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Gro Harlem Brundtland

Desenvolvimento Sustentável, Clima e Energia: um desafio urgente

Na noite de primeiro de outubro de 2014, o palco do Fronteiras do Pensamento São Paulo recebeu uma das mais importantes e atuantes personalidades políticas do mundo. Gro Harlem Brundtland é mãe de quatro filhos e de um conceito que, desafortunadamente, foi muito utilizado como um slogan esvaziado de sentido, o desenvolvimento sustentável. Em sua conferência, a diplomata norueguesa desenha o panorama dos avanços, retrocessos e iniciativas desde o nascimento do conceito no documento Nosso Futuro Comum de 1987.

Gro Brundtland já esteve no Brasil em outras ocasiões e o considera “um país muito importante para o futuro do mundo". A primeira vez foi no ano de 1984, como integrante da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 30 anos, o País, que antes cerceava o debate público das questões levantadas pela comissão, agora tem duas mulheres como favoritas nas pesquisas das próximas eleições para presidente, destacou.

Sua atuação política teve início na Noruega, destacando-se no Ministério do Meio Ambiente e, posteriormente, exercendo três mandatos como primeira-ministra do país. Em âmbito internacional, esteve à frente da Organização Mundial de Saúde (OMS), subordinada à ONU. Tornou-se uma “elder" (anciã), cuja iniciação foi cuidada por Nelson Mandela, fundador do grupo independente The Elders, formado por líderes mundiais reunidos sob o emblema da paz e dos direitos humanos. Kofi Annan chefia o grupo, do qual fazem parte, entre outros, Jimmy Carter, Desmond Tutu e Fernando Henrique Cardoso.

Ao assumir o Ministério, sua formação em Medicina e o mestrado em Saúde Pública nortearam o seu trabalho. A questão ambiental apontava para a saúde do mundo sob a perspectiva da pesquisa científica. Além destes elos, os existentes entre ambiente e desenvolvimento se tornaram fundamentais para o seu pensamento e o seu perfil na arena política. A diplomata relembrou Indira Gandhi na primeira reunião sobre o meio ambiente na ONU (1977): “Poverty is the greatest polluter" (a maior de todas as fontes de poluição é a pobreza).

O combate à pobreza e a defesa dos direitos humanos são, portanto, frentes de atuação de Brundtland. O desenvolvimento sustentável não poderia ser apenas assunto para os países ricos, como se acreditava de início. Um relatório recente indica os serviços sociais básicos para fortalecer a resiliência – capacidade de se recuperar ou de se adaptar a mudanças – de países em qualquer estágio de desenvolvimento.

Fundada a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ONU), as ideias por ela difundidas tiveram boa repercussão, impulsionadas inclusive pela relevância do debate frente aos escândalos e catástrofes dos anos 1980, como o emblemático acidente nuclear em Chernobyl. Discutiam-se os riscos e danos permanentes ao meio ambiente e ao planeta como um todo. Na comissão, conclamava-se o crescimento equitativo, com melhor distribuição de renda entre os países, equilíbrio entre desenvolvimento econômico e ecológico e a responsabilidade intergeracional (o que esta geração usufruir não deve ser prejudicial à seguinte). Esta foi a base para os três pilares do desenvolvimento sustentável: o econômico, o social e o ambiental.

“Como todos sabemos, o mundo tem sido lento demais para responder seriamente às evidências cada vez mais claras e maiores que nós temos", observou Brundtland, ressaltando, por outro lado, dados otimistas: “A pobreza foi diminuída consideravelmente no mundo todo", em especial no que se refere ao acesso à água potável. “Há um consenso maior sobre aquilo que funciona: uma abordagem pragmática, sabendo que uma boa governança e um Estado funcional são necessários para respaldar uma economia de mercado que prospere dentro das regras legais e de um contexto social básico."

A combinação de ações do Estado e do mercado tiveram melhorias no investimento social e distribuição de renda em países como Coreia do Sul, China, Singapura, Brasil, Turquia e Etiópia.

Os problemas levantados há 24 anos ainda são os mesmos, mas mudaram de cenário. Os países emergentes, por exemplo, agora são responsáveis por dois terços do total de poluentes emitidos, enquanto os países ricos estão diminuindo cada vez mais seus índices.

“Ainda que o mundo tenha melhorado em várias áreas, como a gradual recuperação da camada de ozônio e a diminuição da pobreza absoluta, a visão de desenvolvimento sustentável na escala global é algo que ainda deixa a desejar", lamentou a conferencista.

