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Camille Paglia

Arte, cultura e feminismo

No quinto encontro da temporada 2015, o Fronteiras do Pensamento recebeu em seu palco a ensaísta e crítica cultural estadunidense Camille Paglia. Em uma noite especial, privilegiando o debate, a conferencista respondeu perguntas sobre diversos temas que parecem ter como elo a crise espiritual contemporânea.

Declínio da cultura ocidental

A história é cíclica, e a atualidade aponta para o declínio de nossa sociedade. “Estamos em um momento muito arrogante. Um grande número dos meus colegas liberais parece acreditar que a história se estrutura em um padrão ascendente progressivo, levando a uma utopia futura. Isso me parece uma ilusão sem o menor respaldo das evidências históricas", colocou Paglia, relembrando, como exemplo, o declínio do Império Bizantino.

A sociedade ocidental, estruturada sob os pilares da cultura greco-romana pagã por um lado e pela judaico-cristã por outro, parece estar perdendo este seu fundamento no pensamento contemporâneo (com destaque para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha). Nas universidades não apenas alunos se distanciam desse conhecimento, como os professores também.

A conferencista relatou um episódio que ocorrera há 15 anos no qual trabalhou com seus alunos o negro spiritual (música gospel dos escravos negros norte-americanos do final do século XIX e início do século XX) e como as narrativas bíblicas foram utilizadas como meio de contar sua própria história. A surpresa foi grande quando apresentou a canção Go Down, Moses e os alunos desconheciam quem havia sido Moisés.

“Hoje em dia, é popular você projetar um ateísmo cínico, que promulga que a religião é o ópio das massas. Eu sou ateia, mas eu respeito grandemente a religião. O estudo da religião já deveria estar no âmago de um currículo multicultural em todo o mundo. Acho que o conhecimento das grandes tradições religiosas deveria ser um pilar fundamental da formação de qualquer pessoa", criticou.

No mundo da conectividade social, os jovens tendem a estar absortos da cultura. A despeito das vantagens que o mundo digital promove, as grandes obras de arte e literatura de nossa cultura não têm mais o apelo de épocas anteriores, “porque agora temos esse mundo instantâneo das mídias sociais", ressaltou Paglia.

Tudo está sucumbindo por excesso de individualismo

A luta pelo individualismo a partir dos anos 1970 levou a uma política da identidade, que inicialmente era libertadora, mas com o tempo se tornou uma prisão. “O culto do eu e do individualismo está muito limitado. Na história, os períodos mais felizes são aqueles nos quais os indivíduos se sentem partícipes de uma missão maior, de algo maior do que si mesmos". Vivemos um período em que não há o apelo de uma causa maior, de uma voz artística heroica, um período de grande desilusão com o governo e com um forte senso acerca da corrupção no mundo financeiro.

A atomização do indivíduo contemporâneo remete ao período helenístico grego, de grande prosperidade, lazer e normas menos rígidas. “No estudo de história, vejo que os períodos de individualismo são inicialmente muito inebriantes, porque o indivíduo se liberta, mas depois vem a ansiedade, nada limita sua individualidade, acarretando um estado de grande nervosismo e infelicidade." Este fenômeno, que se repete nas classes mais abastadas nos Estados Unidos, se reflete no largo e crescente uso de medicamentos para os jovens (como antidepressivos). “Há muitos tremores de ansiedade e incerteza nesses períodos de individualismo", concluiu.

A arte seria uma saída?

A vida intelectual estaria demasiado vazia e a arte poderia ser um medicamento para a doença espiritual da atualidade, especialmente em seu caráter transcendente. Ainda que este caráter esteja possivelmente enraizado em uma visão antiquada da arte, ela é significativa para o contexto. A arte e o diálogo entre artistas de diferentes séculos está sempre em andamento.

