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Catherine Millet

As ideias antiquadas do #MeToo

Mundialmente reconhecida por seu best-seller A vida sexual de Catherine M., a crítica de arte e escritora Catherine Millet é fundadora e editora da Art Press, uma das mais influentes revistas de arte francesas. Desde janeiro de 2018, tem aparecido com frequência na mídia, após ser uma das coautoras de um manifesto, publicado no jornal Le Monde, em oposição ao movimento feminista #MeToo. Defendendo pontos polêmicos e controversos dessa discussão, em sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo ela partiu de sua experiência pessoal para falar sobre a repercussão do editorial assinado por cem personalidades francesas, criticar o que considera como alguns excessos do feminismo e abordar o que ela denominou como a militância dogmática despertada pelo movimento.

Millet iniciou abordando o papel das redes sociais, que poderiam equivaler, em nível mundial, ao fórum da Roma Antiga. Mas que, em alguns casos, como o do #MeToo, ilustram mais desvios e efeitos negativos. Esse fator e o choque provocado pela publicação de dois artigos na imprensa francesa motivaram a escritora (além de Sarah Chiche, Abnousse Shalmani, Peggy Sastre, Catherine Robbe-Grillet) a escrever o manifesto. O primeiro dos artigos, publicado no Libération, tratava do caso do coreógrafo Daniel Dobbels, acusado por um grupo de bailarinas de ter feito comentários sexistas cerca de dez anos antes. Mesmo depois da retirada da queixa, Dobbels teve um espetáculo cancelado e demitiu-se da Escola de Belas Artes, onde lecionava. O segundo artigo foi um destaque, que a escritora definiu como desproporcional, à campanha do #MeToo na capa do Le Monde, um dia após um atentado que vitimou 300 pessoas no Egito.

“Eu mencionei dois jornais, mas a imprensa francesa como um todo deu um enorme destaque ao movimento #MeToo. E, muitas vezes, pude constatar que a imprensa ficava satisfeita de replicar – de algum modo – o que já se passava nas redes sociais. Dando muita voz às acusadoras – que se expressavam nessas redes – e com muito menos frequência dando voz aos acusados. É claro que a gente entende que, num primeiro momento, os acusados preferem ficar escondidos e mais discretos. Mas, também com raras exceções, os jornais não conduziam as suas próprias investigações, o que eu acho que é o trabalho do jornalista. Precisamos reconhecer que, nesse campo, chegar à verdade é extremamente difícil. E testemunhos e artigos de juristas e advogados – mesmo advogados que já defenderam mulheres vítimas de abuso sexual – reconhecem que é muito difícil legislar esses casos, especialmente os casos de estupro, porque sempre se chega a uma situação de ‘palavra contra palavra’. A palavra da acusadora contra o acusado.”

Millet destacou que os dois exemplos mostram julgamentos precipitados e apressados em praça pública, num tipo de superexposição midiática que foi trabalhada pela ensaísta e jornalista francesa Laetitia Strauch-Bonart (autora de Os homens são obsoletos?) a partir do conceito de “viés de disponibilidade”, que resume a capacidade de privilegiar e de superestimar as informações que estão imediatamente disponíveis em nossa memória. E que a superexposição midiática, que instala essas informações em nossas mentes, pode nos dar a impressão de que os eventos são mais frequentes do que são na realidade e mistura atitudes equivocadas com abusos reais. “Laetitia Strauch-Bonart também destaca um outro fato, que é o seguinte: não apenas as mulheres sofrem esse fenômeno de desclassificação social. Muitas vezes, os homens também vivenciam isso. Por exemplo: na nossa sociedade, a força física, que era a grande vantagem dos homens, não tem mais a mesma importância no mercado de trabalho. Vocês devem saber também que, na Europa, algumas pesquisas demonstraram que os meninos estão bem atrasados nos estudos com relação às meninas. E, há muitas décadas, nós vemos que o controle dos nascimentos está na mão das mulheres. Elas que decidem se têm filhos ou não. Então, esse conjunto de fatores nos leva a pensar que podemos reequilibrar as nossas visões das dificuldades encontradas tanto por homens quanto por mulheres.”

Citando um livro seu recentemente publicado sobre a vida de David Herbert Lawrence, autor de O amante de Lady Chatterley – romance que aborda a perda da força dos homens no século XX e a emancipação sexual das mulheres –, Millet defendeu que a superexposição midiática priorizou a violência contra as mulheres, relativizando ou escondendo outros problemas e outros dramas. “É impressionante também pensar no vocabulário utilizado. Não sei se vocês sabem, mas, na França, o equivalente do #MeToo é #BalanceTonPorc. Eu vou explicar o que significa essa expressão para um francês que a escuta. Foi a filósofa Élisabeth Badinter, em um programa de televisão, que falou como esse conceito soou de maneira negativa aos seus ouvidos. O verbo ‘balance’ é muito utilizado por criminosos e condenados, e é um termo que, sobretudo, foi utilizado durante a ocupação da França pelos nazistas. Quando alguém decidia ‘denunciar’ um judeu aos nazistas, podia, com muita frequência, utilizar esse verbo. E eu ainda acrescentaria algo: a palavra ‘porc’, ou porco em português, é utilizada em nossa língua desde a Idade Média, passando pelo nazismo e até os dias atuais no meio antissemita, justamente para se referir aos judeus.”

