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Fernanda Torres

Debate sobre cultura e educação

Autora dos romances Fim e A glória e seu cortejo de horrores, Fernanda Torres é uma escritora reconhecida no Brasil e no exterior com milhares de livros vendidos. Intelectual e cronista polêmica, possui uma trajetória sólida na televisão, no teatro e no cinema. Para o artista plástico Vik Muniz, a cultura deve estar próxima de todos. Com obras nos principais museus do mundo, ele está engajado em causas sociais a partir de uma arte criativa e inusitada. Na conferência de abertura da temporada 2018 do Fronteiras do Pensamento, os amigos Torres e Muniz debateram sobre cultura, as fronteiras, a imagem do mundo e a necessidade de novos consensos.   

Fernanda Torres iniciou sua fala refletindo sobre as fronteiras e a diferença do mundo atual quando comparado ao de sua juventude, e resgatou uma entrevista do músico David Bowie à BBC, em que se refere à internet como uma “forma alienígena”. “Quando essa forma alienígena apareceu, eu tive um delírio de um futuro talvez conectado. Eu vivi o fim da Guerra Fria. Então, fazia sentido a ideia de um mundo globalizado, sem fronteiras. Cheguei a viver esse sentimento de poder ir e vir. Depois, com a internet, de poder me conectar com o mundo em todas as línguas. E me veio esse delírio de uma paz romana. Para meu choque, o contrário aconteceu. Essa forma alienígena foi destruindo toda a estrutura nas artes. Foi acabando com o mercado fonográfico, a televisão, o cinema e a forma como fazemos negócios financeiros.”

A atriz também refletiu sobre o posicionamento dos jovens, acostumados com e inseridos na internet e nas redes sociais, de negligenciar a importância da cultura, da arte e dos direitos autorais no ambiente digital, considerando que os artistas devem encontrar o seu retorno financeiro ou autoral apenas no mundo real. “Tanto o jovem que seria mais à direita, o liberal, o consumidor exemplar, quanto o jovem alternativo, ambos não reconheciam na minha atividade um valor de mercado. Embora ambos idolatrem o Google, a forma alienígena, a nave fantasma. E não se importam de eles mesmos serem a moeda de troca dentro dessa nave alienígena. Porque os dois significam, ali dentro, uma moeda que será comercializada. E essa é a nova ordem dos tempos.”

Essa nova ordem, segunda ela, também se manifesta na grande frustração do mundo, com uma riqueza que não é dividida e com as pessoas – mesmo fugindo do esquema tradicional de atuação – trabalhando mais a cada dia. Nesse cenário, a arte virou objeto de consumo pertencente ao mundo analógico. “Isso não aconteceu só nas artes. Aconteceu, por exemplo, com o jornalismo. Uma das grandes questões, hoje em dia, é como os jornais conseguirão se manter num mundo em que o que sustentava aquela cadeia não sustenta mais no mundo virtual. Em que as pessoas não param mais para ler um artigo. Elas se comunicam em 140 caracteres.” 

Este é um mundo que consolida as diferenças, com uma grande massificação da cultura e as milhões de janelas – na forma de perfis, sites e posts – que precisam ser constantemente alimentadas como tamagotchis. Para a atriz, a grande massa da internet só pode ser atingida quando se difama alguém – e se cria uma grande polêmica – ou com a verba que seres intergalácticos como Thor ou Super-Homem têm à disposição. “Ou você escolhe o seu nicho. Porque nós nos dividimos em nichos. O algoritmo, que é o ser alienígena, nos dividiu em gostos e formas. Então, já que você não tem aquele poder, é melhor escolher o seu nicho. E nós somos tão fechados em nichos, concordando tanto uns com os outros dentro daquele nicho, e depois agredindo o pessoal que está no nicho do lado. As fronteiras, e isso é o grande choque, em vez de se desfazerem, elas só ganharam poder.”