O clima é um dos problemas globais mais críticos, conforme apontou o secretário-geral da ONU, que firmou em seu painel na Rio+20:

o atual modelo de desenvolvimento econômico é insustentável;

não mais podemos pressupor que as nossas ações coletivas não desencadearão desequilíbrios na medida em que princípios ambientais são violados, com riscos irreversíveis aos ecossistemas e às comunidades humanas;

é preciso que todos reconheçam que a força motriz desse desafio inclui um estilo de vida sustentável, novos padrões de produção e consumo, levando em conta o impacto do crescimento populacional.

Até 2030, o mundo vai precisar de 50% mais alimentos, 45% mais energia e 30% mais água.

O painel ainda destacou o papel de saber medir e precificar o que de fato é relevante: “o mercado deve refletir os custos ecológicos e humanos das decisões econômicas e estabelecer preços que transpareçam as consequências tanto da ação quanto da inação". Isso significa que:

a poluição, incluindo emissões de carbono, não pode ser gratuita;

os subsídios devem se tornar transparentes e os combustíveis fósseis devem ser eliminados até 2020;

temos que construir novas formas de medir o desenvolvimento que não o PIB.

A mudança climática tem afetado os recursos hídricos, agricultura, saúde, ecossistemas terrestres e marítimos. O Brasil respondeu bem a esse quadro, demonstrando como o progresso pode ser feito em larga escala. “Até o ano passado, o país reduziu o desmatamento em 75% em comparação à média anual de 1996 a 2005 enquanto aumentava a produção agrícola e rural. Talvez esse seja o maior sucesso climático global em qualquer setor", ressaltou Gro.

Os países ainda se concentram demais em bases nacionais e não em globais. As redes sociais têm um papel cada vez mais proeminente na difusão de informações e na articulação pública para pressionar os governos sobre os problemas que afetam o mundo como um todo. Brundtland acrescentou: “O desafio diplomático era que as fontes poluidoras eram encontradas em alguns países e os efeitos recaíam sobre outros".

Nos anos 1990, houve muito avanço na área do desenvolvimento sustentável em termos de ações globais. Havia uma consciência crescente sobre a relevância do tema e o quadro era otimista. Mas tudo mudou em 11 de setembro de 2001.

Muitos processos em andamento perderam força. Avanços conquistados perderam espaço para a crise econômica em 2008. “Acredito que podemos concluir que nada acontece rápido o suficiente se os Estados Unidos não for uma das forças motrizes. E também é verdade que pouca coisa de relevante acontece se a China, a Índia e outras importantes economias emergentes, como o Brasil, não se engajarem pelos resultados."

Apesar do retardo na agenda do desenvolvimento sustentável, a diplomata não perde o otimismo e procurou mapear diversas ações globais que refletem avanços que vão desde melhores condições de saúde à adoção de fundos de investimento como o Green Fund (Fundo Verde). Emergiram novas tecnologias sustentáveis e o custo e o valor de venda de formas renováveis de produção de energia estão caindo e tornando-as alternativas economicamente mais competitivas (também por sua mais rápida velocidade de produção).

Para o secretário-geral da ONU, a energia é “o fio condutor que conecta desenvolvimento, inclusão social e proteção ambiental". Lidar com o problema de exclusão energética é um exemplo de como combinar filantropia, investimento e apoio governamental.

Nesse contexto, parcerias são cruciais. “A tradicional separação entre setor privado e público é algo que se torna cada vez mais irrelevante à medida que as nossas sociedades se dão conta de que somos interdependentes no mundo em que temos desafios e ameaças comuns. Não apenas os setores públicos e as ONGs, mas a comunidade empresarial tem que assumir sua responsabilidade social e global."

Gro Brundtland concluiu sua comunicação frisando que “reservar a prosperidade e a segurança para um grupo de poucos privilegiados, mesmo que fosse algo moralmente aceitável, é simplesmente impossível. Enquanto vivermos todos no mesmo planeta, as coisas vão ter que acontecer para todos nós ou não vão acontecer para ninguém. Eu acredito que seja possível. Não há via alternativa para o futuro".

A seguir, o jornalista Jaime Spitzcovsky conduziu o debate, trazendo perguntas da plateia. Gro Brundtland foi arguida sobre a poluição na China e mostrou as mudanças significativas naquele país, apesar de não ter se comprometido, como os Estados Unidos, com um acordo global.

