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Gro Harlem Brundtland

Desenvolvimento Sustentável, Clima e Energia: um desafio urgente

A sustentabilidade deve ser uma meta dos governos e dos cidadãos. Primeira mulher a chefiar o governo da Noruega, ocupando o cargo de primeira-ministra, Gro Brundtland defende o desenvolvimento sustentável, o trabalho das mulheres e as políticas que privilegiem o meio ambiente, o crescimento econômico e os direitos humanos.

Médica e líder internacional na área da saúde pública e do desenvolvimento sustentável, ficou conhecida mundialmente ao apresentar, em 1987, o relatório Nosso Futuro Comum, dentro da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, presidida por ela. E foram informações sobre sua trajetória profissional e os rumos que o planeta está tomando que ela apresentou em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre.

Gro Brundtland contou que visitar o Brasil é sempre inspirador e desafiador, pois é um país crucial para o futuro do nosso mundo. Sua primeira visita ocorreu em 1980, viajando para São Paulo, Manaus e região amazônica. “Mais de 30 anos atrás, este era um lugar diferente, e não podia ser caracterizado como aberto, como uma democracia participativa. Hoje vocês estão em processo eleitoral, com duas mulheres candidatas à Presidência à frente nas pesquisas. Uma fantástica mudança de cenário, certamente!"

Médica e mãe de quatro filhos, Gro entrou na política a convite do então primeiro-ministro da Noruega para se tornar a ministra do Meio Ambiente. “Eu estava espantada, mas convencida de que deveria aceitar o desafio. Como eu poderia desistir, mesmo tendo quatro filhos pequenos, se eu havia argumentado tão consistentemente por mais participação no trabalho e na arena política para as mulheres assim como para os homens?", ressaltou. Através de obrigações, desafios e oportunidades, ela notou que sua experiência na área da saúde pública poderia trazer benefícios para o novo cargo. “Afinal de contas, nossa grande preocupação quanto ao meio ambiente diz respeito à saúde das pessoas, mesmo que ainda precisemos perceber o quão dependentes todos nós nos tornamos da saúde do próprio planeta", enfatizou.

Em 1972, em Estocolmo, participou do primeiro encontro global das Nações Unidas a respeito do meio ambiente. E lá ouviu a famosa frase de Indira Gandhi: “A maior fonte de todas as poluições é a pobreza". “Claramente, a grande preocupação para o desenvolvimento humano deve ser a erradicação da pobreza extrema e entender as necessidades e direitos de todos os seres humanos para que tenham dignidade, escolhas reais e uma vida decente", explicou. Segundo Gro, meio ambiente e desenvolvimento devem estar integrados para que essas metas sejam atingidas.

Anos depois, em 1981, ela foi a primeira mulher a se tornar primeira-ministra da Noruega e primeira ministra do Meio Ambiente a ocupar o cargo. “Isso aconteceu no início dos anos 1980, com a consciência ambiental em ascensão. Nós vimos escândalos e catástrofes, como o desastre industrial de Bhopal na Índia, a catástrofe ecológica na Basileia, o acidente na usina de Three Mile Island e, mais tarde, Chernobyl. Um enorme desafio estava nos confrontando: o risco de dano permanente ao meio ambiente e ao planeta Terra", mencionou.

Já na Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, Gro e outros líderes formaram as bases para uma responsabilidade intergeracional, para avaliar a qualidade do crescimento econômico dos países, beneficiando os mais pobres, mas também reduzindo o impacto no meio ambiente. Esta base é o que frequentemente se menciona hoje como os três pilares do desenvolvimento sustentável: econômico, social e ambiental.

O mundo está demorando a responder seriamente às evidências claras levantadas pela Comissão ou por outros estudiosos. No entanto, Gro mantém o otimismo, especialmente com a redução da pobreza. “Mais de 2,3 bilhões de pessoas ganharam acesso à água potável. E mais de 3 bilhões de vidas foram salvas por redes contra mosquitos, e 90% delas eram crianças", afirmou. Ela citou exemplos de países como Coreia do Sul, Singapura, China, Brasil, Turquia e Etiópia, que realizaram experiências positivas através dos governos e mercados, com investimento social e melhor distribuição dos recursos.

Atualmente, na área do clima e da energia, o mundo enfrenta ainda os mesmos desafios de anos anteriores. O planeta está indo para um aquecimento de 4°C, e os países pobres e de economias emergentes são responsáveis por dois terços das emissões globais de gases poluentes. E esta porcentagem deve aumentar. “Enquanto o mundo tem melhorado em algumas áreas, como a recuperação da camada de ozônio e o número de pessoas tiradas da pobreza extrema, a visão de desenvolvimento sustentável em escala global permanece inacabada", explicou. De acordo com Gro, o modelo atual de desenvolvimento global é insustentável, pois não podemos continuar defendendo que nossas ações coletivas não afetam o meio ambiente ou que nossos estilos de vida, produção e consumo, assim como o crescimento da população, não trarão riscos para o planeta. “Quando a população passar de 7 bilhões para 9 bilhões em 2040, com o surgimento de 3 bilhões de novos consumidores da classe média nos próximos 20 anos, a demanda por recursos crescerá exponencialmente", comentou.

