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Niall Ferguson

Civilização ocidental: chegou ao fim?

Especialista em economia, mercado financeiro e história econômica, o britânico Niall Ferguson é historiador, pesquisador e apresentador de televisão. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo, trouxe uma provocação que ele classificou como “perturbadora”: será que a civilização ocidental chegou ao fim? Para responder, apresentou e explicou as seis ideias e instituições que destacaram o Ocidente na história do mundo e a atual crise vivenciada pelo Estados Unidos e que é, particularmente, acentuada pela internet e pelas redes sociais.

Para iniciar, leu um trecho de um discurso que enaltecia os grandes feitos alcançados pela comunidade de nações, com as conquistas, os direitos, as tradições e os desafios. Um texto que, num primeiro momento, parece apontar para a recuperação da civilização ocidental. Mas que assume um outro significado quando se fica conhecendo o que foi proferido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em julho deste ano. “É meio esquisito para aqueles de nós que escrevemos sobre civilização ver esta palavra aparecer no discurso do presidente Trump. Com amigos como ele, quem precisa de inimigos? Quando ouvi esse discurso, me passou pela cabeça: será que o Trump leu o meu livro? É óbvio que descartei essa ideia porque o Trump não lê livros. A possibilidade que existe é que o redator dos discursos dele tenha lido o meu livro. E, se ele leu, não prestou atenção. Porque essa definição de civilização é totalmente diferente da definição que eu uso no livro Civilização. E o que eu gostaria de fazer hoje é delinear esse argumento.”

As sociedades ocidentais que obtiveram sucesso econômico nos últimos 500 anos foram alguns países do norte da Europa e lugares colonizados por pessoas do noroeste e do nordeste europeus. Comparando o PIB per capita, Ferguson apontou que são encontradas grandes divergências entre os índices dos países. Entre EUA e China, por exemplo, a diferença vai de 2 para 1 no século XIX e chega a 20 para 1 na década de 1970. Na comparação entre o PIB inglês e o indiano, os números partem de um nível baixíssimo em 1820 atingindo 14 para 1 em 1979, a mesma divergência apresentada entre Holanda e Indonésia, por exemplo. “Essas linhas simplificam, mas ilustram claramente, o que os historiadores econômicos denominam como 'a grande divergência'. Houve uma grande divergência entre partes do mundo ocidental e quase todo o mundo oriental. Mas nós estamos no Brasil, e eu devo dizer aos senhores que essa história da grande divergência não é universal. Por exemplo, Portugal não se tornou muito mais rico do que o Brasil. Aliás, a diferença na renda per capita entre esses dois países nunca foi muito grande. Menos ainda no século XIX e no início do século XX. Ela chegou na maior diferença recentemente, pois no início dos anos 2000 o português médio se tornou duas vezes mais rico em termos de renda per capita do que o brasileiro médio.”

Segundo o historiador, a grande divergência representa que o Ocidente, de alguma maneira, obteve conquistas econômicas e avanços que também podem ser notados nos números de expectativa de vida e de política. “O fato mais impressionante sobre o mundo há 100 anos era até que ponto apenas 11 impérios ocidentais dominaram quase todo o resto. E esse gráfico resume a era dos impérios, que chegou ao fim em meados do século XX. O Império Português foi um dos últimos a desaparecer. Mas o processo do imperialismo aconteceu em meados do século XX e, no pico do seu poder, os impérios ocidentais controlavam uma área enorme do território mundial e mais de ¾ do PIB mundial.”

Ao mesmo tempo, Ferguson destacou que a grande divergência notada entre os países não pode ser simplesmente explicada pelo imperialismo, pela geografia ou pelo caráter das nações. Ele explicou que, se o imperialismo fosse a chave, os chineses ou os turcos poderiam ter colonizado a Europa, porque os impérios eram as coisas menos originais que as sociedades ocidentais faziam naquela época. Se a geografia explicasse o sucesso de uma nação, como defendia o biólogo norte-americano Jared Diamond, não se veria uma diferença tão brutal entre as Alemanhas Ocidental e Oriental após a Segunda Guerra. Inspirado no filósofo e economista britânico Adam Smith, Ferguson afirmou que a diferença esteve nas ideias e nas instituições criadas e incentivadas pela civilização ocidental.

“Em A riqueza das nações, Adam Smith fez uma observação brilhante. Ele disse: a China, obviamente, foi muito rica um dia. A China deve ter tido em crescimento econômico no passado. Mas, no século XVIII, parece que chegamos ao que ele chama de ‘estado estacionário’, no qual não há crescimento algum. E Smith pergunta o porquê. E resposta dele é que, essencialmente, as ideias e as instituições da China se tornaram inimigas do crescimento. Ele diz no livro: se você mudasse as ideias e a instituições da China e desse uma economia de mercado e se livrasse da dominância de uma classe corrupta, o país cresceria novamente. Isso foi uma profecia. Ela não se realizou até 200 anos após a publicação desse livro.”

Assim, buscando estabelecer quais seriam essas principais ideias e para chamar a atenção dos filhos adolescentes – fascinados por seus smartphones e gadgets –, Ferguson criou para o seu livro Civilização a lista dos “6 apps matadores” da civilização ocidental. “Esses aplicativos matadores parecem ser uma analogia muito rasa. Mas ela é boa. Quando vemos esses ícones no telefone, eles parecem ser simples. Você clica e, como num passe de mágica, abre o YouTube ou o Facebook. Mas vocês não seriam capazes de escrever o código que faz com que isso acontece. Imagino que a maior parte de vocês não conseguiria. Da mesma forma como as ideias e as instituições da civilização ocidental parecem muito simples. Mas existe um código histórico complexo que precisa ser conhecido para entender como esse aplicativo funciona.”

