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Fernanda Torres

Debate sobre cultura e educação

Reconhecida por seu trabalho na televisão, no cinema e no teatro, a atriz e escritora brasileira Fernanda Torres é autora dos romances Fim e A glória e seu cortejo de horrores. Com obras em vários museus de arte contemporânea do mundo, o artista plástico brasileiro Vik Muniz usa a sua arte para interpretar a realidade. Na conferência de abertura da temporada 2018 do Fronteiras do Pensamento, os amigos Torres e Muniz protagonizaram um debate sobre cultura, internet, educação e o papel do artista na sociedade atual.

Fernanda Torres iniciou sua fala apresentando uma citação publicada em Ao vencedor as batatas, livro do crítico literário Roberto Schwarz sobre a obra do escritor Machado de Assis. No trecho específico, o arquiteto Nestor Goulart Reis Filho reflete sobre as implicações e as consequências de se enaltecer no Brasil, depois do processo de independência, uma arte moldada a partir de padrões e critérios europeus. No fingimento, as paredes serviam de moldura para pinturas com motivos arquitetônicos greco-romanos, paisagens do Rio de Janeiro ou da Europa e ambientação neoclássica, um cenário diferente das senzalas e dos terreiros de serviço da época.

“Eu acho que a questão da arte no Brasil é um pouco como fugir de ser esse papel de parede. Como fugir de ser apenas um reboco, uma pintura que imita algo que não nos diz respeito. E que, ao mesmo tempo, diz algo sobre quem a pinta. Porque são ideais que ele almeja e quer.” A atriz ressaltou que, no início de sua carreira, existiam dois caminhos principais da arte no País: a arte de entretenimento – manifestada pelos melodramas, novelas, comédias e pornochanchadas – e a arte mais séria, que pretendia falar das desigualdades e dos problemas sociais, como a peça Arena contra Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, e o Cinema Novo. “O papel do intelectual e do artista era falar em nome de um povo que não tinha voz. E eu me lembro muito que esse nome – o povo – era algo um pouco sem forma, era uma massa cinzenta sem expressão, passiva, sofrida, e que, de alguma maneira, necessitava de alguém que falasse em nome dela. E, durante muito tempo, acho que a arte e a cultura tiveram esse lado engajado.”

Este papel, segundo Torres, permaneceu mesmo com o advento dos blockbusters. No entanto, a grande mudança aconteceria a partir do surgimento das redes sociais e dos reflexos da revolução cultural, tecnológica e social provocada por isso. Com o mundo globalizado e a comunicação descentralizada – não mais ficando restrita a jornais, rádios e outros meios oficiais de comunicação –, o papel do artista mudou. “Uma peça marginal como Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, tinha o poder de mudar realmente uma sociedade. A minha geração foi mudada por eles. Mas, hoje em dia, quando você quer atingir a opinião pública, ela é algo muito maior. É algo que só é possível atingir com um volume massificado de lançamento. Você não tem mais três jornais e duas televisões, você tem 50 milhões de janelas, sites e posts que parecem tamagotchis que você tem que alimentar, senão eles morrem.”

Nesse sentido, para a atriz e escritora, o que era mainstream há algumas décadas, como as discussões suscitadas por filmes como Último Tango em Paris ou Apocalipse Now, hoje seria considerado cult e perderia na briga por audiência com super-heróis como Thor, Super-Homem e Homem-Aranha, aqueles que são capazes de atingir a opinião pública atualmente. “Do outro lado, aquele povo, aquela ideia de povo, se dividiu em milhões de nichos, cada um com a sua identidade. E que se virou para esse intelectual, que antes falava em nome deles, e disse: ‘Desculpa! Eu não quero mais que ninguém agora fale em meu nome. Eu quero falar em nome de mim mesmo’.”

Ao mesmo tempo, as discussões sobre identidades nas redes sociais se acirraram. Torres citou o exemplo de uma peça do ator Luís Lobianco, em que ele interpretava uma drag queen e que foi alvo de críticas e protestos. “Isso para a arte é muito complicado, porque a arte é o lugar por excelência da representação, do experimentar ser outro, do poder se ver no lugar do outro, é o lugar da empatia.” Segundo ela, existe hoje uma demanda para que o artista abrace uma causa que faça a sua arte ser necessária ou que invista no entretenimento para alcançar minimamente os poderes de Thor, por exemplo. “Hoje, eu acho que o que atormenta um artista, um intelectual, é a reflexão sobre que lugar é esse da arte que não é engajada, que não precisa necessariamente se engajar num lugar único que lhe é próprio. E como fazer desse discurso um discurso abrangente para todos. Que lugar é esse que talvez consiga se comunicar com um país como um todo. Isso eu acho que é o mais difícil hoje para um artista brasileiro”, finalizou.

Vik Muniz aproveitou as reflexões de Torres para falar sobre a representatividade de Asdrúbal Trouxe o Trombone e outros grupos teatrais, os reflexos da ditadura militar no Brasil e a importância do surgimento de bandas como a Blitz, quando as pessoas pararam de falar em política e passaram a debater a dinâmica e a mecânica da representação. “Arte é a evolução da interface entre a mente e a matéria. Entre o que está dentro de você e o que está fora de você. A gente tem trabalhado nessa evolução por mais de 60 mil anos. E esse projeto, que é uma linha quase inquebrável, é uma evolução muito sólida, com algumas revoluções, como a invenção da perspectiva e a da fotografia. Mas que nos traz até aqui hoje com a possibilidade de comunicar o que a gente sente, de contar uma história, a história da nossa civilização.” 

