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Luiz Felipe Pondé

Debate especial Luiz Felipe Pondé e Mark Lilla

O que a história do século 20 nos ensinou? O que podemos aprender a respeito de eventos e processos históricos para entender os atuais problemas da democracia? O cientista político americano Mark Lilla, especialista em história intelectual, foi o autor do artigo mais lido do New York Times em 2016. No texto, ele defendeu que a vitória de Donald Trump fora baseada na fixação democrata pela questão da diversidade, e que as políticas identitárias atuais têm estrita relação com a crise política e social. Pensador e colunista polêmico, o filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé é um crítico da sociedade atual, não poupando farpas para eleitores e eleitos do último processo eleitoral. Para ele, o algoritmo das redes sociais teve influência e será ainda mais determinante no futuro das eleições. No Fronteiras do Pensamento São Paulo, os conferencistas participaram de um debate especial sobre democracia, história, polarização política e social e autoritarismo.

Lilla iniciou sua fala questionando o que a história do século 20 poderia contar sobre os problemas que afetam a democracia hoje. De acordo com ele, as explicações do período tendem a se concentrar num primeiro bloco de episódios mais dramáticos, formado por Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa, ascensão do nazismo e Segunda Guerra Mundial. No segundo bloco viriam Guerra Fria, descolonização, revoluções chinesa e cubana e Guerra do Vietnã. Eventos que tiveram consequências globais, mas que como narrativa deixam muito a desejar. “Mas, à medida que avançamos mais profundamente no século 21, outros eventos e desenvolvimentos passados começam a parecer mais importantes para nós. O crescimento constante de uma economia mundial impulsionada pelas finanças após a Segunda Guerra Mundial e uma ideologia neoliberal que celebra essa nova ordem agora se destacam em nossas imaginações históricas. Como deveriam se destacar.”

Classificada como a “era das ideologias”, a política mundial no século passado foi impulsionada pelo conflito entre sistemas rivais de ideias políticas e grandes narrativas históricas, gerando terríveis guerras. No entanto, de acordo com Lilla, o que quer que separasse as três principais ideologias – comunismo, fascismo e democracia constitucional –, elas presumiam a importância da solidariedade, qualquer que fosse a sua definição. “Para os marxistas, significava solidariedade de classe; para os fascistas, era solidariedade nacional e racial; e para as democracias constitucionais era a solidariedade dos cidadãos dentro de um estado de bem-estar social. Durante a maior parte do século 20, as grandes batalhas intelectuais não foram entre ideologias de solidariedade e ideologias de individualismo. Mas, sim, sobre o que a solidariedade significava e os meios legítimos de assegurá-la.” Dessa forma, os conflitos militares que surgiram aumentaram o senso de solidariedade entre os combatentes, com a experiência de luta coletiva e do perigo superado inspirando a identificação das pessoas com suas nações e um senso de dever e sacrifício.

Nos anos 1930, nos Estados Unidos, esta fase começou menos dramática, sendo marcada pela política do New Deal, em resposta ao colapso econômico e à disseminação do fascismo. No Discurso das Quatro Liberdades, de 1941, o presidente Franklin Roosevelt declarou que a democracia americana dependia de liberdades individuais contra o governo (as liberdades de expressão e adoração religiosa), mas também de liberdades que exigiam ação coletiva através do governo. “E, de fato, nas décadas do pós-guerra, havia um sentimento de unidade sem precedentes em um país conhecido por seu individualismo. E essa solidariedade, por sua vez, determinou os limites externos do debate e da ação política por quase 40 anos.”