“É isso que eu quero oferecer aos jovens. Uma vez que você mergulha na arte e se abre pra ela, emerge uma energia tremenda que se percebe, quase como se fossem os ventos da natureza. Algo pelo qual você pode se guiar, se orientar e que é algo compartilhado. Hoje, todavia, temos uma arte corrupta nas universidades, subordinada à ideologia política."

Os jovens estão fazendo sua própria arte, com seus apps, redes sociais e dispositivos móveis. Entretanto, é uma forma limitada de arte, sem um diálogo com os possíveis públicos e o aspecto perene da produção artística, em uma cadeia histórica de relações inerentes ao campo da cultura. “A arte é uma saída para esse vácuo que vivemos em uma cultura pós-religiosa", defendeu.

A arte em tempos de impaciência

Prevalece uma grande impaciência que inibe o contato com obras de arte mais complexas. É raro encontrar um jovem que se sinta atraído por obras de grande complexidade ou leituras de obras literárias longas. Geralmente, preferem algo que seja rápido e fácil.

Paglia vê com preocupação o espírito apolíneo dos jovens que vivem orientados para o prazer, sem se envolverem com alguma causa ou estarem dispostos a sacrifícios. Esta geração poderá prover líderes políticos capazes de lidar com a questões complexas, como a guerra e a diplomacia?

As aulas de arte nos Estados Unidos estão perdendo a relação com o legado cultural e estão mais focadas nos processos de criação, conquanto estas deveriam ter uma abrangência histórica (para além da criação artística) e multicultural (para além da produção ocidental). Ademais, a fruição estética contemplativa está se perdendo em tempos de impaciência.

Há uma sabotagem do significado, do caráter semântico, no estudo da arte nas universidades, perpetrado pela perspectiva pós-estruturalista, que acarreta em intensa diminuição do valor da arte para os jovens.

Engajamento espiritual dos artistas

Para a escolha das obras que compõem seu livro Imagens cintilantes, Paglia considerou que esta seria uma publicação da história dos estilos, a dimensão estética da arte, voltada para o público em geral. Ela se consolidaria, portanto, com uma densidade menor do que um livro especializado de história da arte.

O critério de escolha recaiu também sobre o engajamento espiritual dos artistas. A ensaísta considera este um ponto negligenciado por muitos teóricos. “Tive surpresas, como Mondrian, muitas vezes mencionado como um artista abstrato, em última análise, sem nenhum elemento pessoal fora da grade e dos blocos de cor. Mas seus cadernos revelam que cada marca tinha para ele um significado espiritual cuidadosamente contemplado. Este aspecto foi apagado pelos historiadores da arte, que são niilistas, são antirreligião e ficam envergonhados com perspectivas espiritualistas", criticou.

Durante o processo de escrita, Paglia teve contato com a saga Guerra nas Estrelas, de George Lucas, enquanto pesquisava uma nova obra para entrar em seu livro. Ignorado pela classe intelectual, a escritora encontrou em seu trabalho algo valioso que o destaca em relação a outras produções cinematográficas. “A cena do planeta dos vulcões, em A Vingança dos Sith, é como uma grande ópera, tem grandes paixões ali, uma escala épica e avassaladora (...). George Lucas tem uma grande imaginação, que não foi superada por nenhum outro criador contemporâneo, mas as pessoas não o levam a sério. A saga teve um impacto global e que atravessou gerações. A questão espiritual se faz presente no embate das forças do universo."

As ruas e o mercado da arte

O mercado de arte contemporâneo teve grande impulso, e valorização capital, a partir de Jackson Pollock e Lee Krasner. “Os preços da arte contemporânea subiram muito, atraindo pessoas ricas que queriam usar a arte como investimento sem necessariamente uma apreciação artística do que estavam adquirindo." A primeira geração a se beneficiar do novo status foram os pop artists. “Muito da corrupção do mundo da arte vem, inevitavelmente, da forma como a arte se tornou simplesmente um investimento de gente ligada apenas ao valor monetário das obras. Muitas vezes, nem sabemos quem está comprando e para onde estão indo essas obras de arte por causa desses investidores. Hoje a arte só é notícia quando um quadro é vendido por um valor extraordinário, quebrando todos os recordes, ou quando uma obra de arte é roubada. É só assim que as pessoas tomam conhecimento da arte por meio da mídia."