A escritora contou o caso de Sandra Muller, criadora do #BalanceTonPorc, que expôs publicamente um jornalista que lhe fez comentários sexuais durante um happy hour e que argumentou que a agressão – seja verbal ou física – possui o mesmo impacto psicológico. Millet discorda dessa afirmação, e citou Élisabeth Badinter para resumir seu ponto de vista: “Tentar censurar a violência verbal, associando-a à violência física, é um equívoco. Diga o que quiser, mas o dano causado pelas palavras é de um outro tipo do que o dano causado por um golpe. Essa é uma arma que está à disposição dos dois sexos, o que pode às vezes evitar de se recorrer à violência física”. 

“É impossível, se eu entendi bem, julgar esse impacto psicológico de um abuso verbal do qual, por exemplo, Sandra Muller foi vítima. Mas, em vez de levar o seu caso a um tribunal, ela preferiu expor o seu agressor diretamente ao ‘tribunal da praça pública’. É inútil dizer que esse ‘tribunal da praça pública’, que são as redes sociais, fez o seu linchamento simbólico. O acusado teve vários problemas como consequência. Ele trabalhava em uma rede de tevê, enfrentou problemas em sua família. Fica claro que Sandra Muller não confia no que chamamos de estado de direito. Mas o seu suposto agressor, sim. Porque ele abriu um processo contra ela por difamação.”

Um caso como esse, que, nas palavras de Badinter, acontece “na fronteira entre o objetivo e o subjetivo, entre o real e o imaginário”, e é complexo. Segundo Millet, é nesse cenário que se instaura a “ditadura do ressentimento”. “Este termo está muito na moda na França. Todo mundo fala a partir do seu próprio ressentimento ou do que sente. E, nesta ditadura, poderíamos regular toda a sociedade em função desta percepção subjetiva das coisas. Então, os fatos objetivos desapareceriam, e o que prevaleceria seria o jeito como cada um sentiu as coisas. Mas, como Élisabeth Badinter diz, o que é sentido pelo outro é muito complexo de ser analisado no estado de direito ou no plano legal.”

A escritora declarou não ter certeza sobre a necessidade de a mídia dar tanto destaque a casos como esse ou – um outro exemplo – à denúncia de assédio contra o escritor Elie Wiesel, quase 30 anos depois do fato e quando ele já era falecido, por uma mulher que argumentou sofrer de trauma extremo e depressão suicida durante anos por conta do ocorrido. “Eu estaria disposta a admitir que uma jovem mulher, especialmente ingênua e pudica, possa ter tido tal reação. Mas daí eu peço, em contrapartida, que se aceite que um grande número de pessoas, no qual eu me incluo e no qual incluímos também jovens mulheres, pode achar essa história completamente ridícula. É o que eu sinto. Será que tantos jornais deveriam ter dado tanta importância a esse depoimento? Eu escolhi um exemplo extremo, é claro, no limite do absurdo. Mas foi a partir de exemplos quase tão caricatos quanto esse, que alguns gostariam de, no melhor dos casos, ter leis mais rígidas contra o abuso sexual e, no pior dos casos, passar por cima da justiça – que eles julgam deficiente – fazendo justiça com as próprias mãos utilizando as redes sociais e a imprensa.”

Este, para Millet, é um dos riscos à democracia, pois, sem passar pela lei, os hábitos se transformam e se instalam sob o efeito de intimidação desses movimentos, que são iniciados nas redes sociais e replicados pela imprensa. “Há cada vez mais casos de censura e de autocensura. O que significa que não estamos mais numa situação de estado de direito, que garante as boas relações em uma sociedade impondo a mesma lei a todos os indivíduos. Mas, sim, em uma situação onde o que é sentido ou percebido por alguns indivíduos que busca regulamentar o comportamento de todos os outros. Quando publicamos o nosso editorial, supostamente se falava de liberação da voz das mulheres. Isso estava em todas as manchetes. Mas quando mulheres – nós – tomaram a voz para dizer algo diferente do que dizia o #MeToo, nos pediram para ficar caladas. Nós não tivemos o direito de dizer #NotMe.”