Na década de 1980, porém, a vida familiar e a paisagem urbana estavam transformadas: a massa de trabalhadores industriais tornou-se proprietária de bens burgueses, moradores rurais mudaram-se para as grandes cidades, o controle de natalidade e a tecnologia doméstica permitiram que as mulheres tivessem menos filhos e se juntassem à força de trabalho, e foi desenvolvida uma cultura jovem independente que minou a autoridade patriarcal tradicional. Mesmo antes da internet, os laços sociais que sustentavam a solidariedade democrática já estavam enfraquecidos. “Portanto, não é realmente surpreendente que uma ideologia neoliberal celebrando esses desenvolvimentos tenha surgido. Ou que, eventualmente, líderes dinâmicos que apoiam essa ideologia, como Margaret Thatcher e Ronald Reagan, tenham sido eleitos. Eles não chegaram ao poder através de golpes de Estado, como os intelectuais de esquerda queriam acreditar. Eles se tornaram líderes populares, porque as suas ideias pareceram, a um número suficiente de pessoas, refletir a nova realidade social em que viviam, e que era muito mais individualista.”

Num cenário em que se acredita mais no crescimento econômico do que na igualdade econômica e com a população cética em relação aos poderes de governo e dos sindicatos, o neoliberalismo fez muito sentido para muitas pessoas nos EUA e na Grã-Bretanha. Até não fazer mais sentido. “E uma das razões pelas quais deixou de fazer sentido é que o neoliberalismo acelerou a atomização da vida social e tornou a solidariedade mais difícil de se imaginar. Mas esse não foi o único fator, pelo menos nos Estados Unidos. Dentro da esquerda americana, desenvolveu-se uma nova ideologia atomizadora, centrada nas identidades individuais e de grupo. Esse desenvolvimento, que é o assunto do meu livro mais recente, foi paradoxal ao extremo.”

Lilla explicou que, a partir dos anos 1950, movimentos sociais cresceram nos EUA, exigindo direitos iguais para afro-americanos, mulheres e homossexuais. E que, embora seu livro tenha sido mal interpretado muitas vezes, ele considera que as lutas por esses direitos foram um dos momentos gloriosos da história do país, abrindo o caminho para uma sociedade mais aberta e tolerante. “Mas durante os anos Reagan, algo mudou na esquerda. A retórica mudou de uma linguagem de igualdade entre os cidadãos para uma linguagem de identidade pessoal. Em outras palavras, houve um deslocamento do princípio de solidariedade para o princípio de autodefinição e reconhecimento.” Ele afirmou que, numa sociedade democrática, a política de identidade não pressupõe a união de cidadãos iguais, mas uma aglomeração de indivíduos, grupos e tribos com demandas conflitantes.

Dessa forma, Lilla ressaltou que os jovens, não apenas nos Estados Unidos, pensam em si mesmos como possuidores de uma identidade única que os afasta de pessoas com outras identidades, enxergando a democracia sob esta luz. “Para alguém como eu, que cresceu durante as batalhas ideológicas da Guerra Fria, quando as apostas eram muito altas, é desconcertante ver jovens tão absortos com questões pessoais de gênero, por exemplo. E não, digamos, com justiça econômica ou política externa.”

O resultado é que a esquerda radical nos EUA se opõe hoje ao neoliberalismo econômico – o que faz sentido. Mas, ao mesmo tempo, promove o chamado neoliberalismo social, cujo objetivo principal não é construir a solidariedade, mas reforçar o individualismo radical do nosso tempo. “Pense nisso: há muito pouca diferença entre dizer que o que vem primeiro é o meu dinheiro e dizer que o que vem primeiro é a minha identidade pessoal. Novamente, isso não deveria nos surpreender muito. As forças intelectuais e materiais de nossa época estão trabalhando juntas para manter os jovens autoenvolvidos e menos capazes de se identificar com todos os seus concidadãos. Ou envolver-se em esforços compartilhados para garantir o bem comum. A política de identidade tornou-se o reaganismo para a esquerda americana. E está se espalhando para a Europa e também, assim me dizem, para a América Latina.”

Os efeitos da globalização econômica desestabilizaram governos em todas as partes do mundo, e aumentaram a distância entre uma classe de elite muito rica e bem-educada, por um lado, e uma subclasse crescente e ressentida, sem habilidades ou esperança. E o neoliberalismo social também enfraqueceu os laços sociais. Assim, permanece a sensação de que as sociedades democráticas estão se desfazendo e de que os governos são ineficazes em controlar os efeitos da globalização econômica ou da imigração ilegal. “Isso leva os eleitores a continuarem mudando líderes e partidos que prometem dominar essas forças mas são incapazes de fazê-lo. Então, as coisas sempre parecem exatamente como eram antes, se não pior. Como resultado, a insatisfação com a própria democracia, como um sistema de governo, está aumentando em todos os lugares.”