A atriz e escritora explicou que o mundo virou o lugar das certezas absolutas que são defendidas como uma causa. “Este, para mim, é o grande desafio: como sobreviver num mundo tão bélico e tão fechado em certezas. Todo mundo tem certeza absoluta do lugar onde você deveria estar e, como estamos todos fechados em nichos, cada um convive com gente que concorda 100% com isso ou aquilo.” 

É nesse cenário que Fernanda Torres defende a dúvida. “Eu não acho que a arte seja conciliadora. Mas acho que ela é um espaço da dúvida. É a imagem da dúvida, da contradição humana. Daquele lugar que o Nietzsche fala que é o absurdo, que quando o homem chega no absurdo só a arte vai lá e o ajuda. Quando o homem chega no trágico, no acaso absoluto, no choque com o seu destino, é a arte que vai lá e dá a mão a ele. A arte é o lugar da dúvida por excelência, não da certeza.”

A empatia e o colocar-se no lugar do outro mantém a sua relação estreita com a cultura e a arte, de acordo com ela. “Acho que todo mundo atualmente sente que o mundo está prestes a acabar e a destruir a si mesmo e ao resto. É um sentimento difícil hoje em dia. E falando dessa questão da dúvida, da capacidade de se ver no lugar do outro, que eu acho que é muito relacionada à arte, queria terminar falando de Hamlet, que é o personagem da dúvida por excelência. E que é o personagem que, segundo Harold Bloom, fundou a consciência do homem moderno. É um cara que vive da dúvida e acaba louco por isso. Então, eu espero não contribuir para matar milhões de pessoas com a minha dúvida, mas continuo agarrada a ela”, finalizou. 

Vik Muniz iniciou abordando a ideia que temos do mundo, de sua conceituação até a imagem que formamos dele. “O mundo é uma imagem. Uma imagem que nós fazemos coletivamente. A gente trabalha nesse conceito há muito tempo. E quando falamos dos problemas que afligem a sociedade, às vezes eles têm menos a ver com a implementação de processos para sanar certas dificuldades do que com uma percepção falha do que é essa imagem coletiva. Do que ela representa, do que ela pode representar.”

Nos primórdios existiu um mundo sem imagens, onde cada coisa significava apenas ela mesma. Esse, segundo Muniz, era um mundo impossível de ser comunicado. O homem dessa época só conseguia diferenciar o que o cercava a partir de critérios como alimentação ou perigo. E, há 60 mil anos, quando os primeiros registros começaram a ser notados ou aparecer, uma narrativa se construiu. “Esse primeiro artista pegou uma pedra ou um graveto e completou uma imagem na rachadura da pedra, talvez com os detalhes que faltavam: uma pata, um rabo, um chifre. E todas essas memórias voltaram a fazer sentido. O mais interessante é que, quando ele chamou os outros membros da tribo para testemunharem aquilo que ele havia feito, todos eles sentiram as mesmas coisas. Aquilo era comunicável. A invenção da representação talvez seja a coisa mais importante na história da civilização humana depois do controle do fogo. Foi a partir daí que o homem conseguiu não só preservar aquele evento, aquela caça. Mas passar para os filhos, para os netos. E ainda para a posteridade.”

Para Muniz, esse fato tem uma relação estrita com a arte e com a corrida atual entre desilusão e tecnologia. “A arte é a evolução da interface entre a mente e a matéria, entre a consciência e o fenômeno, entre o que está dentro e o que está fora. O único problema dessa definição é que ela serve da mesma forma para a ciência e para a religião. Porque isso são disciplinas que, em algum momento, significavam a mesma coisa. Porque elas têm a ver com fé, têm a ver com acreditar. De todas as espécies que existem hoje em dia, talvez a nossa seja a única que acredite.”

De acordo com Muniz, os problemas que a humanidade cria para resolver e as situações que são geradas para possibilitar a inovação são os modelos mentais essenciais para a preservação da nossa espécie. E ressaltou que, nesse cenário, a fotografia sempre foi a melhor ferramenta para trabalhar os aspectos mental e material. “Quando eu falo de fotografia, falo como artista. A fotografia que você pendura na parede ou carrega no seu bolso, não essa que está no telefone que vocês todos têm aí. Porque essa fotografia na parede ou no seu bolso é um objeto que você segura ou que você fica em frente. Você pode se posicionar na frente dela, e pode pensar nela como objeto. E a importância de ela ser um objeto é que, como ferramenta, ela possui aspectos que são mentais. Você consegue, através de uma foto, lembrar, se emocionar. Ela passa sentimentos, emoções, memórias. E ela também tem o aspecto material: é um objeto.”