A convicção de Millet é a de que há um número grande de mulheres que tem alguns desacordos em relação ao movimento. Mas que essa visão oposta não foi tão midiatizada quanto a outra. “Nós, as autoras do editorial, fomos muito repreendidas, por uma suposta falta de solidariedade com as mulheres vítimas de violência sexual e estupro. A historiadora Michèle Perrot se declarou ficar impressionada sobre a nossa inconsciência com relação à violência sofrida pelas mulheres. E eu respondi: ela não pode saber o que nós sentimos diante de alguns testemunhos. Será que criticar essas denúncias precipitadas, ou a justiça apressada nas redes sociais, ou essa confusão feita entre violências de tipos e de gravidades muito diferentes significa não ter consciência da violência que existe? Eu acho que é o contrário. O trabalho do intelectual é o de discernir as diferenças. E não de manter as confusões.” 

A escritora também falou sobre o uso da palavra “sororidade”, um termo que significa a irmandade entre as mulheres, implicando semelhança e solidariedade. Mas que possui uma conotação religiosa, pois no latim medieval o termo “sororitas” designava as comunidades religiosas de mulheres. “Ainda falamos irmã ao tratar com uma mulher religiosa. Mas, hoje em dia, aqueles que utilizam com mais frequência essa palavra são os muçulmanos – e não os cristãos –, que se consideram entre eles todos irmãos e irmãs dentro de uma grande religião. Eu, quando recusei publicamente ser a irmã de todas as mulheres, tive a impressão de ser vista, por algumas delas, como uma infiel.”

Millet também discorda do uso do termo “danos colaterais” relacionado às ações do movimento. “Eu vou citar algumas expressões que encontrei no fórum do site balancetonporc.com, e, no mesmo site, tem a seguinte citação muito assustadora, um comentário: ‘É claro que existem riscos de difamação ou riscos de suicídio pela parte dessa pessoa que é exposta tendo sido acusada de tantas ações horríveis. Mas eu continuo a favor do movimento porque os benefícios me parecem bem mais importantes do que os riscos’. Bem, uma mulher que se expressa assim de maneira tão livre deve reconhecer que está feliz por poder falar livremente sobre um assunto porque vive numa sociedade francesa do início do século 21, e não numa sociedade soviética do início do século 20, onde prevalecia, no entanto, uma lógica que ela toma para si. A lógica de que os fins justificam os meios.”

Relembrando casos de censura suscitados a partir do movimento, que, segundo ela, relembra o período de Stálin, Millet citou pedidos de retiradas de obras de museus, manifestação que foi feita em frente ao edifício da Cinémathèque Française em Paris para evitar uma retrospectiva dos filmes de Roman Polanski, repúdio a uma mostra de Egon Schiele ou proibição da leitura da história da Bela Adormecida para crianças, sob o pretexto de que o príncipe não tinha pedido para a princesa a sua autorização antes de dar um beijo nos seus lábios. Ou, o que ela considera mais grave: a releitura de obras, filmes – como Blow up de Michelangelo Antonioni –, romances ou óperas a partir do que é “feministamente correto”. “Como crítica de arte, sei que toda a arte moderna e contemporânea trabalhou contra essa associação da arte e da moral. O intuito da arte não é a moral. É a verdade.”

Na última parte da conferência, Millet destacou que existe a necessidade de se falar sobre o comportamento sexual contemporâneo. E que é preciso reconhecer que muitas mulheres ainda são vítimas de estupro e dar-lhes a ajuda e o apoio necessários. Mas que também é preciso avaliar a dimensão e a proporção assumidas pelo #MeToo para além do fenômeno digital. “Existia uma outra causa possível, que é a utopia do novo homem. Existe um desejo utópico de construir um novo homem, e desde o tempo da China de Mao Tsé-Tung se achava possível a ideia de criar um novo homem. Será que as feministas não buscam também fabricar novos homens, em função de critérios que seriam convenientes a elas?”

De acordo com ela, as ativistas do movimento #MeToo provavelmente ignoram a natureza humana e a teoria freudiana. Na França, por exemplo, os psicanalistas estão completamente ausentes dessa discussão. E, segundo ela, muitos exemplos na história mostram como os filósofos pagãos e a Igreja tentaram submeter as relações sexuais a uma razão, uma lógica, e à dominação do impulso. “Será que as mulheres que se expressam nas redes sociais e em inúmeros artigos de jornais e revistas femininas dizendo que as mulheres não querem mais saber de homens que não sejam perfeitamente controlados, será que elas não sonham, de certa forma, com um casamento atenuado ou controlado?”

Millet citou o caso da Suécia, onde o primeiro-ministro Stefan Löfven aconselhou prudência e onde foi aprovada uma lei que diz que toda relação sexual deve ser ilegal se não tiver um contrato regulamentado ou um consentimento explícito. O filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu um artigo sobre isso, imaginando com ironia e bom humor como seria o cancelamento de um contrato como esse, no momento do ato sexual, em que contratado ou contratante ficasse frustrado. É possível legislar sobre incidentes dessa natureza?

“A minha conclusão é que é melhor esperar que essa cena imaginada pelo filósofo Žižek fique no campo da ficção. Porque uma lei que se introduz no campo da intimidade cotidiana dos cidadãos é uma lei que pertence a um estado totalitário”, finalizou.


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