Ao mesmo tempo, países como os Estados Unidos estão cada vez mais divididos entre duas tribos que desconfiam profundamente uma da outra. De um lado a elite educada, liberal e cosmopolita (que “enfatiza questões de identidade pessoal, despreza a religião e quer acolher imigrantes, legais ou ilegais, em uma sociedade mais multicultural, e domina universidades, a mídia e Hollywood”), e uma tribo da direita que reúne pessoas “menos educadas, mais religiosas e mais brancos e homens do que o resto do país, que sente desprezo das elites culturais e começou a reivindicar sua própria política de identidade para competir com outros grupos”.

É essa direita, segundo Lilla, que domina em todos os níveis do governo, particularmente no centro econômico e geográfico do país. “E liderando todos nós temos um demagogo diabolicamente talentoso que acumula o poder colocando os americanos uns contra os outros.”

Para o historiador, a solução é redescobrir as virtudes da cidadania, como uma ideia democrática e como um elemento de retórica política. “Essa é uma proposta absolutamente realista. Nossas sociedades são genuinamente mais diversas hoje em dia: isso é um fato. Também é fato que levamos vidas privadas mais individualistas do que no passado.” 

E, principalmente, deve-se acreditar e proteger – para o bem de todos – a cidadania. “Somos todos cidadãos nascidos ou naturalizados, e merecemos ser tratados como iguais. Tendo em mente que ser cidadão não é apenas ter direitos. É também sobre ter deveres, uns com os outros e com nossas repúblicas.” O maior sinal de que isso deve ser feito é países como a Polônia e a Hungria abraçando e celebrando o que o presidente húngaro Viktor Orbán chama de “democracia iliberal”, e forças políticas lá e na Itália, Áustria e França estarem formando uma nova Frente Popular, desta vez da direita radical. “Democracias sem democratas não duram. Elas decaem para oligarquia, teocracia, nacionalismo étnico, tribalismo, regime autoritário ou alguma combinação destes. Não estou exagerando quando digo que há sinais de todas e cada uma dessas patologias na vida democrática americana hoje. E me entristece pensar que o Brasil pode em breve sofrer das mesmas patologias que nós sofremos nos Estados Unidos”, finalizou. 

Pondé concentrou a sua conferência no termo que alguns autores chamam de ciência política cética. Existe uma ciência política que pensa o modo de transformar a democracia em uma vivência mais efetiva. E, segundo ele, há outro conjunto mais recente e que tem impactado os estudos a partir do ceticismo – mas que não necessariamente fala mal da democracia. “Neste sentido, pensar a democracia de uma forma atual pode mais atrapalhar do que ajudar. Uma das características da forma ideal de pensar a democracia é que você vai para casa, deita e dorme feliz com você mesmo. Pensando que você é um cidadão ativo na política, quando talvez a sua principal preocupação seja, antes de tudo, a janta, e não a liberdade de expressão. Por isso que, de repente, você se vê apoiando determinadas posições que não seriam tão democráticas.” 

O primeiro conjunto de observações céticas que ele destacou – relembrando o famoso comentário de Alexis de Tocqueville sobre a democracia americana em 1831 – é o comportamento do eleitor, especialmente as reações de quando o eleitor se sente ofendido. Pondé explicou o que autores americanos denominam de Folk Theory of Democracy, ou seja, teoria que defende que os eleitores escolhem e votam em candidatos que refletem os seus desejos e os desejos coletivos do povo. “Um dos pontos seria o de que as pessoas que têm maior repertório – melhor formação ou condição econômica – necessariamente sofrem de menos viés ideológico. Isso, simplesmente, não parece ser verdade. Para princípio de conversa, qualquer pessoa que vive, seja dentro da universidade, próximo a artistas e agentes culturais e dentro da mídia, já sabe que isso não é verdade. Você pode ser uma pessoa razoavelmente informada e com enorme viés ideológico.”

