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Niall Ferguson

Civilização ocidental: chegou ao fim?

Historiador, pesquisador e apresentador de televisão, o britânico Niall Ferguson é autor de livros como Civilização – Ocidente x Oriente e A grande degeneração. Especialista em economia, mercado financeiro e história econômica, trouxe para a sua conferência no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre uma provocação: será que a civilização ocidental chegou ao fim? Para desenvolver o tema, abordou as seis ideias e instituições que destacaram o Ocidente no cenário mundial e a crise vivenciada atualmente pelos Estados Unidos. 

Ferguson iniciou apresentando uma citação sobre as conquistas, os direitos, as tradições, os desafios e os grandes feitos alcançados pela comunidade de nações. Um discurso que, aparentemente, aponta para a recuperação da civilização ocidental. Mas que, na realidade, foi proferido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em julho deste ano. “Qualquer debate em torno da civilização ocidental hoje precisa reconhecer as formas através das quais este tipo de discurso está sendo revitalizado e reutilizado com objetivos políticos, em formas que não ainda eram utilizadas quando eu escrevi o livro Civilização, em 2012. Eu gostaria de explicar aos senhores como eu entendo a civilização ocidental, que é bastante diferente da forma como o redator do discurso do presidente Trump pensa sobre a civilização. De certa maneira, a história do meu livro é uma história simples de um sucesso econômico espetacular, e de uma diferença de divergência que se abriu entre algumas sociedades ocidentais em comparação ao resto do mundo.”

As sociedades ocidentais que obtiveram sucesso econômico nos últimos 500 anos foram alguns países do norte da Europa e lugares colonizados por pessoas do noroeste e do nordeste europeus. Comparando o PIB per capita, Ferguson apontou que são encontradas grandes divergências entre os índices dos países. Entre EUA e China, por exemplo, a diferença vai de 2 para 1 no século XIX e chega a 20 para 1 na década de 1970. Na comparação entre o PIB inglês e o indiano, os números partem de um nível baixíssimo em 1820 atingindo 14 para 1 em 1979, a mesma divergência apresentada entre Holanda e Indonésia, por exemplo. “Notem que nem todas as economias do Ocidente obtiveram essa divergência tão espetacular com relação aos países que colonizaram informalmente ou formalmente. A proporção do PIB per capita de Portugal comparado com o do Brasil e o da Espanha comparado com o do México é bem menos espetacular. Aliás, quase não existe uma grande divergência entre os países ibéricos e os países latino-americanos. É por isso que essas linhas da parte inferior do gráfico são quase que lineares. E não há diferença também entre os PIBs per capita da Rússia e da Turquia.”

Segundo o historiador, isso representa que o Ocidente, de alguma maneira, obteve conquistas econômicas e avanços que também podem ser notados nos números de expectativa de vida e de política. “Podemos ver que um número relativamente pequeno de países com um território que equivalia a 10% da superfície mundial, e com uma população que equivalia a 25% da população mundial, estabeleceu grandes impérios responsáveis por mais de metade da superfície da Terra, um terço da população mundial, com uma porção bem menor do PIB.” Ou seja, há apenas um século, o mundo era um território de impérios, com o Império Britânico e outros 11 impérios predominantemente europeus dominando.

Ao mesmo tempo, Ferguson destacou que a grande divergência notada entre os países não pode ser simplesmente explicada pelo imperialismo, pela geografia ou pelo caráter das nações. Ele explicou que, se o imperialismo fosse a chave, os chineses ou os turcos poderiam ter colonizado a Europa, porque os impérios eram as coisas menos originais que as sociedades ocidentais faziam naquela época. Se a geografia explicasse o sucesso de uma nação, como defendia o biólogo norte-americano Jared Diamond, não se veria uma diferença tão brutal entre as Alemanhas Ocidental e Oriental após a Segunda Guerra. Inspirado no filósofo e economista britânico Adam Smith, Ferguson afirmou que a diferença esteve nas ideias e nas instituições criadas e incentivadas pela civilização ocidental.

“Adam Smith argumenta em A riqueza das nações que a China foi próspera. Mas, na época dele, já tinha caído em estagnação. Ele utiliza o termo ‘o estado estacionário’. E pergunta: por que é que, se a China uma vez foi opulenta, ela caiu nesse estado estacionário? E a resposta dele – que é brilhante e muito perspicaz – é que as políticas e as instituições chinesas puseram um fim ao crescimento econômico. E que, se a China mudasse as suas políticas e as suas instituições, poderia voltar a ter um crescimento econômico. Uma previsão que viria a se tornar verdade apenas na nossa geração.”

Assim, buscando estabelecer quais seriam essas principais ideias e para chamar a atenção dos filhos adolescentes – fascinados por seus smartphones e gadgets –, Ferguson criou para o seu livro Civilização a lista dos “6 apps matadores” da civilização ocidental. “Porque as coisas sobre as quais eu vou falar são muito parecidas com os apps que vocês têm nos seus celulares. Porque elas parecem ser simples, como aqueles ícones que clicamos, mas na verdade são muito complexas. Ou seja, nós não conseguiríamos escrever o código que faz com que os apps dos nossos celulares funcionem. A não ser que você seja um superstar das ciências computacionais.”

Os seis aplicativos que explicam, de acordo com Ferguson, o porquê de a civilização ocidental ter se tornado rica, saudável e poderosa do ano 1600 até 1970, foram:

- a competição (“A ideia de que a concorrência é uma coisa boa e de que o poder não deve ser monopolizado.”)

