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Mia Couto

A peneira e a água

Diante de uma grande plateia, formada por diferentes histórias pessoais e escondidas na penumbra velada do Teatro, ele paira sob a luz do proscênio e se aproxima de cada um. Mia Couto desveste a conferência e, com a sutileza do homem sensível que é, promove um sussurro poético, aconchegando sua voz ao lado daqueles que o escutavam.

O público contou com um encontro único, intitulado A peneira e a água. O escritor moçambicano subiu ao palco com um texto nas mãos, preparado especialmente para o Fronteiras do Pensamento. Confessou “que o lugar do escritor é um lugar mais recatado, que não é o palco". Sua fala criou atmosfera íntima, tal qual uma conversa em pequena sala, e, uma vez que suas palavras não eram a defesa de uma tese ou hipótese, mas uma composição artística de memórias e histórias, o presente resumo foi elaborado como uma lembrança de uma conversa, na qual emergem partes de um todo em uma tentativa de resgatar aquele que foi um momento único e irreversível.

Para falar de memória, Mia Couto confessou, por meio de versos, que ela é algo que lhe escapa: “De que vale ter memória, se o que eu mais vivi foi o que nunca se passou". A memória, muitas vezes, é concebida como uma reconstituição factual e objetiva, que “não quer ser parente das histórias (ou das estórias, como escreveu Guimarães Rosa). Ela quer ser parente da História".

Para falar de histórias, disse que tal tarefa é algo de triste de se fazer, “como ter que explicar uma anedota a quem não achou piada". Portanto, “não se fala de histórias a não ser por via das próprias histórias".

O escritor bordou a noite com estórias, este algo que está nos genes humanos, e memórias que não eram uma das muitas versões do passado. São memórias individuais, “que não precisam atestar provas de veracidade", mais caseiras e cotidianas, feitas de ficção e lembranças que são inventadas. São o entrelaçamento daquilo que constitui os pilares de sua existência.

“Todos os dias eu luto para acordar", iniciou Couto, que trouxe consigo os versos de João Cabral de Melo Neto: “Acordar não é de dentro, acordar é terceiro"; e de Fernando Pessoa: “Que bom é ter uma coisa para fazer e não afazer".

“Na meia-luz entre sono e vigília, ocorrem ideias, soluções para a escrita e para vida."

Ao contar os sonhos ao acordar, criamos uma ficção, reelaborada no momento em que são revisitados, se tornam reescrita do que se pensa ter sonhado. “De fato, nenhum sonho pode ser reescrito, um sonho pede uma linguagem que não há, que é a linguagem dos sonhos, e para se ter acesso a essa linguagem só há uma via, uma porta, que é a porta da poesia."

“O sonho é um parente muito próximo da memória. Os sonhos só existem na impossível lembrança que nós temos deles. Ninguém se lembra exatamente o que sonhou, porque em grande parte todos nós sonhamos o que lembramos."

“Histórias e memórias são duas margens de um mesmo rio, que é o nosso tempo interior."

Mia Couto escolheu alguns momentos para brindar o encontro, que são como rituais de iniciação e ritos de passagem:

1. Casa

“Seguimos chamando 'nossa casa' a nossa casa de infância ainda que não vivamos mais nela. Confirmamos assim que o importante não é casa onde moramos, mas onde em nós a casa mora."

“Todas as noites meus pais sentavam na cabeceira da minha cama e inventavam lembranças, entoavam canções, recitavam poemas (meu pai era um poeta)... e o que me fascinava não era o conteúdo dessas histórias, o que me recordo era do momento em si mesmo, de ter o meu pai e minha mãe por inteiro, só para mim."

“Sou filho de imigrantes, mas também sou filho de histórias."

2. Cozinha

“Sentado no chão da cozinha, eu fazia os deveres da escola."

“No interior da cozinha acontecia um deslumbramento tão fascinante como era o brincar na rua. Porque havia uma grande mesa no centro e ao redor dessa mesa havia mulheres que circundavam, cirandavam, às vezes me pisavam os dedos, às vezes tropeçavam nos meus cadernos de escola. E eu ficava a olhar daquele plano, do chão, as longas saias rodando como se fossem cortinados assoprados por uma qualquer misteriosa brisa."

“Era como se houvesse uma dança, como se bailassem ali divindades, e havia mãos que transitavam entre a terra, o fogo e a água. E o mais importante é que essas mulheres falavam em sussurro, murmuravam coisas, trocavam segredos, contavam mistérios."

“Foi ali, nesse chão, que eu me fiz poeta."

3. Rua

“A rua que passava em frente à nossa casa tinha um serviço: dividir África e Europa. E era assim que queria um mundo arrumado: do lado de dentro, morava um único deus, com os livros como única fonte de saber, morava a narrativa portuguesa; do lado de fora, ficava a África, convertida numa espécie de uma mera paisagem, como se fosse um filme que não tivesse atores, mas só figurantes, e falava em outras línguas e rezava a outros deuses."