Já a arte urbana tem a seu favor o contato com o povo nas ruas e não em espaços institucionalizados. Artistas como Banksy são heróis para as novas gerações. Os grandes painéis com arte urbana produzida pelas comunidades negras, latinas e minorias étnicas na Filadélfia se tornaram, inclusive, atrativos turísticos da cidade. “A street art é um dos gêneros mais importantes da nova geração, apresentando diversos estilos, promovendo manifestações de guerrilha, insolência, humor e sabotagem. Gostaria que houvesse mais disso na arte mais estabelecida."

Feminismo

“Eu me vejo como uma feminista radical. Tem gente que acha que eu sou antifeminista, mas eu publiquei uma carta na News Week, em 1973, protestando que a URSS havia enviado a primeira mulher para o espaço e nos EUA não havia mulheres no programa espacial".

O feminismo como movimento político organizado, marcadamente dos anos 1920 e 30, some por mais de 40 anos até a segunda onda do feminismo. “Na década de 1960, Betty Ford fundou o feminismo com um homem, com o objetivo de trazer os homens para o feminismo, e eu concordo com ela, devemos trazer homens e mulheres de todas as inclinações políticas e religiosas, assim como as mães, para fazerem parte do movimento."

A nova geração elegeu a mulher profissional como meta, e com isso uma diminuição do respeito pelas mulheres religiosas e que queriam ser mães. Paglia luta pela liberdade sexual, sem atacar, por exemplo, a indústria da moda, que está relacionada à beleza, um elemento presente em todas as épocas e não opera na era moderna somente algo que denigre as mulheres. “Eu lutei pelas estrelas de Hollywood e pela pornografia. Há um puritanismo residual no feminismo estadunidense que ressurge periodicamente e do qual eu me coloco em oposição".

A escritora reafirma que a meta do feminismo é o empoderamento da mulher e o rompimento das barreiras para o seu avanço, social, profissional ou político.

“A segunda geração do feminismo tem uma preocupação justificada com a carreira, mas tendeu a subestimar o interesse natural que muitas mulheres têm em ter filhos e cuidar deles. Eu adotei uma visão do transgênero, todavia não ignoro que existem dois sexos. Eu acredito na biologia, na natureza, nos hormônios, a questão de gênero não é apenas linguística ou cultural, nós temos esses impulsos físicos que nem entendemos completamente. Eu acho simplesmente natural que algumas mulheres queiram ter filhos, que se sintam ligadas a eles e não queiram voltar ao mercado de trabalho para ficar com eles em vez de pagar alguém para tomar conta da criança ou passá-la a outros familiares. Há impulsos instintivos na reprodução tanto para homens quanto para mulheres que precisam ser respeitados dentro das teorias feministas", argumentou Paglia.

As mulheres podem fazer diferentes escolhas, trabalhar e ter filhos, apenas trabalhar, viver para a maternidade, ter seus filhos quando jovens para então seguir uma carreira, e a sociedade contemporânea precisa de instituições que permitam essa multiplicidade de escolhas. A escritora critica posturas que tomam por base a obra de Michel Foucault, que apontam um esforço de tirar as mulheres do mercado de trabalho.

Pós-feminismo e liderança política

Camille Paglia defende que o feminismo passou por diversos ciclos, com ideias mais ou menos organizadas, e que não existe um “pós-feminismo". Um elemento importante do atual ciclo do feminismo é a educação das jovens mulheres e da liderança política.

“Qual seria a persona adequada que uma liderança feminina deve ter?", indagou. Em gerações anteriores, havia personas como Golda Meyer, que traziam o símbolo da mãe judia, da classe operária e do sofrimento de um povo. Como decorrência da nova teoria feminista nas universidades estadunidenses, as jovens estão se identificando com lideranças de caráter mais burguês, como a cantora Taylor Swift, “aquela garota toda controlada, toda adequada, totalmente reacionária".