Outro ponto importante é a entrada das mídias sociais na política. “Se o pressuposto do John Stuart Mill, o grande liberal britânico do final do século 18 e começo do 19, era de que, se você colocar as pessoas para se informar melhor e dialogar, elas vão desenvolver posições mais iluminadas e vão se entender melhor. Portanto, este caráter dialógico da democracia e do envolvimento entre os cidadãos produziria maior tolerância e maior entendimento. No entanto, com a entrada das mídias sociais, o postulado pedagógico de Stuart Mill parece não se sustentar. Pelo menos em grande parte, quanto mais as pessoas discutem política, mais elas se odeiam.” 

O último grupo de elementos citado pelo filósofo faz referência à tentativa de entender o que acontece no cenário político a partir do comportamento do eleitor, e talvez um dos outros grandes mitos sobre política: o de que as pessoas pesquisam e formam consciência política. “Ninguém tem cognição política suficiente – um cidadão comum, por exemplo – para saber o que fazer com segurança pública no Brasil. Se o seu cunhado, que não trabalha com isso, lhe disser que sabe, ou ele bebeu demais ou quer fingir que é inteligente. Porque o problema é simplesmente grande demais. Só que nós votamos em pessoas que deverão resolver problemas sobre os quais nós não temos a mínima ideia de como resolver.”

Dessa forma, a tendência é que exista um crescimento de líderes populistas por conta das mídias sociais, assim como a transformação do processo da democracia em um grande objeto de marketing de microtargets. “Então, quem sabe um dia, você vai poder ter – como se fala por aí – indústria 4.0, em que você tem uma customização de produtos, você vai ter uma democracia customizada a partir de microtargets, em que algoritmos vão – a partir do que você produz – identificar o seu perfil e o candidato vai falar coisas que você quer ouvir, que sempre foi o princípio técnico de marketing da democracia desde a Grécia.”

Pondé citou o caso do recente crescimento, no Brasil, da atividade do Supremo Tribunal Federal (STF) em áreas nas quais ele não foi delineado e cuja função principal é a defesa e a constitucionalidade das leis. “Ele vai poder determinar sobre o aborto ou o casamento gay, por exemplo, para citar dois clichês. Porque existe uma sensação de que a democracia contemporânea é saturada de informação, saturada de desejos, saturada de militância, e que o Legislativo, que representaria a aspiração da população em termos de lei, atua com muito lobby corporativado, corrupto – não só no sentido de dinheiro, mas de querer manter a sua posição –, muito lento. Ao passo que o STF possui um conjunto de técnicos muito bem treinados, inteligentes e supostamente acima da média – é uma espécie de aristocracia. E a democracia estaria caminhando para uma situação em que ela teria que mesclar poderes representativos com poderes não representativos – como é o caso do Poder Judiciário.” Outro caso citado foi o da crise financeira na Grécia, em que a gestão econômica se descolou da soberania do voto. Ou seja, um plebiscito votou contra o pacote de medidas ortodoxas na economia e o Banco Central europeu ignorou a decisão, indicando ao governo grego que seguisse com o acordo para obter ajuda financeira.

“Isso mostra uma certa evolução – não no sentido de que está ficando cada vez melhor, mas no qual notamos um processo em que a democracia talvez esteja se adaptando a métodos que querem diminuir um pouco a pressão popular, principalmente em temas técnicos, objetivos de gestão. O famoso colégio americano, os famosos americanos na virada do século 18 para o 19, The Federalist Papers, que refletiam tanto sobre o risco da tirania da maioria, tinham pensado já sobre a necessidade de tomar cuidado com eleições diretas. Não se trata de fazer uma propaganda contra a eleição direta, os casos específicos que eu dei aqui foram casos técnicos, e que precisariam de pessoas especializadas para administrar, e que eu e você não seríamos capazes de escolher qual é a melhor economia para o País, e, sim, somente economistas que passaram a vida estudando isso e que lidam com isso todo dia, e que têm que tomar conta da gente, senão a gente acaba gastando demais”, finalizou.  


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