A mudança, segundo Muniz, aconteceu com o advento da tecnologia digital, que alterou a nossa relação com a fotografia, assim como a fotografia já havia alterado o lugar factual da pintura há alguns séculos. “A ideia de desenvolvimento dessas tecnologias que nos levavam a um perfeito simulacro era justamente criar uma relação entre aquilo que era etéreo com aquilo que era tangível, que podia ser tocado. Com a tecnologia digital, isso ficou obsoleto. Leonardo (Da Vinci) tinha essa frase: ‘Arte é coisa mental’. O mundo agora está sujeito à mente. Estamos vivendo no mundo puramente mental.” Essa foi a grande transformação na maneira como construímos e vemos a imagem do mundo. 

Este é um processo que interrompe o próprio contexto da história. Se antes as vidas das pessoas foram armazenadas durante mais de 200 anos na fotografia como único receptáculo, atualmente a lógica de registrar a trajetória por meio dos documentos visuais foi substituída por tecnologias digitais que são altamente manipuláveis, de um documento até uma foto de perfil de rede social. “Este não é um mundo natural. Ele está predisposto a acontecer através de correntes retóricas. Tem fluxos retóricos que talvez sejam os problemas principais da maneira como fazemos gestão da nossa existência como sociedade. Acredito que nunca na história da civilização foi tão importante pensar sobre a imagem. É, ao mesmo tempo, um terror e um privilégio trabalhar como artista nestes tempos.”

O resultado é um conjunto de bilhões de imagens que são feitas todos os dias e nas quais não podemos confiar como registro oficial ou verdadeiro. “Essa imagem do mundo se tornou um universo muito niilista. Não temos mais como confiar em imagens. E se não confiarmos em imagens, no que vamos confiar? Lembra daquela frase ‘ver para crer’? Para onde que podemos levar isso? Da minha área, do meu pequeno nicho, só tenho uma coisa que imagino ser importante. Porque numa época passada as pessoas acreditavam em pinturas de guerra. Tinha uma pintura em que o Napoleão aparece. Tem uma pintura no Metropolitan que é ótima: todos os soldados têm a mesma cara. E a gente acreditava que aquela guerra tinha acontecido. O grito do Ipiranga, essas coisas. Porque aquilo foi pintado daquela forma. Eu não ia propor um retorno a essa ingenuidade, mas à ideia de que você pode ainda criar um contexto em que as pessoas podem se comunicar de forma não polarizada, efetiva.”

Nesse universo digital e complexo, as pessoas têm buscado cada vez mais as formas simplistas, seja nas suas visões ou na forma como interpretam o mundo. E isso está bem expresso na polarização e nos debates na internet. Como solução, o artista aponta que uma das possibilidades é promover uma alfabetização midiática e visual, para encontrar novos acordos e consensos por meio da educação. “A gente está ficando cada vez mais rápido na maneira como assumimos e assimilamos a mídia, e cada vez mais lentos na maneira como criamos discernimento em torno disso. Tem alguma coisa errada com essa imagem, e tem a ver mais com a complexidade dela do que com qualquer aspecto ético de que o mundo está assim ou está assado. É só se resolverá quando conseguirmos desenvolver, através da educação, métodos para voltar a ver o mundo como a gente via há alguns anos, quando a gente segurava a fotografia e pensava sobre o que tinha acontecido. E tinha a perfeita segurança de que aquilo era um fato. Isso aconteça, talvez, quando os fatos e as opiniões não estiverem mais tão confusos, como vemos hoje na política e em todos os lugares. Hoje, a ideia de evidência física está se tornando irrelevante”, finalizou. 


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