“Essa linha divisória não serviu quase de nada. A África era grande demais para ser barrada na porta de entrada."

“Atravessei essas fronteiras da rua, do idioma e da raça. E essas fábulas povoaram as minhas crenças e os meus sonhos."

“Meu pai percorria a ferrovia e ciscava no chão catando pedrinhas que eram minérios brilhantes que tombavam dos trens. Ali, eu via uma coisa que não era exatamente uma tarefa de um adulto, um afazer de um adulto, porque estávamos em plena guerra colonial. O mundo rasgava-se ao meio e havia esse homem que coletava pedrinhas ao longo das linhas."

“De repente, eu descobria em meu pai um outro em mim. Havia ali uma espécie de cumplicidade, um convite para um jogo, a meias desobediências. E havia uma outra coisa, aquele garimpo era meio clandestino, porque minha mãe não podia saber disso. Dava-lhe tanto prazer que eu percebia que, esgravatando entre o chão, não eram exatamente pedras que ele encontrava, havia ali um tesouro que não tinha nome."

“Desse modo, ele criou em mim uma relação com as coisas desvalidas, com essas pequenas coisas que só têm brilho porque nós lhe emprestamos um pedido qualquer interior que desconhecemos."

“Essa poesia vai ser reencontrada muito tempo depois, em Manuel de Barros e nesse longo elogio dele às coisas que parecem ser só poeira e parecem ser só lixo."

4. Falas e os tempos da terra

“As culturas de Moçambique têm um chão comum que é diverso, diferente do que se passa na maior parte dos países, porque é o chão da oralidade."

“Em Moçambique, essa fronteira entre o que é real e é surreal tem outro contorno, e não interessa saber se é verdade, mas se é bonito, como se a beleza fosse um critério de verdade."

“Todo esse universo tem uma outra ideia de tempo, que não é o tempo linear, que é o tempo mais comum, é o tempo circular, em que nem sequer existem palavras na maior parte das línguas para dizer futuro."

“É absolutamente vital em Moçambique que esses processos [de oralidade] saltem dessa zona não visível para a multiterritorialidade da escrita. Aqui a literatura tem um papel. É preciso que os escritores façam essa ponte, traduzam essas linguagens, de maneira que nunca mais se repita a guerra no nosso país."

“Eu entendo alguma coisa hoje, que não somos nós que guardamos lembranças. É ao contrário, são as lembranças que nos guardam. As nossas memórias, que parecem tão etéreas e tão fragmentadas, são, afinal, uma mão de costureira, que nos dá esse sentimento de totalidade daquilo que somos."

“É uma queixa comum que não temos tempo pra nada, mas nós não precisamos de mais tempo, precisamos sim de um tempo que seja nosso. Não é uma questão de quantidade, mas de soberania. Seremos soberanos da nossa própria vida se soubermos reencontrar, redescobrir esse namoro e essa intimidade com o tempo."

“Essa relação íntima é algo altamente subversivo. É tão perigoso quanto qualquer ato de indignação pública. Nos dias de hoje, a preocupação não é tanto viver essa intimidade do instante, mas registrar o que se está a suceder em uma imagem, numa fotografia, num vídeo."

“Não estou a fazer uma apologia nostálgica do passado e ninguém pode negar as vantagens óbvias dessas tecnologias, mas a questão é outra, é saber se nós guardamos o nosso lugar de autor de uma narrativa que possa nos fazer mais humanos, mais coletivos e mais solidários."

“Eu retomo Manuel de Barros, esse verso que ele fez quando a mãe reconheceu nele a condenação da poesia. A mãe diz 'meu filho, você vai ser poeta, você vai carregar água na peneira a vida inteira'. Essa peneira pode ser a memória, a água seria, neste caso, as histórias, ou poderia ser o inverso, pouco importa. O que importa é que esta metáfora do carregador de águas sugere um olhar poético para entender e mudar o mundo."

“Nós temos essa percepção de que o mundo é uma maquinaria concreta, real, material, poderosa, e ficamos mais ou menos esmagados por esses mecanismos cotidianos com que ele se manifesta. Mas é preciso perceber que o mundo é isso, mas também é outra coisa, o mundo é uma história, uma ideia, uma memória. E temos que o tratar assim mesmo, como algo que mora dentro de nós, como algo que é tão frágil e tão contingente como essa coisa tão inventada da peneira que carrega água."

“Eu acredito que as pequenas coisas podem ter mais efeito que as mais espetaculares."

Mia Couto, sob a mediação do jornalista Fábio Victor, discorreu ainda sobre política, Moçambique e a guerra civil, o debate entre poesia e prosa, a escrita poética, o feminino em O fio das miçangas, sua obra de ficção em processo que trará a figura do monarca Ngungunhane, o acordo ortográfico da língua portuguesa, a relação entre o Brasil e os países lusófonos africanos, sobre ser um “ateísta não praticante", e deu conselhos a jovens escritores.


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