- a revolução científica (“A ideia de que o mundo natural pode ser compreendido e manipulado através de esforços experimentais.”)

- o Estado de direito (“Não qualquer Estado de direito. Mas o Estado de direito baseado no direito à propriedade privada.”)

- a medicina moderna (“É, de muitas formas, o maior de todos os milagres. Porque, sem ela, a maior parte de nós não estaria aqui hoje.”)

- a sociedade de consumo (“Porque não teria sentido ter uma Revolução Industrial se você não tivesse uma demanda praticamente infinita e elástica por produtos.”)

- a ética do trabalho (“Não havia nada especificamente protestante a respeito da ética do trabalho.”)

Estes foram os aplicativos que acabaram sendo exportados para outros locais, como a América do Norte e a Ásia, especialmente o Japão. “Outra coisa muito importante é que esses aplicativos podem ser baixados por qualquer pessoa. Independentemente da cor da sua pele, da sua localização, da sua história, da sua religião, da sua cultura. As ideias e as instituições, que denominamos como aplicativos matadores, funcionam em qualquer lugar. E, muito provavelmente, foi sorte que fez com que as primeiras ideias fossem descobertas e desenvolvidas por pessoas no Ocidente.” 

Após 1979, o que aconteceu no mundo foi uma convergência. Ou seja, os índices de PIB per capita que antes eram extremos se aproximaram. “Não existe mais uma diferença de 20 para 1 entre as rendas chinesa e norte-americana. Aliás, está abaixo de 4 para 1 hoje. Um norte-americano médio é só 4 vezes mais rico do que o chinês médio. Quando eu tinha 15 anos, o norte-americano médio era 22 vezes mais rico do que o chinês médio. Então, estamos passando por uma inversão de fortunas. Que está pondo um fim à grande liderança que o Ocidente tinha sobre o Oriente. Eu acho fantástico.” Isso, de acordo com Ferguson está ocasionando uma convergência de outro tipo: aquela causada pelo declínio da civilização ocidental.

Na América do Norte, ele destacou quatro elementos que representam essa grande degeneração:

- o colapso do contrato entre as gerações

- a complexidade excessiva da regulação

- o Estado dos advogados em vez de Estado de direito

- o declínio da sociedade civil

Segundo Ferguson, fatores como a queda dos números de trabalhadores ativos e o aumento da taxa de mortalidade entre os norte-americanos não hispânicos de 45 a 54 anos – devido a uma explosão de uso de drogas – podem explicar o cenário. “A América média está passando pela pior crise de vícios e drogas da história. Ultrapassando o crack e todos os seus problemas. A epidemia desses opioides é um sintoma de uma crise muito profunda da América.”

Além disso, ele citou a desigualdade intergeracional como um dos grandes causadores dos problemas atuais dos Estados Unidos. “As finanças públicas se tornaram um motor estranho que transfere recursos dos jovens e dos que ainda não nasceram para aqueles da geração do Baby-boom, as pessoas que agora estão se aposentando ou que já se aposentaram. E, infelizmente, a política fiscal do presidente Trump parece piorar esse problema, fazendo com que a dívida federal aumente mais rapidamente do que ela já tem aumentado.” E, como último fator, sinalizou a queda do número de membros de associações voluntárias – de esportes ou religiosas, por exemplo – de 1995 a 2006, num movimento que substituiu esse tipo de contato pelas redes sociais, ambiente no qual a polarização norte-americana pode ser perfeitamente notada, com divisão entre liberais e conservadores. Esse é o tema do livro mais recente de Ferguson, The square and the tower, que será lançado em 2018.

“Temos dois grupos de usuários altamente segregados. E mais incrível ainda é que, quando você analisa a linguagem utilizada nos tweets sobre assuntos como controle de armas, casamento entre pessoas do mesmo sexo e mudança climática, a utilização de uma linguagem emocional aumenta demasiadamente a probabilidade de alguém retuitar algo tuitado. Então, se você se pergunta por que os tuítes são geralmente ofensivos, é porque o tuíte tem de 20 a 30% mais probabilidade de ser republicado se você utilizar uma linguagem moralista, emocional ou até obscena.”

Entre os anos de 2012 e 2014, as principais reflexões de Ferguson sobre os Estados Unidos eram a respeito da possibilidade de o país ter atingido o seu estado estacionário. Agora, a natureza de suas reflexões mudou. Ele passou a se perguntar se os Estados Unidos deixaram de ser uma sociedade civil e se tornaram uma sociedade não civil, onde dois grupos opostos de opiniões cada vez mais desconectadas entre si gritam dentro de uma câmara de eco criada por eles mesmos, utilizando uma linguagem cada vez mais extrema.

“A civilização, em parte, trata de sermos civilizados e, em parte, trata de não utilizarmos palavrões quando nos comunicamos. Este é um ponto central da civilização. Ele evita que os conflitos se tornem tão rancorosos que acabem caindo na violência verbal e, por fim, na violência física. Nesse livro, The square and the tower, eu exploro justamente essa possibilidade tão preocupante. Que a emergência dessas grandes redes sociais como Facebook e Twitter podem, paradoxalmente, estar causando uma ruptura na nossa civilização. E a substituindo com o que podemos chamar melhor de uma incivilização”, finalizou. 


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