A conferencista mostrou ainda uma postura pragmática sobre as possibilidades de avanços no desenvolvimento sustentável e do uso de fundos internacionais: “Você pode sempre ter aquilo que é o ideal, a respeito daquilo que deveria ser perfeito, quanto o mundo deveria ser transformado e com que rapidez, em padrões mais sustentáveis. Alguns devem achar que primeiro devemos abolir o sistema econômico atual antes de conseguir avançar. Se conseguíssemos fazer isso de uma forma simples e democrática, ótimo! Contudo, não é assim que as coisas funcionam. É necessário que tenhamos abordagens sistemáticas para mudar o nosso sistema de incentivos e desincentivos para os investimentos e para as ações dos governos. Não temos um mundo que esteja pronto para fazer mudanças ideais. Podemos fazer mudanças, causar mudanças, ter crescimento econômico e um nível maior de proteção ambiental. E é necessário um fundo para ajudar aqueles países mais pobres, que têm níveis baixíssimos de desenvolvimento, para que esses países possam usar a tecnologia correta para avançar, em vez de ter que passar por aquele estágio poluidor que a Europa, o Brasil, os Estados Unidos e outros países passaram. Podemos ajudá-los utilizando tal dinheiro, mesmo que esses recursos venham das economias mais potentes".

Acerca de seu trabalho como diplomata, confessou: “Preciso dizer que os últimos anos não foram os mais positivos e progressistas em minha vida", referindo-se aos conflitos na Ucrânia, na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos. “Um contra o outro de novo, de uma forma como por 25 anos não havia acontecido. Além dos conflitos na Síria, no Oriente Médio, na Palestina e em Israel, que estão longe de uma solução. É deprimente. Nos anos 1990, achávamos que o mundo estava avançando em termos de sabedoria, colaboração. Precisamos criar soluções progressistas para a paz, mas há tantos conflitos... alguns parecem insol. ualmentenflitos... alguns parecem insol sabedoria, colaboraçs economias mais potentes.stçmado e com que rapidez em padrados e úveis atualmente. Em geral, sou otimista, mas, hoje, tenho que admitir, estou preocupada."

Além da questão ambiental, Brundtland empreende esforços para a melhoria das condições de igualdade das mulheres. “Hoje, a maioria de nós não acredita ser um valor e um direito humano fundamental que o papel da mulher é essencial e deve ser promovido. As mulheres são cada vez mais reconhecidas como força vital para o crescimento e melhor desempenho das economias. Temos conhecimento, dados e experiência para comprovar que isso acontece. E aqueles que continuam adotando padrões patriarcais de vida econômica vão ficar para trás, bem para trás", defendeu. “Vejamos a Arábia Saudita, por exemplo, um dos países mais retrógrados em relação à mulher. Até eles estão começando a mudar. Porque mesmo os homens começam a se dar conta de que não podem mais se dar ao luxo de limitar o uso de carro pelas mulheres. Estão mudando tradições culturais muito enraizadas, pois estão vendo que, se a mulher não puder dirigir, ela não vai poder trabalhar. Uma sociedade não pode prosperar se ela não aproveitar todos os seus talentos. Estamos avançando, há mais meninas na escola atualmente, há mais mulheres nos parlamentos de muitos países. Precisamos empreender esforços para mudar e não apenas olhar e dizer 'ah, isso é cultural'. Pode ser cultural, mas viola os direitos humanos e, portanto, é inaceitável."

Outra preocupação sua é o avanço do fundamentalismo. “Se alguém tivesse me perguntado, no final dos anos 1980, se isso poderia acontecer, eu jamais teria imaginado que seria possível, mas aconteceu e está acontecendo. Temos que reunir nossas energias contra isso e defender sociedades abertas e transparentes, onde as pessoas tenham direito a ter sua própria opinião, sua voz, a ser ouvidas e ter sua religião sem nenhuma pressão."

Por fim, Jaime perguntou qual é o segredo do misterioso sucesso do desenvolvimento norueguês. “Somos uma democracia participativa que já existe há cem anos. Em 1913, as mulheres passaram a ter direito a votar, um dos primeiros países do mundo no qual elas tiveram esse direito. Somos muito mais igualitários do que a maioria dos países do mundo. Nunca tivemos o que outros países tiveram, como latifundiários e muitos camponeses que dependiam deles. Não tínhamos nobres. Ademais, as forças que têm dominado o cenário político na Noruega, também nos últimos cem anos, foram os partidos e sindicatos trabalhistas. Nem sempre tivemos governos trabalhistas, mas as políticas sociais e uma preocupação direta de oferecer oportunidades a todos, direito à saúde e educação independentemente de onde a pessoa morasse, na cidade ou na fronteira do país, sempre estiveram presentes. Quando encontramos petróleo, nós o utilizamos para beneficiar a população como um todo e não só aqueles que teriam direito para investir nas plataformas continentais. À medida que o lucro foi aumentando, criamos um fundo soberano, preocupados com as gerações futuras, para evitar a inflação e o uso de mais recursos do que deveríamos", disse Gro Brundtland, encerrando sua conferência no Fronteiras do Pensamento.


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