Assim, Gro defendeu que os mercados devem refletir os custos ambientais e humanos das decisões econômicas e atribuir preços que tornem transparentes as consequências de atos ou da falta deles. Como a criação de taxas para a emissão de dióxido de carbono, a transparência ou o cancelamento de subsídios a combustíveis fósseis até o ano de 2020 e novas formas de medir o desenvolvimento que não seja através do PIB (Produto Interno Bruto).

Na área da preservação das florestas tropicais, Gro ressaltou que o Brasil tem mostrado um progresso em larga escala. “No ano passado, o país reduziu o desmatamento em 71% comparado com a média anual de 1996 a 2005, e aumentou a produção agrícola e a renda rural", destacou. Desde 2010, governos têm doado mais de US$ 5 bilhões para programas que apoiam esforços como esse. E a Noruega é um dos apoiadores do Brasil, e prometeu doar US$ 1 bilhão até 2015 se as reduções mensuráveis forem demonstradas.

Os países têm pensado e se planejado em termos nacionais, não em uma base global. Para Gro, a meta agora é criar entendimentos comuns entre os indivíduos, ultrapassando as barreiras nacionais. “Como os jovens, através das redes sociais, estão acessando conhecimento e realidade, questões que afetam suas vidas futuras e segurança, eu acredito que a base para a pressão popular e a pressão por demandas consolidadas pode ser fortemente construída. Então, eu permaneço otimista", comentou.

Nos anos 1970, o desafio diplomático na área ambiental era que as fontes de poluição estavam em um país, mas os efeitos dessa poluição eram sentidos em outros países. Nos anos 1980, o objetivo foi reduzir as emissões de CO2 em 30%, mas outros desafios mostraram que essa abordagem seria uma punição para empresas que já haviam reduzido seu índice de emissão. Os avanços na época despertaram uma nova consciência, especialmente na Europa. Em 1989, a revista Time não exibiu um homem ou uma mulher na sua capa como personalidade do ano. Elegeu a Terra como o “planeta do ano". E muitas conferências mundiais para debater o meio ambiente foram realizadas, como a Rio-92. A década do otimismo foi impulsionada pelos Estados Unidos, com a liderança de Bill Clinton e Al Gore, inspirando outros países a agirem também. Mas o debate dos anos 1990 e as ações norte-americanas foram encerradas em 11 de setembro de 2001. “Felizmente, há uma série de sinais de grandes e emergentes economias, como a China, que têm tomado ações importantes para promover a saúde pública, o uso de energias limpas e esforços para reduzir as emissões perigosas", apontou Gro.

Além disso, as mulheres também têm sido apontadas como força vital para o crescimento e o desenvolvimento sustentável. Por este motivo, é fundamental para os valores e direitos humanos que o trabalho das mulheres seja valorizado. Outro ponto importante é a transição necessária para as fontes de energia sustentáveis em todo o mundo. “Os preços para turbinas e painéis solares têm diminuído, tornando estas soluções mais acessíveis e mais competitivas. Os mercados agora precisam, e estão pedindo, por mais ações governamentais que inspirem inovação e tragam soluções para que se alcance um mundo mais sustentável."

Mais de 20 anos depois da Rio-92, muitas perguntas ainda são feitas sobre as razões de o mundo não ter se tornado sustentável. Gro Brundtland acredita que as causas são políticas, sociais e técnicas. Mas vê com esperança medidas como as tomadas pela China, que reduziu sua dependência em carvão e óleo. Para o futuro, ela ressaltou que as parcerias serão indispensáveis entre setores públicos e privados, mas também da comunidade empresarial, que deverá ser socialmente e globalmente responsável.

“Eu continuo otimista. Avanços na ciência nos deram uma melhor compreensão sobre os riscos do clima e do ecossistema. Bilhões de pessoas, mesmo em países em desenvolvimento, estão conectadas socialmente através de tecnologias que têm encolhido o mundo e expandido a noção de vizinhança global. Reservar prosperidade e segurança para um grupo seleto, mesmo que isso seja moralmente aceitável, simplesmente não é mais possível. Enquanto vivermos no mesmo planeta, teremos que fazer acontecer para todos nós, ou nada acontecerá. Eu acredito que podemos fazer isso. Não há caminho alternativo à frente", finalizou.


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