40% da população carcerária do país também.

Adentrando no âmbito religioso, constatou que a produção de oxitocina era alta. Os rituais engendram um senso de comunidade que está intimamente ligado à produção do hormônio. As pesquisas foram realizadas tanto em comunidades religiosas norte-americanas quanto em tribos indígenas tradicionais, com pouca ligação com a sociedade moderna. “O ritual afeta o cérebro, que afeta como eles se sentem em relação aos outros", explicitou.

Com mais amor e, consequentemente, mais ciclos de liberação de oxitocina, podemos ter uma vida melhor. “Vamos nos conectar mais, seremos mais cuidadosos, teremos mais paixão e mais felicidade", concluiu o conferencista.

O debate foi mediado por Silio Boccanera, que trouxe provocadoras questões sobre as pesquisas com a molécula. Logo no início, o jornalista arguiu: se a oxitocina sintética pode provocar uma empatia temporária que torne estranhos como membros de nossa família, a solução para a nossa sociedade seria algo como espalhá-la na água potável? “Eu costumo dizer que prefiro abraços a drogas", brincou Zak, e recorreu à sua mudança de postura como exemplo de melhora.

Questionado, o neuroeconomista disse que o nível de oxitocina tende a ser maior nas mulheres do que nos homens. Todavia, uma vez por mês são liberados hormônios que inibem a oxitocina. Já no período de ovulação as mulheres se tornam “mais aventureiras" e, consequentemente, apresentam índices mais elevados de oxitocina.

Ao abordar a oxitocina e a testosterona no mercado competitivo, Paul Zak destacou uma experiência realizada na bolsa de valores, um ambiente agressivo onde um ganha enquanto outro perde. Foi dada testosterona a um grupo de alunos, e eles foram jogar em ações. “Quem tinha mais testosterona ganhou muito menos que os que tinham baixa testosterona, porque aqueles eram loucos, os preços subiam e eles ficavam comprando, os preços caíam e eles vendiam loucamente. Isso tem a ver com o risco de retorno. Deve haver, portanto, um equilíbrio entre você e o outro, e a oxitocina diminui a diferença entre você e o outro, enquanto a testosterona aumenta essa diferença", resumiu.

Paul Zak apontou ainda que, de acordo com pesquisas por ele realizadas, mesmo interações em redes sociais digitais aumentam os níveis de oxitocina e podem, de certa forma, ser substitutos de relações presenciais, uma vez que a produção do hormônio está relacionada à interatividade.

Boccanera perguntou se outros laboratórios estão habilitados a fazer pesquisas sobre os níveis de oxitocina. “A resposta é 'não'. É muito delicada, a maior parte dos laboratórios não consegue", colocou o conferencista, e indicou que o protocolo por ele elaborado para as pesquisas não foi possível de ser realizado mesmo em laboratórios do governo norte-americano.

Por fim, o jornalista perguntou se aproveitadores não poderiam fazer mau uso do hormônio, espalhando oxitocina sintética em um shopping center, por exemplo. Zak diz que isso não seria ético e que as estratégias para estimular a produção de oxitocina em nós já são usadas por vendedores. O que a oxitocina sintética faz é dobrar certas ações que influenciam o cérebro.

A edição 2013 do Fronteiras do Pensamento foi encerrada com esta novidade da pesquisa científica, a investigação acerca de uma molécula que está presente em nossos afetos, senso de comunidade, prazer, segurança e empatia. Com polêmicas e lacunas dentro desse escopo, Paul Zak parece ter expandido o conhecimento sobre o funcionamento de nosso cérebro, e os desdobramentos que a “molécula da moralidade" terá no campo das ciências poderão ser mais extensos do que um primeiro olhar pode sugerir.


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