A escritora relembra que a persona feminina de sua época era mais rebelde, agressiva. Carece a elite estadunidense de personas que possam inspirar lideranças políticas. “Existe uma qualidade abstrata de autoridade que as mulheres que querem ser líderes precisam aprender. Meu primeiro conselho a elas é: estudem história e estratégia militar".

Apesar de os Estados Unidos ter um presidente negro, sob a perspectiva de Paglia o país não deve ter uma mulher em seu comando tão cedo, lá o presidente é também o chefe das forças armadas, e candidatas como Hillary Clinton são fracas para o comando do país neste sentido. “Eu espero que candidatas cheguem a ocupar o cargo de presidente por seu talento e não porque tenha sido casada com um presidente popular. Quanto mais campanha faz Hillary Clinton, mais caem intenções de voto para ela." Dianne Feinstein, por exemplo, seria uma candidata mais favorável por conhecer bastante de assuntos militares, ou Nancy Pelosi, com sua forte liderança política na câmara norte-americana.

Ademais, o mundo político exerce muita pressão sobre seus líderes, e as jovens não estão sendo ensinadas a lidar com isso. “Elas são hipersensíveis a qualquer coisinha. É preciso ter 'pele grossa', ser guerreira e suportar os ataques na arena pública", salientou.

Judith Butler

Camille Paglia criticou fortemente a pós-estruturalista Judith Butler. Ela, como outros jovens acadêmicos da época, teria aproveitado o entusiasmo causado pelo pós-estruturalismo e se enveredado por meio dele em uma postura esquerdista, que dizia se opor à ortodoxia vigente, conquistando prestígio, cargos e salários elevados. “Ela só queria a passagem dela para o topo, para se tornar ilustre. Hoje, aquela pessoa crítica do establishment é milionária. Todos eles são", elucidou a escritora, acrescentando que “as pessoas que não subscreveram aquela ortodoxia foram aqueles que não conseguiram bons empregos. Minha carreira como um todo foi em escolas de arte marginais, lutando para sobreviver, porque em escolas de arte não temos a mesma verba, e aqueles alunos que desenvolvem uma carreira doam dinheiro para a instituição".

Com relação à discussão sobre gênero, Paglia sublinha que “Butler não investigou nada a respeito de biologia, de história, de antropologia, de psicologia,... ela só pegou emprestado um esquema analítico de Foucault e aplicou no gênero. Ela é uma pensadora derivada e exploradora, porque sua atividade foi muito lucrativa. Acredito que foi uma decisão carreirista que ela tomou. (...) E se apresenta como filósofa. Ela se formou em filosofia, mas nunca foi ninguém em filosofia, apenas tomou emprestado conceitos pós-estruturalistas".

As teorias de Butler, atualmente difundidas em todos os lugares, afirmam que o gênero não existe, que seria apenas uma construção linguística. De acordo com suas ideias, não existe uma diferença fundamental entre os sexos, nossos gêneros seriam, portanto, inscritos em nós.

“É verdade que o gênero é fluido, que a identidade sexual é fluida e estudos antropológicos mostram que já houve diversas definições de gênero ao longo do tempo. Contudo, todas as sociedades ao longo dos anos tiveram as mesmas definições fundamentais dos sexos. Os estudos de gênero que não façam referência nenhuma à biologia são loucura, quase como um abuso infantil", criticou a ensaísta. As ideias de Butler estão se enraizando em políticas públicas e gerando protestos por parte da sociedade. A conferencista, em seu livro Personas sexuais, defendeu que há princípios fundamentais que não são sujeitos a mudanças sociais.

Camille Paglia colocou ainda que a academia se distancia por demais da vida, alijando o debate teórico desta, e que em suas obras procura trazer experiências concretas no mundo real. E criticou ainda o oferecimento da cirurgia de mudança de sexo pelos seguros de saúde universitários.


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