De acordo com ele, este projeto foi interrompido com a revolução digital. Muniz defendeu que a fotografia, ferramenta que considera perfeita e que surgiu em meados do século 19, carrega características tanto do mundo mental quanto do material, tornando-se a interface perfeita. “E a imagem digital chegou e, simplesmente, com um alfinete, estourou essa membrana. Estamos condicionados a viver num mundo de comunicação. A nossa relação com o meio ambiente, a nossa relação com este mundo se tornou totalmente imaterial e intangível”, declarou.

Em geral, o trabalho dos artistas tem sido, ao longo dos séculos, atualizar e manter a imagem do mundo que, para Muniz, é um mundo que transcende as paredes e o concreto e é baseado muito na fé. “Quando eu falo que a arte é essa interface entre a mente e a matéria, você usa para acreditar em propriedades da matéria que não estão presentes também.” É neste cenário, do material e do imaterial, que o artista plástico mantém a reflexão sobre o seu trabalho e as suas obras. “Essa imagem do artista como uma espécie de sábio, de guru, de xamã, me parece um pouco falha. Eu fico procurando uma estrutura ética dentro da minha prática como artista, e acho que ela tem muito mais relação com continuar esse desafio de propagar uma linguagem mais eficiente que aproxime as pessoas da melhor imagem do mundo possível.”

Trazendo o exemplo de “Montanha Sainte-Victoire”, quadro de Paul Cézanne que representa um cenário como poderia ser visto por um homem contemporâneo dele no século 19, Muniz se indagou: “Que arte é essa que vai mostrar para as pessoas o que elas estão pensando? Ou como elas podem ver as coisas? Que arte é essa que é capaz de mudar de uma maneira ética e melhorar a imagem do mundo? Este mundo, este grande mundo como imagem. Este mundo que parece atravessar todas as barreiras materiais por essa fluidez, essa coisa efêmera que a imagem digital proporciona”.

Muniz afirmou que sempre teve o objetivo de se tornar um artista de parede, cujas obras atraíssem as pessoas para os museus ou galerias, ritualizando a experiência visual. “É o inverso daquela experiência como a gente tem quando estamos dirigindo, por exemplo, ou andando num shopping. Estamos sempre sendo bombardeados por imagens e nos tornamos eficientes em absorver essas imagens e cada vez menos eficientes em ter algum tipo de discernimento em relação a elas. Quando você coloca uma obra em um museu, as pessoas são obrigadas a ir em direção a uma imagem. Esse ato consciente de se movimentar em direção a uma imagem é uma das coisas mais importantes.” 

O artista explicou que, desde o período paleolítico, existia uma linha inquebrável em que a representação era feita para produzir uma imagem próxima da realidade, permitindo a sua compreensão do mundo. “Teve um momento em que a ideia de ficção, a ideia da ilusão, era quase uma coisa pejorativa. Existe a realidade e a ilusão. A ilusão era ruim, porque ela nos afastava da realidade. A revolução digital veio elucidar o fato de que a gente ainda vive na caverna de Platão. Não temos a menor possibilidade de entender a realidade do nosso entorno sem o artifício da ilusão para nos guiar.”

Durante 200 anos, a humanidade colocou toda a sua história pessoal em um único receptáculo: o da fotografia. No final dos anos 1980, com o aparecimento de programas como Corel e Photoshop, que possibilitam a manipulação e a transformação da imagem, essa relação com o documento visual foi alterada. “Estamos vivendo num momento muito desafiante da história e para a história. Eu acho que a possibilidade de você viver num mundo onde o documento visual já se tornou irrelevante traz problemas até para a continuidade da própria história. A gente não tem mais onde basear essas memórias, essas coisas que estavam documentadas em algum tipo de material.” Para Muniz, a deficiência com a realidade que tem sido promovida pela relação imaterial das pessoas com a imagem já vem se manifestando na política e nas relações via redes sociais.

Ao mesmo tempo, ele ressaltou que qualquer tipo de representação, seja uma fotografia, um desenho ou uma pintura, exige que se pare de viver aquele momento para documentá-lo. “A história da imagem é a história da cegueira. São momentos que foram subtraídos do fluxo da vida para que outras pessoas pudessem experimentar a sua vida. A história da representação nunca foi vivida. Ela sempre foi uma ficção, de uma certa forma. Eu acho que, neste momento, a gente não tem certeza se estamos vivendo talvez a evidência de que esses fatos realmente não são fatos de verdade, que a experiência humana inteira está dedicada a permanecer no intangível. Mas há a preocupação se, de alguma forma, a gente vai conseguir viver sem essa acumulação de fatos, sem essa ideia da documentação material que o artista soube proporcionar até hoje.”

Como solução, Muniz apontou que a linha que pode resolver esse problema da documentação material é pensar e estudar a imagem fora da imagem. “E, de todas as soluções que eu tenho imaginado para isso, educação é sempre algo que tenho tentado deixar na minha prática como artista, e talvez seja a coisa mais importante. Começar a pensar a imagem ou realmente se dedicar a entender o que é uma imagem, de uma forma que as escolas ainda não proporcionam este tipo de conhecimento. Acho que é por isso que, às vezes, eu como artista tenho quase – voltando à ética do meu trabalho –, responsabilidade de falar sobre isso, reproduzir no meu trabalho, mostrar essa imagem do mundo como as pessoas pensam. Acho que precisamos começar a nos preocupar com isso agora – tenho filhos – e estou muito preocupado com o que pode acontecer no futuro”, finalizou. 


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