Os seis aplicativos que explicam, de acordo com Ferguson, o porquê de a civilização ocidental ter se tornado rica, saudável e poderosa do ano 1600 até 1970, foram:

- a competição (“O conceito da concorrência é legítimo tanto na esfera econômica quanto na política.”)

- a revolução científica (“A ideia de que nós podemos fazer experimentos no mundo natural e inferir leis baseadas nesses experimentos para manipular o mundo natural.”)

- o Estado de direito (“Não qualquer Estado de direito. Mas o Estado de direito baseado no direito à propriedade privada.”)

- a medicina moderna (“Que veio com a Revolução Industrial e triplicou a expectativa de vida.”)

- a sociedade de consumo (“Porque não teria sentido ter uma Revolução Industrial se você não tivesse uma demanda praticamente infinita e elástica por produtos.”)

- a ética do trabalho (“Weber estava errado. Pois não havia nada especificamente protestante a respeito da ética do trabalho.”) 

Esses foram os aplicativos que acabaram sendo exportados para outros locais, como a América do Norte e a Ásia, especialmente o Japão. “A beleza do meu argumento é que os aplicativos são essas instituições que fizeram com que a sociedade ocidental tivesse tanto sucesso e que podem ser baixados por qualquer um. Outras pessoas baixaram os aplicativos, começando com os japoneses. E, no final do século XIX, todos passaram a copiar as ideias e instituições que funcionaram tão bem com os europeus do Ocidente, como a América do Norte e os australianos, por exemplo.”

Após 1979, o que aconteceu no mundo foi uma convergência. Ou seja, os índices de PIB per capita que antes eram extremos se aproximaram. “A proporção dos Estados Unidos e da China vai de 22 para 1 na década de 1970 e para 4 para 1 nos tempos atuais. E continua a cair. Estima-se que, até 2050, o norte-americano médio será apenas duas vezes mais rico do que o chinês médio. E a mesma coisa se aplica à Índia com relação à Grã-Bretanha e com a Indonésia em relação à Holanda. A grande divergência acabou e acabou na nossa geração. Eu acho fantástico.” Isso, de acordo com Ferguson está ocasionando uma convergência de outro tipo: aquela causada pelo declínio da civilização ocidental.

Na América do Norte, ele destacou quatro elementos que representam essa grande degeneração:

- o colapso do contrato entre as gerações

- a complexidade excessiva da regulação

- o Estado dos advogados em vez de Estado de direito

- o declínio da sociedade civil

Segundo Ferguson, fatores como a queda dos números de trabalhadores ativos e o aumento da taxa de mortalidade entre os norte-americanos brancos não hispânicos de 45 a 54 anos – devido a uma explosão de uso de drogas – podem explicar o cenário. “A maior crise de drogas de todos os tempos nos Estados Unidos está acontecendo hoje. São vícios de álcool e opioides. A patologia da América média é impressionante. E não estamos apenas falando da população branca de idade mediana. Os jovens norte-americanos também estão com um sistema que não funciona para eles.”

Ele citou a desigualdade intergeracional como um dos grandes causadores dos problemas atuais dos Estados Unidos. “Além da falha educacional, tem uma pilha de dívida enorme que vai ser a herança dos jovens norte-americanos e dos norte-americanos que ainda não nasceram. Essa crise fiscal, sobre a qual eu estou escrevendo há mais de dez anos, vai piorar. Se a lei fiscal for aprovada, vai acrescentar mais US$ 1,5 trilhão à dívida federal norte-americana.” E, como último fator, sinalizou a queda do número de membros de associações voluntárias – de esportes ou religiosas, por exemplo – de 1995 a 2006, num movimento que substituiu esse tipo de contato pelas redes sociais, ambiente no qual a polarização norte-americana pode ser perfeitamente notada, com divisão entre liberais e conservadores. Esse é o tema do livro mais recente de Ferguson, The square and the tower, que será lançado em 2018. 

“O que essas redes sociais gigantescas estão fazendo com a sociedade norte-americana é polarizá-la e divulgar visões extremistas e fake news. Tudo isso cai bem nas redes sociais, e elas são incentivadas a promover visões extremistas e notícias falsas porque não estão nem aí para a saúde da sociedade civil. Só se importam com o engajamento dos usuários e fazer com que fiquem grudados na tela e no conteúdo dos sites. Para que o olho das pessoas vá parar nos anúncios, na propaganda. Essa é a função do Facebook, do Google e do Twitter. E o efeito é muito mais tóxico do que nós percebemos.” 

Entre os anos de 2012 e 2014, as principais reflexões de Ferguson sobre os Estados Unidos eram a respeito da possibilidade de o país ter atingido o seu estado estacionário. Agora, a natureza de suas reflexões mudou. Ele passou a se perguntar se os Estados Unidos deixaram de ser uma sociedade civil e se tornaram uma sociedade não civil, onde dois grupos opostos de opiniões cada vez mais desconectadas entre si gritam dentro de uma câmara de eco criada por eles mesmos, utilizando uma linguagem cada vez mais extrema.

“A sociedade civil foi tão erodida pelo advento das redes sociais que nós não podemos mais falar a respeito de uma sociedade civil. Os Estados Unidos se tornam uma sociedade incivilizada, compulsivamente incivilizada. A polarização se tornou um veneno. E eu me pergunto se a civilização ocidental, como eu a veja, está se tornando algo totalmente diferente. Podemos chamá-la de incivilização ocidental”, finalizou.


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